Augusto Boal (1931-2009)

Celso Lungaretti

A morte de Augusto Boal me atingiu como se eu tivesse perdido um grande amigo. A ele e a Gianfrancesco Guarnieri devo o texto e a encenação da primeira peça de teatro profissional a que assisti, aos 15 anos: Arena Conta Zumbi. Marcou-me para sempre, assim como a seguinte, Arena Conta Tiradentes. As duas têm muito a ver com o rumo que tomei na vida.

Falei sobre essas peças em dois artigos escritos dias antes do último feriado de Tiradentes, então seria ocioso repetir-me agora. Para quem quiser recapitular, estão em:

Tenho quase certeza de que era Boal um dos atores de Arena Conta Zumbi, quando a peça foi para os bairros e eu a assisti no teatro Arthur Azevedo, da Mooca. Talvez substituindo Lima Duarte, que atuou nos primeiros espetáculos e participa do excelente disco com os principais trechos e músicas, mas não ficou para a temporada popular.

Registro: Boal foi preso e torturado em 1971. Quando o libertaram, passou cinco anos na Argentina, onde, apropriadamente, encenou Torquemada, texto de sua autoria sobre a Inquisição. Deve ter sido fácil para ele desenvolver o seu personagem, depois de passar pelas garras dos Torquemadas brasileiros.

Há mais de quatro décadas, ele escreveu estes comentários que permanecem atuais até hoje e dão uma boa idéia do homem e de suas devoções, às quais se manteve fiel pelo resto da vida:

“Quanto a fase nacionalista do teatro foi sucedida pela nacionalização dos clássicos, o teatro chegou ao povo, indo buscá-lo nas ruas, nas conchas acústicas, nos adros de igrejas, no Nordeste e na periferia de São Paulo.

“Esses espetáculos, festas populares, eram gratuitos, mas o artista é um profissional. Conseguia-se apoio econômico que tornava o desenvolvimento possível.

“Já não se consegue. A platéia foi golpeada. Que pode agora acontecer?

“O único caminho que parece agora aberto é o da elitização do teatro. E este deve ser recusado, sob pena transformarem-se os artista em bobos de corte burguesa, ao invés de encontrarem no povo a sua inspiração e o seu destino.

“O beco não parece ter saída. A quem interessa que o teatro seja popular? Descontando-se o povo e alguns artistas renitentes, parece que a ninguém de mando e poder.

“Vindo o que vier, neste momento de morte clínica do teatro, muitos são os responsáveis: devemos todos analisar nossas ações e omissões.

“Que cada um diga o que fez, a que veio e por que ficou. E que cada um tenha a coragem de, não sabendo por que permanece, retirar-se.”

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