Carta para amiga Cristina

Bol.Uol

Em 1990, quando nos encontramos na primeira aula do Mestrado em Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba, a gente se aproximou, e foi dado início a uma amizade para além da vida.

Você, casada; eu, solteira na época, me apresentou sua amiga Glória para que eu tivesse companhia para passear, jogar baralho e viajar.

Porém, nesse mesmo ano, conheci meu companheiro, casei, engravidei e passamos a ocupar o mesmo status de casadas, do qual você foi testemunha, pois estava presente no jantar de união que fiz em meu apartamento, em que estavam minha mãe, parentes dele e amigos que, em tão pouco tempo, já faziam parte do nosso círculo de amizade.

Foi um ano de estudo, aprendizados, correria e muito trabalho, que passou rápido. Conseguimos concluir nosso mestrado e fizemos amigos que, até hoje, lembram de nós.

Em 1991, nasceu meu filho Pedro, 18 anos depois do nascimento da filha Paty. E a vida seguia, com você fazendo parte dos momentos importantes: o primeiro aniversário do Pedro, nossas confidências, uma apoiando a outra com o conhecimento e a visão de mundo de cada uma.

Em 1995, tive que retomar meu emprego em Brasília. De longe, conversávamos sempre. Você esteve algumas vezes lá a trabalho, e eu te levei para conhecer minha casa; saímos para jantar e nos distrair.

Em 2009, após a aposentadoria, vim definitivamente para João Pessoa. Lembro o quanto você achou bom. Agora, teríamos mais tempo para fazer nossas caminhadas pelas calçadas da praia, ir ao shopping, assistir à missa, fazer nossos cursos bíblicos, tomar nossos cafés ao final da tarde, dar aquela voltinha, como você sempre falava.

Aprendi tantas coisas boas com você, amiga. Na Igreja Rainha da Paz, fomos cumprir rituais de jejum e orações; na Igreja Nossa Senhora de Fátima, participávamos das missas, cursos e confissões. Eu me sentia forte com você ao meu lado, quando chegava cheia de problemas, e você me ouvia e acalmava meu coração com aquele sorriso — em que até defendia quem tanto me fazia lacrimar.

Lembro da sua luta para viver a maternidade, mas ela não veio. Acho que Deus dizia que sua missão era outra — e foi: ajudar as sobrinhas, que você amava tanto, e tantas pessoas e comunidades às quais você se dispunha a dar o que podia de si, o que te deixava abastecida.

Lembro que você rezava o terço todos os dias — acho que até mais de uma vez por dia — e assistia à missa pela TV, sempre.

A sua luta pela vida começou, acredito, aos cinquenta e poucos anos. Você conseguiu superar a primeira doença e se sentiu curada. Uns seis anos depois, a doença voltou mais forte, e você foi lutando com todas as forças e esperança para se curar.

Lembro que você dizia: “Gosto tanto dessa vidinha, não quero ir embora. Quisera que Deus me deixasse aqui mais um pouco”. E eu sempre te animando, dizendo que você iria ficar por muito tempo ainda por aqui.

Foi acreditando na cura que você jamais esmoreceu. Foi até a última gota de esperança, lutando para vencer essa batalha, mas ela acabou, pois a hora de concluir sua vitoriosa missão aqui nesta terra chegou e te levou para junto do Pai e de Nossa Senhora, que tanto amaste, sendo recebida de braços abertos por um coral de anjos. Ainda sinto um vazio que não consigo entender.

Sua voz meiga, muitas vezes usando o diminutivo, a delicadeza do seu modo de se expressar…

Nossas conversas sobre os companheiros, que às vezes nos aborreciam, sobre o que fazer para o jantar… Um passeio com banho de mar na Praia do Poço, experimentar o delicioso caranguejo do bar ao lado, a caminhada para desopilar, as viagens para a fazenda — eu para a granja — e também para Recife ou Pipa ficaram nas lembranças e estão bem guardadas, pois são nossas.

Vejo sua partida como uma longa viagem para um lugar maravilhoso, onde encontrou a paz, o sorriso e a bondade que você procurava ver nas pessoas. Minhas tardes ficaram vazias. Não há mais aquele passeiozinho depois do seu sono da tarde, e eu ficava a esperar pelas 15 horas, pois nunca durmo depois do almoço, quando você acordava e me ligava para sairmos. Nossos passeios eram curtos, pois você sempre controlava o tempo para tudo — “temos duas horas para passear” —, mas isso nos motivava e recarregava nossas energias.

Eu ainda estou aqui, não sei por quê. Achei que nem fosse chegar aos 50, e já passei dos 70. O lugar onde você está, amiga, deve ser melhor do que este aqui, pois não há guerras, misérias, maldades nem invejas. Do lado de cá, a ganância dos poderosos está cada vez pior, estão destruindo o planeta e os bandidos dominando. Por isso, não fique triste por ter ido tão cedo.

Amiga, quero que você saiba que está presente no meu coração, e só tenho a agradecer por termos nos encontrado nesta vida. A certeza que tenho é que um dia nos reencontraremos e poderemos dar tantas e tantas voltinhas.

Muitas saudades suas, amiga…

Ana Amélia Guimarães
meliaguima@gmail.com

3 comentários sobre “Carta para amiga Cristina”

  1. Uma linda e emotiva crônica em formato de carta. A amizade verdadeira é tesouro eterno que a morte não rouba. Parabéns, Ana Amélia.

  2. Que texto profundamente emocionante. Ao ler suas palavras, é impossível não sentir a força dessa amizade que atravessou décadas, diplomas, cidades e os ciclos mais importantes da vida. Sua escrita transmite uma delicadeza rara; é um testemunho de que algumas conexões realmente vão “além da vida” Belíssimo! Abraços

  3. Escrever essa Carta para Cristina foi sentir ela mais perto de mim, foi relembrar alguns momentos que vivemos, foi fortalecer o laço que nos uniu, e que essa ausência mostrou que não esquecemos uma da outra. Gratidão a todos que puderam partilhar conosco esse momento. Abraços

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