Calmaria

Por Vera Luna*

Na estiagem, lágrimas cristalizadas.
Estalactites tremeluzindo na caverna escura.
Nas paredes, borrões de vida, traços,
vultos opacos, nódoas.
Lampejos escondidos,
bruxuleantes,
cortantes faíscas,
fios soltos sem capa.
Solidão.Na ventania do tempo, areias flutuantes.
Águas revoltas, turvas, invencíveis águas.
Rodopios na voragem,
turbilhão, redemoinho.
Água e areia misturadas.
Jogada pelas ondas,
levada pelas águas,
cheguei à praia.
Só.

Na praia, sem palavras.
Ritmados espasmos,
Silêncio, pausa.
Quietude.

Nas manhãs, um passarinho me acorda,
bate, bica insistente o vidro da minha janela.
Pássaros afinados palram lá fora nos nichos.
Ventos assopram sobre a pele sedenta.
Adentra o sol acendendo luzes na colcha.
Águas do banho perfumado de lírios
dissolvem a tempestade de areia.
Águas espelhadas. A terra clareia.
Calmaria.

*A autora é professora aposentada do curso de Letras , UFPB. Fez Mestrado na PUC-RJ e Doutorado na USP-SP. Foi pesquisadora da linguagem da Literatura Popular, especialmente da obra de Leandro Gomes de Barros, tendo publicado vários artigos em revistas especializadas sobre este tema.

E-mail: vlunera@gmail.com

Foto: Freepik

Um comentário sobre “Calmaria”

  1. Um dos mais belos poemas que já li! E li muitos poemas. A autora exibe uma rara arte expressiva, com precisão e foco. Beleza de quem sabe se permitir expressar o seu sentir de forma a ativar a sensibilidade de quem lê!

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