Ao consumir estamos destruindo

É relativamente recente a aproximação do pensamento econômico tradicional em relação às preocupações em torno da questão ambiental. Ao longo do tempo, de forma consensual, os economistas trataram a preocupação ecológica, envolvendo a vital preservação do meio ambiente e das condições de vida, como simples retórica; em alguns casos, muitos viam nisso não mais que uma mera manifestação romântica. Evidentemente, excetuam-se nesse rol os chamados “economistas-ecologistas”; principalmente àqueles que seguiram o receituário conceitual da Lei da Entropia propugnado pelo romeno Georgescu-Roegen e que tentam, à sua maneira, conciliar a economia com a ecologia, bem ao modo do criador do termo ecologia, Ernst Haeckel (1834-1919), que chamou a Economia de “Ciência da Natureza”.
O fato mais proeminente, contudo, é que com o passar do tempo e com o clima, o ambiente, os ecossistemas (fatores bióticos e abióticos), a evidência cada vez maior dos limites naturais e até mesmo nossos corpos estão dando sinais evidentes de estresse e de degradação. A partir disso, o posicionamento técnico dos economistas em relação ao meio ambiente começou a mudar significativamente à medida que cresce, dia a dia, a conscientização de que devemos preservar o espaço natural caso queiramos continuar contando nossa história de vida nessa “Nave Terra” da qual todos somos passageiros e também co-pilotos.
No entanto, embora venha ocorrendo considerável avanço nessa conciliação entre as posições defendidas pelas ciências econômicas e pelas ciências ambientais, ainda hoje não é raro presenciar, infelizmente, certo desdém de alguns economistas tradicionais para algumas situações específicas que envolve a questão principal de se preservar para crescer e de crescer sem destruir. E, uma vez crescendo com moderação, saber distribuir.
Atualmente, ainda verificamos em algumas “mentes brilhantes”, a idéia fixa de que é preferível um impulso no crescimento da economia, mesmo que isso venha a acarretar danos ambientais irrecuperáveis, pois seria esse crescimento econômico espécie de “remédio” eficaz contra as mazelas sociais.
Com isso, costumeiramente se faz vistas grossas à idéia de se buscar o equilíbrio, visando atingir o substancial encontro da satisfação ao viver com menos, ao consumir menos, ao comprar de forma moderada, ao estabilizar as relações ambientais de forma harmoniosa com o processo produtivo econômico.
Todavia, o fato é que não há como fugir ou fingir desconhecer certas verdades que permeiam o pensamento tanto da economia quanto da ecologia que acabam, inevitavelmente, se cruzando a todo instante.
Uma dessas verdades envolve a certeza de que num dado momento qualquer o crescimento econômico, idealizado e buscado por muitos, no afã de patrocinar uma vida melhor para todos, desconsiderando ser isso um sofisma, irá gerar custos ecológicos e sociais inerentes ao processo de produção.
Não há como negar, nesse pormenor, que ao consumir estamos destruindo. Por sinal, a palavra “consumir”, do latim “consumere” (desperdiçar) etimologicamente significa exatamente “destruir, dilapidar, pegar intensivamente”. O que não se leva em conta, para aqueles que insistem em manter seus ouvidos moucos em relação ao perigo decorrente da destruição ambiental, é que quase não precisamos produzir mais nada de novo. O que tem por aí – e há uma infinidade de coisas que muitos desconhecemos – já é mais que suficiente. O problema das mazelas sociais, causada pela escassez em algumas mãos, não decorre da inexistência de bens e/ou serviços, mas sim da péssima distribuição. Mesmo a pobreza pode ser vista por esse prisma. Entendemos que a pobreza/miséria, em todas suas maléficas manifestações, decorre da existência de um sistema econômico que distribui de forma desigual os recursos. Enquanto se privilegia sistematicamente uma minoria com total e irrestrito acesso ao estoque global de produção, a maioria é largada na rua da amargura encontrando apenas portas fechadas na hora de consumir. Isso fica mais evidente quando nos deparamos com os números que evidenciam a brutal distribuição desigual da renda. É inadmissível que apenas 15% da população mundial tenha facilidade em consumir 85% da produção global, ao passo que 85% da população do mundo tenta abocanhar apenas 15% de produtos e serviços disponíveis.
No Brasil, o país mais desigual da América Latina, os 10% mais ricos concentram 50,6% da renda. Assim, sobra pouco mais de 49% para ser “dividido” entre 90% da população. Ora, sem uma condição de equilíbrio pautada na conciliação entre o retirar da natureza, o fazer, o disponibilizar no mercado e o distribuir, não se chegará a um porto seguro onde possa imperar paz e harmonia.
De igual forma, ainda na esteira desse desequilíbrio, não há como fugir aos sinais ambientais que são cada vez mais evidentes em termos de destruição natural. Ora é o sistema de chuvas que se encontra totalmente descompassado, ora é o calor que se faz cada vez mais extenuante, ora são as neves numa parte do planeta que estão caindo de maneira mais intensa. Afora isso, computam-se árvores e bosques que se extinguem a uma “velocidade” de 50 mil espécies por ano. Soma-se a isso a queimada de florestas que continua num ritmo avassalador. Sobre esse último dado, de acordo com o estudo “A Economia dos Ecossistemas e a Biodiversidade” produzido pela União Européia em 2008, estamos perdendo mais de 7 milhões de hectares anuais. Isso significa dizer 20 mil hectares por dia, o que equivale a uma superfície diária que corresponde a duas vezes o tamanho de Paris, ou a aproximadamente 33 campos de futebol por minuto.
Tal qual essa destruição sem limites, também nossos corpos vão aos poucos recebendo doses (e sinais) nocivas do efeito destruidor que se abate sobre o meio ambiente. Em qualquer lugar do mundo, nos conta Annie Leonard em The Story of Stuff, “em nossos corpos, incluído o de bebês recém-nascidos, aparecem substâncias químicas industriais e agrícolas de caráter tóxico”. Não muito diferente disso, dada a contaminação do ar, são ceifadas anualmente as vidas de mais de 1,5 milhão de pessoas ao redor do mundo que respiram ar impuro, isso sem entrar no mérito da questão de que milhões e milhões de crianças e adultos morrem às mínguas pela falta de acesso à água potável. Dito isso, a título de finalizarmos essas palavras, a questão que se coloca como essencial é promovermos o quanto antes a real e inseparável conciliação da economia com a ecologia, a fim de vermos surtir os efeitos desejados que clamam pela continuidade da vida. Efeitos esses que podem ser traduzidos em salvar vidas, em respeitar os limites naturais, em praticar a preservação e, por fim, em fazer valer a prédica que assegura que os laços da vida passam, antes de qualquer outra coisa, pela questão ambiental. Sem o devido respeito para com a Mãe Gaia, a casa que nos acolhe, é a nossa vida e a dos animais que estará em perigo. Enganam-se os que acham que o planeta entrará em colapso. O colapso que se avizinha tem endereço certo: a raça humana. Que pratiquemos urgentemente a conciliação entre a economia e a ecologia para continuarmos dando o ar da graça por aqui.
(*) Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo. prof.marcuseduardo@bol.com.br

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