
Relatório “Saque Climático”, da Oxfam, mostra que 1% mais rico consome 15% do orçamento global de carbono e que, se todos vivessem como eles, o planeta colapsaria em três semanas.
Lançado nesta quarta-feira (29) pela Oxfam, o relatório Saque Climático: Como Poucos Poderosos Estão Levando o Planeta ao Colapso expõe o papel desproporcional dos bilionários e grandes corporações na aceleração da crise ambiental. O estudo alerta que, desde 1990, o 1% mais rico da população mundial foi responsável por 15% de todas as emissões de carbono, enquanto os 50% mais pobres emitiram apenas 8%.
Segundo a análise, se toda a humanidade tivesse o mesmo padrão de consumo e emissão dos super-ricos, o orçamento global de carbono se esgotaria em menos de três semanas, tornando inevitável o colapso climático. O documento afirma que, mantido o ritmo atual, o planeta terá apenas dois anos antes de ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5°C, o que provocaria impactos irreversíveis.
O documento foi divulgado às vésperas da COP30, que será presidida pelo Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a urgência do debate ao afirmar que “a COP30 será nossa última chance de evitar uma ruptura irreversível no sistema climático.”
“Responsabilidades comuns, porém diferenciadas”
Os números da Oxfam revelam que 308 bilionários foram responsáveis por 586 milhões de toneladas de CO₂ apenas em 2024 — mais do que a soma das emissões de 118 países. Se fossem um país, estariam entre os 15 maiores poluidores do planeta.
Essas fortunas concentram investimentos em atividades de alto impacto ambiental: quase 60% dos recursos estão aplicados em petróleo, gás e mineração. A pesquisa mostra ainda que dois terços das empresas controladas por bilionários não têm planos compatíveis com a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, e um terço projeta um cenário de aquecimento de até 4°C.
“Quando a gente fala que o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas é o que deve iluminar a atuação dos países na crise climática, isso também tem a ver com o nosso modo de vida enquanto conjunto da sociedade”, afirmou a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago.
A Oxfam aponta também o papel dos bancos na crise climática. Os 60 maiores bancos do mundo destinaram US$ 7,9 trilhões à indústria de combustíveis fósseis entre 2016 e 2023. Na França, as três empresas mais poluentes são instituições financeiras: BNP Paribas, Crédit Agricole e Société Générale.
“Essas pessoas têm um próprio estilo de vida, e também a maneira como elas geram suas riquezas e consomem está completamente relacionada com a emissão de carbono. E é uma emissão completamente desproporcional, em relação ao resto do planeta”, explica Viviana Santiago.
Influência política e desinformação
O estudo revela que o poder político dos mais ricos está travando o avanço das políticas climáticas. Nos Estados Unidos, as empresas gastam em média US$ 277 mil por ano em lobby contra o clima, e o setor de petróleo e gás respondeu por US$ 232 milhões em lobbying entre 2001 e 2022.
Durante a COP29, 1.773 lobistas de carvão, petróleo e gás obtiveram credenciais de acesso — mais do que todas as delegações nacionais, exceto três. Enquanto isso, apenas 180 representantes de povos indígenas participaram do encontro.
A Oxfam denuncia ainda o financiamento de campanhas de desinformação climática e de movimentos de extrema-direita que negam a ciência e atacam políticas ambientais. Os irmãos Koch, bilionários do setor de combustíveis fósseis, destinaram US$ 120 milhões a organizações que propagam negacionismo climático. Em 2024, o canal francês CNews, de propriedade do empresário de extrema-direita Vincent Bolloré, foi multado por espalhar informações falsas sobre o clima.
“A gente percebe como esse poder e essa riqueza, de potenciais poluidores e que constroem a crise climática, também estão nesses espaços onde o mundo tenta construir acordos para pausar o aquecimento global”, reforça Viviana Santiago.
Desigualdade climática e crise social
As emissões excessivas dos 1% mais ricos provocarão perdas agrícolas capazes de alimentar 14,5 milhões de pessoas por ano e 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor nas próximas décadas. As populações mais pobres, mulheres, povos indígenas e comunidades racializadas são as que mais sofrem — e as menos representadas nas decisões internacionais. A Oxfam estima que as emissões dessa elite causarão prejuízos de US$ 44 trilhões aos países pobres até 2050.
Mulheres, povos indígenas, pessoas negras e comunidades pobres são os mais afetados pelos desastres climáticos e os menos representados nas decisões globais. O documento cita o caso de Abigail Andrade, trabalhadora mexicana morta durante o furacão Otis, em 2023, enquanto protegia o iate de luxo de um bilionário — exemplo extremo da desigualdade que marca a crise.
Um chamado por justiça climática
Diante desse cenário, a organização defende medidas urgentes para reverter a crise e equilibrar o poder global. Entre as recomendações do relatório estão:
- Taxar fortunas e lucros excessivos de grandes corporações e bilionários;
- Proibir o lobby e o financiamento político por empresas de combustíveis fósseis;
- Garantir a participação de povos tradicionais e da sociedade civil nas decisões sobre o clima;
- Redistribuir de forma justa o orçamento climático global;
- Reformar o sistema econômico para colocar pessoas e planeta acima do lucro.
A Oxfam conclui que a crise climática é também uma crise de poder. Enquanto os bilionários lucram com a destruição e bloqueiam políticas de transição, as populações pobres pagam o preço com suas vidas e territórios. O estudo faz um chamado à ação: sem redistribuição de riqueza e sem enfrentar a influência dos super-ricos, não haverá futuro habitável para o planeta. A íntegra do documento por ser vista abaixo.
com agências
