Apoio de Lula a Chávez agita campanha eleitoral


Lula no vídeo exibido no encerramento do Foro de São Paulo (Foto: AVN)

De Caracas (Venezuela) – Muitos brasileiros poderão se perguntar por que tanta repercussão do apoio declarado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição do presidente venezuelano Hugo Chávez, no pleito de 7 de outubro, conforme vídeo exibido no encerramento do XVIII Encontro do Foro de São Paulo, na sexta, dia 6, aqui em Caracas. Para “nosotros” brasileiros, é uma decorrência natural da posição dos dois líderes latino-americanos, sempre afinados nos embates políticos dos últimos anos, com destaque durante os oito anos (2003-2010) em que o líder petista estava também na presidência.
Então, por quê? Os chavistas vibraram, como se pode ver na manchete de primeira página do jornal estatal Correo del Orinoco, do dia seguinte: Lula a Chávez: “Tu victoria será nuestra victoria”. Anúncios de página inteira repetiram a mensagem em jornais. E inserções em rádios e TVs estão matracando o respaldo de Lula ao seu companheiro de lutas.
Chávez pouco antes de iniciar seu discurso no Teatro Teresa Carreño (Foto: AVN)

E Chávez, no discurso que encerrou o Foro (objeto da postagem anterior deste blog), no Teatro Teresa Carreño, botou pra quebrar. Se disse muito sensibilizado com as palavras de Lula (ele começou a falar logo em seguida à exibição do vídeo). Afirmou que quando se encontrarem, “o abraço que vamos dar vai ser um abraço do tamanho deste mundo e além”. E passou a relembrar casos da convivência dos dois, desde que foram apresentados em 1996, por sinal num Foro de São Paulo realizado em San Salvador. Naquele jeito bonachão de bom contador de histórias, lembrou até que quando ouvia falar em Lula, por causa do nome, ele pensava que era uma mulher. E ao relatar alguns episódios, nas falas atribuídas ao ex-mandatário brasileiro, ele imitava aquele tom de voz rouco tão característico (sem ofensa, um perfeito animador de auditório, e bote animador nisso, porque aliado ao enorme carisma).
E por que a repercussão aqui?, perguntei acima. Simplesmente porque a oposição venezuelana vivia, repetidamente nos seus veículos de comunicação, com destaque para a TV Globovisión (os chavistas só a chamam Globoterror), alardeando supostos parentescos políticos e ideológicos com o “Brasil de Lula”. Referem-se (ou referiam-se) ao líder brasileiro como um democrata progressista que soube botar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento, em contraposição ao líder bolivariano que não seria nem democrata, nem progressista, nem tampouco teria sabido administrar a Venezuela, hoje, na sua avaliação, um completo caos.
O candidato opositor Henrique Capriles, do mesmo modo, vive (ou vivia) alardeando simpatias pelo modelo de governar de Lula. Não por acaso, a imprensa amiga (as corporações privadas venezuelanas, brasileiras e do mundo afora), longe de considerá-lo de direita, menciona-o sempre como “um jovem político de centro-esquerda”, por certo amante do progresso e da democracia.

“Gracias, companheiro, por tudo o que tem feito pela América Latina”
É neste cenário que os anti-chavistas recebem a mensagem de Lula, com o respaldo inequívoco ao presidente/candidato: “Só com a liderança de Chávez, o povo (venezuelano) vem realmente tendo conquistas extraordinárias. As classes populares nunca foram tratadas com tanto respeito, carinho e dignidade. Essas conquistas precisam ser preservadas e consolidadas. Chávez, conte comigo, conte conosco, os do PT, conte com a solidariedade e o apoio de cada militante de esquerda, de cada democrata e de cada latino-americano. Tua vitória será nossa vitória. Um forte abraço, um abraço fraterno e gracias, companheiro, por tudo o que tem feito pela América Latina”. (Para ler a mensagem e ver o vídeo, clique aqui).
Restou à direita o esperneio natural nesses momentos de agruras: falou em ingerência nos assuntos internos do país, disse que a mensagem não era de um estadista e sim de um mercador. Edmundo González, da comissão internacional do comando oposicionista, comentou que as palavras de Lula causaram um “desconcerto” na oposição, parecendo que vinham de “um meloso agente comercial e não de um ex-governante”.
Capa do jornal estatal de 7 de julho (Foto: Jadson Oliveira)

PS 1: A chamada de capa do Correo del Orinoco referiu-se a Lula como “o dirigente socialista”. Convenhamos, não é bem o caso. Talvez por essa e outras, o nosso líder petista, sabiamente, tenha frisado na mensagem a necessidade de se “manter a nossa principal característica: a unidade na diversidade”.
PS 2: Me lembro, no primeiro semestre do ano passado, quando eu estava em Buenos Aires, primórdios da campanha pela reeleição da presidenta Cristina Kirchner. Eram usuais as tentativas de políticos da oposição, situados ideologicamente mais à direita, de se associarem à política de Lula. Tinha um que tentava explorar até uma certa aparência física com nosso ex-presidente. Cheguei a traduzir do jornal argentino Página/12 e publicar neste meu blog um artigo intitulado “Lulamania”. (Quem quiser ler ou reler, clique aqui).
PS 3: Seria o caso de se perguntar o que o nosso Lula faz (ou deixa de fazer) para atrair tão estranhos admiradores/seguidores.
PS 4: Talvez agora seja o momento adequado para o senador Álvaro Dias, líder do PSDB brasileiro, se aproximar das lideranças anti-chavistas, traídas nos seus pendores amorosos pelo Lula. A sugestão vai por conta do sucesso obtido pelo representante tucano junto aos golpistas paraguaios, segundo tenho lido na nossa ativa blogosfera.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Caracas (Venezuela). Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

Deixe uma resposta