
Diplomata e assessor especial da Presidência rejeita ideia de ‘quintal’ dos EUA e defende papel ativo do Brasil na defesa da soberania regional.
São Paulo, 6 de janeiro de 2026, às 12:58
O assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, defendeu o papel desempenhado pelo Brasil ao rechaçar a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Em entrevista exclusiva a Opera Mundi, o diplomata brasileiro considerou preocupante e “totalmente descabida” a captura de um presidente “para ser julgado em outro país, independentemente do que se pense dele”. Segundo Amorim, “o que existe hoje, esse voluntarismo absoluto, sem nenhum respeito a nenhuma norma, leva o mundo ao que era a caracterização feita por Hobbes, no século 17, da “guerra de todos contra todos”.
Leia na íntegra a entrevista de Opera Mundi com Celso Amorim:
Celso Amorim: como o presidente Lula já disse, inclusive, é totalmente inaceitável o uso da força militar para qualquer objetivo, a não ser aqueles previstos na Carta da ONU, o que não é o caso. Também é totalmente descabida a captura de um presidente para ser julgado em outro país, independentemente do que se pense dele.
O governo brasileiro repudiou a ação militar, denunciou que é ilegal e se juntou a outros países pedindo respeito à soberania venezuelana. Como o senhor entende o papel do Brasil nesse momento?
O Brasil é o maior país da América do Sul e o maior país da América Latina. No caso da América do Sul, inclusive, temos dez fronteiras. Portanto, o Brasil precisa ter um papel relevante. Acho que essa manifestação de vários países é interessante. O número de envolvidos talvez não seja tão expressivo, porque não houve tempo para coordenar tudo. Foi uma iniciativa da Colômbia, mas o papel do Brasil foi muito importante.
Isso pode parecer uma brincadeira, mas é grave a identificação de áreas de influência, essa ideia de que somos o quintal dos Estados Unidos. Nós não somos quintal de ninguém. Não queremos ser. Tampouco queremos ser antagônicos. Queremos ter boas relações, mas com base no respeito mútuo.
A ação militar dos Estados Unidos instaura uma nova era na diplomacia mundial? O senhor concorda com as análises de que a ordem internacional vigente até então foi enterrada por essa agressão militar?
Eu não diria que instaura uma nova era. Acho que estamos voltando a eras passadas, que julgávamos superadas, como a chamada diplomacia das canhoneiras, conhecida na política em relação à própria América do Sul. Mas, veja bem, ações como essa, na América do Sul, não aconteciam desde o século 19. Mesmo em 1902, quando surgiu essa expressão da “diplomacia das canhoneiras” e veio a Doutrina Monroe, essas práticas não chegaram a ser usadas dessa forma. Eram mais ameaças, geralmente para cobrança de dívidas. Ainda assim, é algo obviamente inaceitável.
Em 1945 não havia BRICS. Os Estados Unidos eram a única grande potência, nem mesmo a Inglaterra fazia frente. A União Soviética, obviamente, era uma potência, mas, a partir desse cenário, foi criada uma certa ordem, com muitas imperfeições, que, bem ou mal, tinha alguma previsibilidade. O que existe hoje é um voluntarismo absoluto, sem respeito a nenhuma norma. Isso, obviamente, leva o mundo ao que Hobbes, no século 17, caracterizou como a guerra de todos contra todos.
É mais ou menos o que o próprio presidente dos Estados Unidos está implicitamente dizendo, e o secretário de Estado reafirma: “se é no hemisfério ocidental, nós vamos agir independentemente das regras”. Isso é muito grave. O presidente George W. Bush (2001–2009), quando decidiu a invasão do Iraque — que foi rejeitada pela ONU —, levou o assunto ao Conselho de Segurança. Houve pelo menos esse resquício de respeito. No caso da Venezuela, não se discute, não se dá satisfação a ninguém.
Após o ataque e o sequestro de Maduro, Trump continua ameaçando, inclusive, Colômbia, Cuba e México. Como o governo brasileiro observa essa movimentação?
Primeiro, é preciso repensar muitas coisas que achávamos que eram apenas ameaças, porque uma delas acabou ocorrendo, no caso da Venezuela. Portanto, é necessário levar essas ameaças a sério. Em segundo lugar, a mera ameaça já representa um desrespeito à ordem internacional — uma ordem que já não existe plenamente, mas cujas normas ainda são, digamos, teoricamente vigentes. Essa atitude é voltada especialmente para a América Latina e o Caribe. Por isso, volto a enfatizar que isso não ocorria, na América do Sul mais especificamente, desde o período da colonização ou logo após as independências.
Também considero importante reforçar que, independentemente da questão ideológica, o Brasil quer viver em um mundo com relações amplas com todos os países, mantendo boas relações com os Estados Unidos e com a China, sem abrir mão de sua soberania. Soberania não é uma palavra abstrata; é a capacidade de um povo viver da maneira que decide viver.
O senhor salientou que essa ação dos Estados Unidos não teve nenhum cuidado em tentar se legitimar pelos mecanismos internacionais, como a ONU. Diante disso, qual seria uma resposta internacional capaz de dar algum sentido a esse momento?
Sinceramente, não tenho condições de responder neste momento. Vejo uma Europa muito preocupada com sua autodeterminação e com sua integridade territorial, como no caso da Ucrânia — preocupação legítima —, mas que, no caso da Venezuela, parece não enxergar isso e acaba seguindo a retórica de que “ninguém gostava do Maduro”. E não se trata de gostar ou não do Maduro. A questão é o respeito à soberania dos países.
Há diferenças nas reações. A Espanha, por exemplo, teve uma reação distinta. Ainda assim, esse episódio parece mostrar que o Sul Global tem se comportado melhor do que a Europa na defesa do sistema multilateral.
Episódios como os de sábado podem aumentar os temores sobre possíveis intervenções no Brasil, ainda mais em um ano eleitoral? Ademais, como o governo analisa o relatório da Abin, publicado no ano passado, que considera possível uma interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2026?
Acho que devemos estar preparados para reagir e nos defender. Sei que existe essa preocupação, mas não posso afirmar que haverá algo específico. E não falo apenas das eleições, mas também de questões de longo prazo.
O Brasil tem minérios, petróleo, riquezas naturais e precisa ter uma capacidade adequada de defesa. É necessário um mínimo de capacidade de dissuasão, que, aliás, está prevista na nossa Estratégia Nacional de Defesa. Não se trata de pensar em uma guerra com a China, os Estados Unidos, a Rússia ou a Europa.
O Brasil precisa ter uma capacidade mínima de causar um dano que torne uma invasão menos atraente para qualquer potência. No caso da América do Sul e da América Latina, quem mais tem verbalizado esse tipo de postura são os Estados Unidos.
Por fim, como o senhor analisa o cenário da região? E qual é o futuro da Venezuela, na sua avaliação?
Primeiro, quem deve decidir o futuro da Venezuela são os próprios venezuelanos. Fui enviado especial do presidente Lula durante as eleições de 2024, fiz minhas críticas, mas isso não significa concordar com a invasão de um país ou com a imposição de sanções econômicas. O povo venezuelano precisa encontrar sua própria solução. Nós podemos ajudar, facilitar um diálogo para que as forças se entendam. Isso é possível. Já houve entendimentos em outros países onde isso parecia impossível. Portanto, nossa escolha será sempre pelo diálogo e pela diplomacia, nunca pelo uso da força.
Agora, é preciso compreender, seja de direita ou de esquerda, a importância da integração da América do Sul. Isso é algo vital para todos nós. O gás, a energia, o acesso ao mercado e aos portos. Veja bem a integração de infraestrutura, quando a gente fala hoje de fazer uma ferrovia que chegue ao Pacífico, nós estamos fazendo no século 21 o que os Estados Unidos fizeram no século 19, o que a América, digamos, o norte fez e a América do Sul tem que fazer. Então, a integração é fundamental.
No entanto, é um processo complexo. É claro que é muito melhor quando os países estão em um caminho comum. Essa visão de democracia e convívio pacífico são os mais importantes. O Brasil não quer ameaçar ninguém e também não acha graça na ameaça dos outros países. Mesmo que não tema, não acha graça.
