
Fundada no dia 10 de outubro no Rio de Janeiro, na porta do Estádio do Maracanã, a Associação Nacional de Torcedores (ANT) surge em defesa da cultura futebolística e dos direitos daqueles que frequentam os estádios de futebol brasileiros. O professor e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Esporte e Sociedade (Nepess) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marcos Alvito, atual presidente da organização, fala ao Fazendo Media como a televisão domina o futebol nacional, os ingressos vêm aumentando e as reformas nos estádios estão expulsando o povo de um dos lazeres mais populares do país.
A ANT se mantém até o momento vendendo camisas, recolhendo dinheiro, e fazendo festas, tirando tudo do próprio bolso. É um grupo apartidário, sendo gratuita a participação, cujo próximo encontro será realizado antes do jogo no próximo domingo (24/10), Flamengo e Vasco, na Central do Brasil, às 15h:30. Os integrantes ainda não estão entrando nos estádios, mas pretendem dialogar com as lideranças das torcidas e caminhar em parceria com grupos culturais, como a Trupe Sociedade da Alegria, equipe teatral da Universidade Federal Fluminense. O manifesto da fundação da ANT você pode ver em http://www.torcedores.org/ .
Como a Associação Nacional de Torcedores (ANT) surgiu?
Quem gosta de futebol, há mais ou menos 15 anos, mais nos últimos 5 anos no Brasil, tem notado que ele tem sofrido uma verdadeira invasão, aquilo que os ingleses chamavam de colonização do futebol pelo capital. E esse projeto está sendo feito em nome da Copa do Mundo, que é aquilo que eu chamo de cavalo de tróia: em nome dela diz que tem uma necessidade de modernização, mas na verdade é uma elitização, é uma retirada do povo brasileiro do estádio. É todo um processo de investimento de verbas públicas, portanto do povo brasileiro, para tirar o povo do estádio e transformá-lo numa espécie de shopping center. Esse incômodo a gente já está vendo há muito tempo, mas no jogo do Flamengo contra o Palmeiras a arquibancada foi vendida a R$ 50,00, foi a gota d’água. É o meu time, eu falei: não é possível, daqui a pouco eles vendem a R$ 200. A gente virou apenas um cenário do jogo de futebol, já não se importam mais com os torcedores que vão lá.
Escrevi uma espécie de manifesto com 7 pontos, coloquei num blog, e ao mesmo tempo tem um curso que eu estou dando sobre futebol na UFF. Os meus alunos sempre me perguntavam se o futebol é o ópio do povo, eu dizia que não, que ele pode ser usado tanto pela esquerda quanto pela direita. Agora estou tentando provar que não é, ele pode ser, mas pode ser também o contrário: uma forma de politização, de conscientização dos seus direitos. Porque todas as questões políticas mais prementes que afetam o Brasil também estão presentes no futebol: falta de cidadania, de transparência, má aplicação de recursos.
Eu fui apenas o primeiro maluco que gritou, hoje estamos completando uma semana com mais de 600 associados no país. Quer dizer, pelo Brasil todas as pessoas estão experimentando esse mesmo sentimento, de que o futebol, uma paixão nacional, está sendo roubado da forma mais descarada possível em nome de uma modernização, da Copa do Mundo, de exigências pretensas, exigências da Fifa.
E na prática, como vai se dar isso? Vocês estão se comunicando pela internet?
A gente tem uma estrutura descentralizada, uma coordenação nacional que por enquanto está baseada no Rio. A gente é democrático, nossos três pilares são: futebol, democracia e alegria. Dia 12 de dezembro vamos eleger uma diretoria. Mas a gente estimula a organização de núcleos locais, por cidade, por estado, de acordo com a situação. Vamos ter um site mais desenvolvido, para onde os torcedores vão mandar vídeos, notícias, fotos, sobre o que está acontecendo e repassaremos para a mídia a fim de alavancar o movimento nacional.
E como vai ser a participação jurídica de vocês?
Nós vamos ter uma face jurídica e com ela a gente pode iniciar processos. Por exemplo, a gente está indo para o Engenhão [Fluminense x Botafogo 17-10-10], que é um estádio característico disso aí. Foi construído sem perguntar a ninguém, feito para ser bonito para ser filmado, para ver jogo sentado, você está literalmente aprisionado porque tem uma barra que impede o torcedor de se movimentar. E o pior desrespeito é que atrás do gol, na ala sul e norte, você não consegue ver a linha do gol. Você paga ingresso e entra de palhaço para aparecer na filmagem, porque para comemorar o gol você tem de ouvir no rádio já que a linha está tapada pelas placas publicitárias; eu tenho fotos mostrando isso. Então você vai ao filme e não vê o filme.
E o Engenhão é o modelo de estádio que estão propagando Rio afora….
O Engenhão é um exemplo típico, má utilização do dinheiro público, custou muito mais do que foi previsto inicialmente. O aluguel que o Botafogo paga ia demorar mais de 200 anos para reverter ao estado para ser indenizado pelo custo. Quer dizer, é dinheiro nosso, e se vão gastar a gente tem que saber como vai ser, aonde e a gente quer ele gasto em benefício do público e não à televisão. O futebol não é patrimônio da televisão, é do povo brasileiro, uma cultura que tem mais de 100 anos no Brasil.
A nossa perspectiva não é só do direito do consumidor, é mais ampla, é da cultura do torcedor. O torcedor não quer ficar aprisionado, ele quer pular, abraçar, gesticular, gritar apaixonadamente pelo seu time. Isso não tem nada a ver com violência, é uma manifestação corporal, liberdade de expressão. Ele não quer ficar sentado porque futebol não é ópera, não é cinema, que eu gosto muito, mas futebol é outra coisa totalmente diferente. Aliás, o ingresso do futebol hoje é mais caro que o ingresso do cinema e daqui a pouco é mais caro que a ópera.
Eu gostaria que você desenvolvesse melhor essa sua visão em relação à televisão…
A televisão hoje é dona do futebol, o futebol hoje é tratado como show televisivo. A principal renda dos clubes brasileiros é proveniente da televisão, e como os clubes estão endividados, porque esse modelo não dá certo, eles têm uma dívida grande em relação à própria emissora que há vários anos monopoliza essas transmissões. O que acontece? Tem uma emissora B que quer comprar por mais dinheiro, mas como os clubes já estão devendo à televisão A, que todos sabem qual é, eles não podem vender para a televisão B. É aquele cara que está com tão pouco dinheiro que ele fica na mão do agiota.

A grande questão é que a televisão hoje tem direito de veto, ela estabelece qual a tabela do campeonato, o horário. Então hoje a gente tem um futebol que é a sobremesa da novela, e termina a meia noite, num dia de semana. E não tem transporte, eles não estão nem aí para o torcedor, eles só querem saber do telespectador. Só que o torcedor é quem faz existir o futebol e sua magia, faz parte do espetáculo a nossa paixão. O cara que está na poltrona também é torcedor, só que ele não pode pagar R$ 40,00. A televisão estabelece todas as condições para que o torcedor não vá e compre o pacote dela, é uma coisa absolutamente absurda: não te deixo assistir o jogo ao vivo, e te obrigo a comprar o pacote para assistir comigo.
Qual seria uma proposta alternativa?
A gente teria que sentar para conversar, mas obviamente a questão inicial é o horário de transmissão dos jogos, o próprio respeito à cultura torcedora. A gente não é contra a televisão e a transmissão dos jogos, porque na verdade ela pode ser, mas não é, um instrumento democrático de divulgação do próprio jogo. A questão é que ela não pode estabelecer todas as condições e ignorar os direitos do torcedor como tem sido até agora. Então, a questão é ver até onde vai o direito da televisão e até onde vai o nosso.
Você falou de esquerda, do ópio do povo. Isso me lembrou uma recente entrevista do Sócrates na qual ele diz que na torcida do Corinthians ocorreu a primeira manifestação política no período de redemocratização com uma faixa na arquibancada. Como você vê a questão da torcida organizada, levando em consideração que todos esses projetos de modernização são feitos sob a justificativa da segurança?
A torcida organizada faz parte da cultura do futebol e 95% dos torcedores nela são apaixonados, não gostam de brigar. Vão lá e fazem boa parte da festa que acontece no estádio: papel picado, bandeiras, músicas, etc. A torcida organizada faz muito mais festa do que violência, então nós somos totalmente contra a extinção de torcida organizada. Quem foi violento existem as leis para prever o que fazer com ele, em qualquer lugar que eu bater no sujeito eu posso ser processado e preso. Mas a torcida organizada é parte dessa cultura futebolística, parte dessa alegria, e tem que ser respeitada como tal.
Nós não somos torcida organizada, porque ela é de um clube e nós estamos recuperando uma dimensão nacional de reivindicação que as torcidas organizadas também têm e já tiveram muito mais. Quando elas surgiram era exatamente para criticar a corrupção dos dirigentes, o aumento do preço de ingressos. Se esquece isso na memória, mas torcida organizada já fez boicote de jogo, fez muita manifestação não só para derrubar o técnico, mas para diminuir o preço dos ingressos, retirar diretor corrupto e isso se perdeu com o tempo. Até porque muitas vezes se caracteriza a organizada só como um grupamento dirigido à violência, e quem conhece o cotidiano dela sabe que não é verdade. Basta ir ao estádio e ficar perto para ver que a maior parte do tempo o pessoal está cantando, fazendo a festa, não está brigando.
A gente não é torcida organizada. Quem quiser entrar entra como cidadão com direito a um voto, todo mundo vai ser ouvido e pode se candidatar a cargos. Todo cargo vai ser de torcedor, o que nos une é o fato de ser torcedor. Não queremos virar nenhuma burocracia de cargos, quando você preenche a sua inscrição você tem que botar o time pelo qual torce.
Uma questão polêmica que passa pela cultura futebolística é a boemia, existe essa cultura das pessoas verem os jogos bebendo. Inclusive, com o aumento do preço dos ingressos os botecos estão lotados. Como você vê a proibição da bebida alcoólica dentro dos estádios?
É outro absurdo, porque eles dizem que é o modelo inglês. O modelo inglês não deu certo, os próprios ingleses, como o Sir Alex Ferguson, técnico do Manchester há 26 anos, falam que os estádios hoje são um cemitério. O time dele estava ganhando de 2 a 0 em casa e a torcida calada, daí ele falou: o que vocês estão esperando? Porque o cara vende aquilo como Disneylândia, cinema, eles estão esperando efeitos especiais e não é isso que é o futebol. Hoje em dia a média do torcedor na Premier League [Inglaterra] é de 45 anos, é o cara que ganha milhões, ele não vai se manifestar, ele não é de dançar, gritar. Aliás, é proibido você fazer isso.
Mas na Inglaterra, de onde vem o modelo falido que eles querem implantar, porque os clubes ingleses estão todos falidos, é possível beber dentro dos estádios. Você não pode beber na arquibancada vendo o jogo, mas no intervalo pode beber à vontade do lado de fora e no bar do clube. Então quando interessa para eles dizem que é o modelo inglês, e quando não tem interesse eles adotam o modelo escossês, que aí já não pode beber. Foi uma cassação do direito do torcedor, porque faz parte do lazer dele beber Obviamente que tem gente que se excede, mas esse cara não vai nem ao jogo porque a cachaça é mais importante para ele que o futebol.
A gente acha que não faz sentido, porque não soubemos de diminuição dos episódios de violência. Estes acontecem mais fora dos estádios que dentro deles, não é um problema do futebol. A tentativa é caracterizar o torcedor como violento, que bebe, que se manifesta de forma desregrada. O torcedor e torcedora são apenas pessoas apaixonadas, e a associação está aberta para todos os credos, todos os partidos, mas somos políticos. Por quê? Porque disputa por poder, reivindicar o seu direito é a parte mais importante da política.
Mas a ANT veio tardiamente, não? Porque na prática os projetos já estão todos em andamento…
Sempre dá para mudar. Por exemplo, se você construir um Maracanã sem a geral área popular a gente vai votar uma lei dizendo que 30% do estádio tem que ser área popular. Não interessa se é sentado ou de pé, e o ingresso vai ter que ser mais barato. Eles vão ter que dar um jeito, não pode é tirar o povo do estádio. Foi o povo quem fez o futebol brasileiro, jogando dentro de campo e torcendo na arquibancada. E agora querem empacotá-lo e vendê-lo para a elite, isso não pode, literalmente é um roubo o que estão fazendo.
Tem algum caso no Brasil quem lhe chamou a atenção sem ser o Maracanã?
É no Brasil inteiro. No Rio Grande do Norte, por exemplo, o Machadão, que é um estádio antigo, simplesmente vão demolir sem perguntar a ninguém. Faz parte da memória das pessoas, da vida cultural, o estádio às vezes é o centro de uma cidade. Se você tira o Anfield de Liverpool está acabando com a história social e cultural da cidade. O Machadão vão derrubá-lo para construir outro estádio em outro lugar, e não precisava derrubar. Tinham uma proposta de centro de cultura no lugar com artesanato e cultura nordestina, mas ignoraram solenemente. A gente só entra de palhaço, só que torcedor é cidadão e exige seus direitos se organizando, planejando e lutando. O jogo começou, está só no primeiro tempo.
Jornalista, 42, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Acesse o currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0384762289295308.

Pingback: Tweets that mention :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » “As questões políticas mais prementes que afetam o Brasil também estão presentes no futebol: falta de cidadania, de transparência e má aplicação de recursos” -- Topsy.com
Parabéns pela iniciativa da galera aí envolvida. Aqui no estado do amazonas as coisas são parecidas. O capitalismo homogeiniza e mercantiliza tudo, não? Enquanto não derrubarmos ele estamos fadados a lutar contra ele. Uma lei garantindo 30% para populares não acaba com o capitalismo, mas dá, ou tenta, dá uma freiada nele. Esta luta tem que ser paralela a luta contra o capitalismo!
Grande iniciativa, rapaziada, parabéns mesmo! ( e ao site, pela publicação!). O futebol, se não estiver nas mãos de quem está, pode ser, realmente, um grande instrumento de cidadania, participação, congraçamento, saúde e muito mais… além do que, mais organizado, ética e administrativamente, o futebol brasileiro seria praticamente hegemônico no mundo, restando aos demais a briga pela “prata”, mais ou menos como são os EUA no basquete… Um abraço e muito sucesso!
Pingback: O Formigueiro, ano I, número 1, 26/10/2010 | Torcedor não é palhaço