
Dias atrás, em uma roda de amigos, perguntei para um ferrenho oposicionista do governo: “E aí, satisfeito com possibilidade de Temer e Cunha assumirem o país?”.
Com sorriso no rosto, já se distanciando da conversa, o camarada responde: “Rapaz, saindo o PT, já fico satisfeito. Quanto a esses dois, a gente resolve depois.”.
É essa a linha de pensamento da turma que pediu durante todo esse tempo a cabeça de Dilma, seja com panelaços, passos de dança ou em caminhadas pela orla, lado a lado com os que pedem intervenção militar.
Pressionados, se colocam como eleitores imaculados, que se posicionam sempre pelo bem da pátria: nem direita, nem esquerda; nem PT, nem PSDB. Ou seja, não assumem compromissos, ideias e convicções porque seus argumentos são rasos. Como disse em crônica anterior, o discurso moralizador dessa turma é protegido por um cobertor curto, onde o ódio classista, racista, acaba ficando destampado. Esbravejam contra a corrupção, mas em breve se calarão quando os verdadeiros corruptos assumirem.
E é nesse sentido que caminha o Brasil, obedecendo mais uma vez o grito dessas vozes incoerentes, irresponsáveis. A expressão “esses dois, nós resolvemos depois”, a gente já conhece. No fundo, no fundo, o “esses”, são os que jogam com eles, por eles, mesmo que em primeiro momento se concorde que são corruptos.
E nessas horas, vem à cabeça todo republicanismo do governo e o seu medo de cometer algum equívoco ou tomar alguma medida mais firme. Ficamos a mercê dos que não precisam de razão para esbravejar. Falam o que lhes convém e os interessa. E nós, como tolos, agimos com cautela.
E o resultado é execrável, inaceitável: além da comprovação de que este processo de impeachment é um golpe, dos 38 que compõem a comissão do impeachment, 35 possuem problemas com a justiça. Dos 27 que votaram contra, apenas dois tem pendências. Quanto aos sucessores da Presidenta, não é preciso dizer nada. Todo mundo já sabe quem são e para o que estão lá.
E ai, ficaremos reféns de tudo isso, mais uma vez agindo com excesso de republicanismo e zelo? Aceitaremos o resultado como se tudo não passasse de um jogo de futebol? Aceitaremos, mais uma vez, que a Globo abduza os incautos, dizendo que, perdendo ou ganhando, o importante é manter o espírito esportivo? Depois de destruir a democracia, deveremos aceitar um discurso manipulador que pede um Brasil unido e pacífico?
Depois de deixar a Lava Jato fazer estrago no país, sem que ao menos alguém do governo se metesse ou denunciasse suas intenções, ela morrerá prematuramente, com seu dever comprido: derrubar a economia, eliminar o PT, vender a Petrobrás.
De nada serviram denúncias de que mãos americanas estão agindo em conjunto com essa tribo subserviente e achacadora, que luta pelo “bem do Brazil”.
Cunha, assim como Moro (o justiceiro que erra e pede desculpas), dois escolhidos pela oposição para fazer estragos no país e eliminar o PT, também podem estar em fim da linha. Em uma conspiração, sempre existem os bois de piranha. Destacadas para cometer vilanias, após cumprirem seu dever, poderão ser descartados. É assim que trabalha a ponta de lá. Obviamente, como são parceiros dessa corja imoral, o preço a se pagar será irrisório e em breve serão esquecidos.
Enquanto isso, 54 milhões de votos serão desrespeitados sem que uma voz impositiva, destemida e vibrante nos faça acreditar em dias melhores. Lula é um fenômeno, mas há de se convir que sozinho fica difícil.
É nessas horas que um abandonado José Dirceu faz uma falta danada. A história irá nos cobrar a omissão e o silêncio quanto às injustiças que foram e estão sendo cometidas contra ele.
Mesmo com esse quadro lastimável, devemos acreditar que bons ventos unifiquem a esquerda e que as diferenças e o moralismo, muitas das vezes banais, não atrasem mais uma vez o avanço do país e a luta contra o retrocesso. Vozes inteligentes e de vigor precisam aparecer.
Vamos às ruas, marcar território e fazer contraponto a essa manipulação barata da grande mídia. Eles mostram números que tem como objetivo induzir os parlamentares em dúvida. Querem promover o clima de que o impeachment já ganhou. Vamos nos impor e lutar.
Como exemplo e fonte de inspiração, deixo as fotos do movimento pela legalidade, em 1961, no Palácio Piratini (RS). À frente do movimento estava o bravo Leonel de Moura Brizola. Que toda sua vibração e coragem inflamem o nosso povo e não nos deixe cair nas mãos de quem quer se aproveitar e vender do Brasil.
Como cantava Elis Regina: “O Brasil não merece o Brazil”.
(*)Foto: deputadopauloramos.com.br

