Atitude Cidadã: Legado de Betinho, por Gleyse Peiter

O sociólogo Herbert e Souza, o Betinho, sempre acreditou nas pessoas. Achava que com a organização da sociedade, mesmo que de modo simples, era possível mudar a realidade do país. Pensava que as organizações só valiam à pena se fosse para melhorar a vida das pessoas, principalmente aquelas mais vulneráveis. A força dessa inegável realidade fez com que, no inicio dos anos 90, milhares se organizassem, tanto indivíduos quanto organizações e empresas, atuando como voluntários em campanhas e no desenvolvimento de projetos sociais.

Betinho foi um dos responsáveis pela mobilização em torno da luta contra a fome e a miséria no Brasil, além de fundador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase. Em 1993 participou da criação do Movimento pela Ética na Política que teve como resultados a Ação da Cidadania contra Fome a Miséria e pela Vida e o Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida – COEP.

O COEP, hoje, atua em todo território brasileiro como uma rede nacional de mobilização social, com cerca de 800 organizações associadas, 100 comunidades e mais de 28 mil pessoas, articulando parcerias entre as organizações, comunidades e indivíduos, para o desenvolvimento de ações e projetos para erradicação da pobreza.

Quase 20 anos depois, os indicadores sociais brasileiros mostram uma significativa melhora, fruto do crescimento da economia e dos programas sociais implementados que vêm promovendo a inclusão, principalmente, da faixa da população de baixíssima renda. Entretanto, segundo o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, o Brasil tem o terceiro pior índice de desigualdade no mundo e, apesar do aumento dos gastos sociais nos últimos anos, apresenta uma baixa mobilidade social e educacional entre gerações. Um terço da população brasileira se encontra em algum grau de insegurança alimentar.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA mostram que há 25 anos este índice não muda: metade da renda total do Brasil está em mãos dos 10% mais ricos do país. E os 50% mais pobres dividem entre si apenas 10% da riqueza nacional, sem contar que os negros e as populações indígenas são os mais prejudicados pela desigualdade social.

Tudo isso significa que há muito a ser feito e, ao observar as comunidades onde a rede do COEP atua, em todo o país, é possível encontrar milhares de pessoas que acreditam poder contribuir para mudar esta situação. Para estas pessoas foi criado o Prêmio Betinho.

O Prêmio, que este ano realiza sua 5ª edição, é uma homenagem ao sociólogo que deixou acesa nos corações e mentes dos brasileiros a chama da solidariedade. Procura valorizar e reconhecer as pessoas que atuam para acabar com a pobreza e tornar o Brasil mais justo, aqueles que participam ativamente da comunidade onde vivem ou onde desenvolvem ações sociais, transformando a realidade local e fazendo a diferença.

Neste 9 de agosto, faz 15 anos que Betinho morreu. Também neste dia, e até 18 de novembro, ocorre pela internet o processo nacional de votação aos indicados ao Prêmio, selecionados por representantes técnicos dos COEP estaduais e municipais. É importante a participação de todos. Cada voto, que deve ser feito pelo site http://www.coepbrasil.org.br/premiobetinho, representa o reconhecimento do valor dessas pessoas anônimas que, diariamente, tentam contribuir para a transformação social.

A autora é secretária executiva do COEP Nacional e conselheira nacional do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional da Presidência da República.

Fonte: Rede Nacional de Mobilização Social

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