Atitudes

Desde há já bastante tempo, venho observando diversas críticas que vem sendo endereçadas, com toda justiça, diga-se de passagem, às diversas decisões da hierarquia da Igreja Católica de diversos países do mundo, ou a atos envolvendo esta hierarquia. Não tenho a menor dúvida, repito, que estas críticas são cabíveis e adequadas, dado o crescente envolvimento destas autoridades do poder eclesiástico, em delitos de diverso tipo. Desde violações dos direitos humanos, como é o caso das acusações sobre a associação do alto clero católico com os crimes contra a humanidade perpetrados em países da América Latina, até casos de pedofilia, discriminação contra mulheres, etc. Tudo isto é certo, delitos são delitos, e não há nada que possa desculpar o necessário castigo que eles merecem, quando comprovados.

Mas o que não deixa de me inquietar, é o quanto a gente se prende aos atos do poder, na crítica aos atos do poder. O que quero dizer é bastante simples, e até pode parecer infantil ou ingênuo, mas não o é. Pode se resumir talvez nestas perguntas que me faço: O que é que eu preciso, como cristão, como ser humano, como pessoa deste tempo em que tanto sofrimento à minha volta exige, com crescente urgência, o meu envolvimento em ações concretas em defesa da vida, para cumprir com o mandado da minha consciência, do meu sentimento e da minha mente? Preciso de alguma autoridade externa, de alguma instituição que me diga o que devo fazer, ou preciso de uma atitude de humildade e compromisso, de me dispor a fazer o que posso, para melhorar a mim mesmo no seio das redes sociais em que estou envolvido, e desta forma melhorar também esse mundo que todos sabemos que deve mudar, onde a injustiça e o poder imperam?

Faço estas perguntas com o intuito de não perder o foco. Todos precisamos de nos inserirmos em redes sociais para poder por em prática os nossos sonhos. Nenhuma tarefa humana pode ser realizada com prescindência de coletivos em cujo interior vá sendo construída uma nova humanidade. E estas redes começam na família, nas relações com as pessoas com quem partilhamos o nosso dia a dia. Não concebo que nesta altura da minha vida, ainda tenha a expectativa de que alguma mudança institucional poderia me por no rumo do que o meu coração me aponta. Creio que todas as instituições devem melhorar, mas a mudança institucional não é o eixo da minha atuação. Trato de permanecer numa atitude de fazer a cada instante o que meu coração aponta, de maneira que meus atos estejam alinhados com a vontade de Deus. E para isto, apenas necessito da minha rede social, um pequeno tecido em que vivem as esperanças que dão sentido à minha vida. Um pequeno conjunto de pessoas (ou não tão pequeno) que tentam cuidar de si mesmas cuidando dos demais.

Encontrei na Terapia Comunitária Integrativa criada por Adalberto Barreto, esse sentido maior, que se renova a cada dia. Creio que cada pessoa há de ter esse seu pertencimento, que na TCI tentamos manter vivo com pequenas ações no sentido da recuperação da pessoa humana. Ao cuidar dos outros, cuido de mim mesmo, e a minha razão de viver, o sentido de eu estar vivo, de ter acordado para mais um dia, se agiganta, mas de maneira muito ajustada. É o trabalho das formigas. Cada dia um pouco. A TCI age onde as famílias e o governo falharam, e, poderíamos dizer, onde as igrejas também falharam. Venha acreditar no meu Deus, venha seguir meu partido, venha fazer o que eu digo. Esses caminhos levam à dominação, à dependência. A gente na TCI tenta que a pessoa vá se deixando cada vez mais levar pelo seu próprio ser interior, pela sua criança interior, seu primeiro mestre. Mais autonomia, menos vitimização. Mais co-responsabilidade. Menos expectativa de que alguém de fora possa preencher o seu sentido de vida. Estas reflexões apenas pretendem deixar sair alguns sentimentos.

Um comentário sobre “Atitudes”

  1. Parabéns Rolando! Concordo com você em todos os pontos. E é bebendo desta fonte, que acordo cada dia mais motivada a fazer a minha parte. Obrigada por existir. Abraço,
    Joselia

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