Camponeses pobres são perseguidos, presos e torturados pelo governo do Pará

A impunidade parece ter ainda mais força na região Norte do país. A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), aliada aos interesses de grande latifundiários, reuniu o aparato repressivo do Estado para fazer frente a 1.100 famílias de camponeses acampados na fazenda Forkilha, na região de Santa Maria das Barreiras, no sul do estado. Por Aline Pereira, jornalista.

Durante a plenária do 27º Congresso do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) sobre o tema ‘políticas sociais e a organização da classe trabalhadora’, um representante da Coordenação das Ligas de Camponeses Pobres relatou as atrocidades que foram cometidas na “Operação Paz no Campo” do governo paraense, ocorrida em novembro passado.

O saldo foram 200 famílias presas em regime de ajuntamento, 23 pessoas encarceradas, 16 mandados de prisão em aberto contra as lideranças dos camponeses, três mortes e extensa lista de práticas coercitivas e vexatórias. Homens e mulheres foram barbaramente torturados. Muitos foram obrigados a beber pimenta com alho.

Entre as violências cometidas, a polícia ainda simulou o afogamento de alguns trabalhadores como forma de terrorismo. A esposa de um dos participantes da ocupação grávida há seis meses sofreu um aborto. Outra senhora também grávida ouviu ameaças de que “cuspiria o feto pela boca”. Filhos dos agricultores também foram espancados.

Em julho de 2007, esses camponeses iniciaram a ocupação com a construção de suas casas e o cultivo da terra na fazenda Forkilha, onde foi constatado trabalho escravo. A fazenda de aproximadamente 4.700 alqueires pertenceu a Jairo Andrade, fundador da União Democrática Ruralista (UDN) local. De acordo com a Constituição Federal, os locais que promoveram ou permitiram a perpetuação da escravização da mão-de-obra, independentemente de serem ou não produtivos, devem ser destinados ao assentamento das famílias de agricultores. Até o momento, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não se manifestou sobre o assunto para realizar a vistoria da área e constatar a legalidade do assentamento na fazenda Forkilha.

Os grandes latifundiários contam com a conivência dos representantes do Estado para reproduzir a violência e perpetuar a impunidade dos mandantes dessas agressões aos camponeses. Enquanto a governadora do Pará e outras autoridades dizem desconhecer a violência fomentada pela “Operação Paz no Campo”, e tentam abafar as notícias sobre os acontecimentos na fazenda Forkilha, as lideranças correm o risco de serem assassinadas pela pistolagem local.

A Coordenação das Ligas de Camponeses Pobres defende a reforma agrária e luta, há mais de duas décadas, pelo direito à posse e ao cultivo da terra, representando trabalhadores do Pará e do Tocantins. Mas a mídia comercial tem se esforçado para criminalizar o movimento organizado, forjando fotografias em que os agricultores foram obrigados a posar ao lado de armamento pesado – segundo as lideranças das Ligas, da própria polícia.

A revista Veja e o jornal Folha de S. Paulo chegaram a associar o grupo de camponeses a ladrões de bancos e de cargas, omitindo que o aparato policial do Pará contou com o auxílio de pistoleiros para perseguir e agredir os agricultores. Como relatou o representante da Coordenação das Ligas de Camponeses Pobres, um deputado federal chegou a propor que o Sindicato de Fazendeiros da região cobrasse dos latifundiários R$ 2 por hectare para financiar um grupo de elite que mantivesse as fazendas do Norte “protegidas” dos assentamentos.

A Coordenação das Ligas de Camponeses Pobres conta com o apoio da Associação Internacional dos Advogados dos Pobres, que alerta: Pará, Mato Grosso, Tocantins e alguns estados do Nordeste protagonizam constantemente cenas de arbitrariedades, como as relatadas pelo representante dos camponeses.

Um membro dos Camponeses Pobres solicitou ao movimento docente solidariedade à causa, que já conta com o apoio de outros movimentos sociais, personalidades e entidades. Entre estes, a Federação dos Trabalhadores de Agricultura (Fetagle), um fórum de sindicatos de Belém e o Vice-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Pará, Deputado Estadual Arnaldo Jordy (PPS), apóiam a luta das Ligas.

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