Carícia com os olhos

Shirley Miguel.Com

Quando mudamos para aquela rua eu tinha 12 anos e Everaldo 17. Lembro que chegamos com a mudança e ele estava na calçada observando os novos vizinhos. Ao me ver, seus olhos castanhos faiscaram ao deparar com os meus, puxados herdados do meu avô.

Desde esse dia percebia sua emoção ao me ver e o meu coração a bater. Meus cabelos pretos na cintura e a boca avermelhada encantavam.

Nunca chegamos a conversar. De vez em quando encontrava uma rosa vermelha na grade do muro da minha casa, que tinha certeza que era ele que colocava.

Eu saia cedo para a escola com meu uniforme de saia azul plissada, blusa branca, meia três quartos, sapato preto, o cabelo a balançar e a pasta com os livros na mão direita. Ia de carona com Tina e a mãe dela e ele estava lá para me ver e esboçava um leve sorriso. Quando eu retornava era a mesma coisa.

Foram cinco anos assim. Everaldo me olhando e nunca se aproximou. Seus olhos demonstravam carinho de um amor não realizável. Diziam que era comprometido com uma prima que morava distante.

Ele se formou em Filosofia e eu me preparava para o vestibular do curso de Odontologia quando meu pai recebeu uma proposta para trabalhar em outro Estado.

O caminhão de mudança parou na porta de casa e os nossos pertences foram preenchendo os espaços vazios e até a batida final do portão.

Entrei no carro e só via a rua e Everaldo ficando cada vez mais distante. Jamais esqueci aqueles olhos tão carinhosos. Acredito que amei e fui amada, que fiz parte dos seus sonhos e até hoje fazem parte dos meus…

Como estará Everaldo?

Ana Amelia Guimarães meliaguima@gmail.com

2 comentários sobre “Carícia com os olhos”

  1. Seu texto é de uma sensibilidade rara. Com uma escrita simples e tocante, você conseguiu transmitir toda a delicadeza de um amor silencioso, desses que não precisam de palavras para existirem profundamente. A forma como descreve os olhares, os pequenos gestos e as emoções contidas cria uma atmosfera nostálgica que prende o leitor do início ao fim. É impossível não se emocionar com a história e se perguntar, junto com você, “como estará Everaldo?”Parabéns por transformar memórias em literatura com tanta beleza e sutileza.

  2. Muito bom saber que consegui expressar os sentimentos dos dois jovens nessa faixa da juventude em que tudo é beleza e fantasia. Grata por seu comentário minha querida amiga.

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