
Éramos seis irmãos. Eu era a mais nova.
Tinha dois anos quando nosso pai foi embora com a mulher do vizinho que era bem mais jovem que nossa mãe.
Deixou-nos numa casa alugada que D. Alaíde com muito sacrifício conseguia pagar lavando e passando roupas.
Quinze anos se passaram e ficamos sabemos que nosso pai havia falecido e que a mulher o deixara doente, sumindo com outro homem.
Certo dia apareceu um tabelião na nossa porta dizendo que ele havia deixado uma casa para minha mãe. Com a inesperada e feliz notícia fomos todos conhecer a nossa nova morada.
Era uma casa estranha. Tinha vários quartos, paredes vermelhas, poucas janelas, a sala grande e numa parede havia um local que demonstrava ter sido um bar. Os banheiros estavam desgastados com azulejos velhos e alguns quebrados. A cozinha no fundo, tinha um fogão à lenha e um moedor de café na parede. Ficava situada numa cidade próxima e tinha aspecto de abandonada há algum tempo.
Felizes da vida, começamos a limpeza da casa. Compramos tinta e fomos dando uma aparência melhor naquele lugar esquisito. Mudamos no mês de março.
A nova vizinhança nos olhava como se soubesse de alguma coisa, mas nada nos dizia.
Quando estávamos instalados começaram a aparecer homens batendo a nossa porta perguntando pelas mulheres. Ficávamos sem entender.
Certo dia a porta estava aberta e entrou um sujeito bêbado que ficou gritando todo eufórico: “cadê as muié, chegou o garanhão”. E minha mãe saiu lá de dentro assustada dizendo que ali era casa de família e o homem não queria ir embora falando que a casa era das famílias das muié da vida. Foi complicado tirar o cara de lá.
E assim descobrimos que ali tinha sido o Recanto do Amor, a casa de mulheres da vida.
Impressionados passamos a perceber o cheiro de sexo, bebida e suor no ar. A música, o pecado, a dança e o prazer pulsavam no calor das paredes e nos faziam imaginar as orgias acontecidas naquele ambiente. Pedimos até a um Padre para ir lá rezar e benzer para ver se tirava a energia daqueles homens e mulheres que passaram por ali.
Mas fomos ficando com as piadas dos vizinhos e amigos e a imaginação a nos consumir. Nunca descobrimos como e porque nosso pai comprou essa casa. Nossa mãe acabou perdoando-o e até agradecia pela casa.
Depois de três anos ela conseguiu vender a casa para um fazendeiro que comprou para fazer um novo bordel. Ele dizia que teve uma mulher linda que trabalhava lá, que foi apaixonado por ela e que sumiu e não mais voltou. Ele tinha esperanças que reabrindo o bordel ela voltaria.
Enfim nos mudamos para bem longe, mas nunca deixamos de imaginar o que havia se passado lá dentro…
Ana Amélia Guimarães
meliaguima@gmail.com
Baseado numa história real.

Sem dúvida essas casas podem mexer com nossa imaginação, embora a realidade das chamadas ” mulheres da vida” possa ser muito sofrida. Bordel? Ah, sem novidades, pois vivemos numa república federativa carcomida e cheia de vícios, que é mil vezes mais indigna do que qualquer bordel de mulheres da vida que existe por esse país afora. Bom texto, Ana Amélia, receba meus cumprimentos.
Que narrativa poderosa e, ao mesmo tempo, agridoce, Ana. Você escreve com uma clareza que nos faz sentir o cheiro da tinta fresca tentando esconder o passado das paredes vermelhas.
É fascinante (e um pouco irônico) como a vida dá voltas: o homem que abandonou a família por uma “mulher mais jovem” acaba deixando como herança justamente um antigo bordel. Parece que o destino quis pregar uma última peça, ou quem sabe, foi a forma torta que ele encontrou de garantir que vocês nunca mais pagassem aluguel. Sua escrita consegue equilibrar a dureza da realidade com esse mistério quase místico das paredes que “falam”. O “Recanto do Amor” tornou-se o refúgio de uma família cristã, criando um contraste absurdo e muito rico literariamente. Parabéns, querida!