AMAR E ODIAR: A CONSTRUÇÃO DA DE-CISÃO

Do Jurismente Aberta

Gedeon José de Oliveira e Ana Kléria S. Barbosa (Kel)1

Existe uma relação estética entre Clarice Lispector e Nietzsche. Para ambos pensadores, narrar as questões humanas não se reduz a eventos, fatos ou assuntos corriqueiros, mas a questão da linguagem. A linguagem é uma experimentação e não simplesmente a junção de letras para formar frases e assim comunicar um acontecimento ou um sentimento. A linguagem, ao narrar fatos, sentimentos e eventos, deve ser entendida como uma forma de significar e valorar o que sentimos quando experimentamos a doença, o sofrimento, a traição amorosa ou de um amigo. De igual modo, também comunicamos a experiência da alegria e felicidade. A linguagem tem o poder de tocar o coração, de modo que um conselho de uma pessoa amiga, as vezes muda o rumo da vida. Eis porque não existe possibilidade para se tornar humano sem criar sentido ou valor para tudo o que vive. Assim, Clarice Lispector e Nietzsche soube tocar no coração humano, demasiado humano.

O modo estético em narrar os fatos, faz com que cada leitor faça parte daquele senário, não simplesmente como espectador, mas como parte do elenco. Através da arte, eles nos convidam a ser responsáveis pelo acontecimento, pois todos participam do palco da vida.

Clarice Lispector tem um famoso texto, intitulado: “a morte de Mineirinho2”, no qual a autora narra, de forma emblemática para os dias atuais, os treze (13) tiros que a polícia descarregou no então bandido Mineirinho. Ao tematizar a morte de Mineirinho, Clarice Lispector, não se dispõe apenas, em fazer uma literatura policial, mas questiona a sociedade e, de forma contundente, a violência que nasce das instituições.

Mediante experiência, questiona Clarice Lispector: por que sentir dor pela morte de um criminoso? Podemos reformular a questão da seguinte forma: porque sentir dor dos centos e dezenove bandidos mortos pelo governador do Rio de Janeiro? Essa questão transpassou os sentimentos da maioria do povo Brasileiro, pois a questão colocada por Lispector, revela uma dimensão essencial da nossa vida, qual seja: a violência não se reduz a uma ação de um indivíduo “mau”, mas principalmente de uma estrutura social injusta que através de mecanismos, cria, alimenta e promove ações violentas e em seguida elimina esses mesmos indivíduos como se fossem vidas descartáveis, de modo que o assassinato de Mineirinho, nos fornece um esqueleto onde podemos meditar a violência em dois níveis correlacionáveis: a violência individual ampliada para violência social.

A morte de Mineirinho narrada por Lispector, faz com que cada leitor, faça parte do assassinato, de modo que o revólver não se torna apenas, a extensão dos nossos braços, mas a materialidade do ódio. Por essa razão as formas do ódio se manifestar, são tantas que a escrita não se limita às letras, sendo expostas por meio de colagens ou pinturas, pois traduzir treze tiros em palavras nos transporta para aquela sena, para aquele evento sem, contudo, estamos presente. Na ausência da presença, respondemos por aquilo que não realizamos, como faz Lispector em seus quadros”3: “Esta é a lei.

Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro”.

Por meio do ouvir, Clarice experimenta a segurança em sua vida no primeiro tiro, mas também o desespero dos últimos três tiros, pois trata-se do outro, que ela mesma assassina, colocando-se no seu lugar. Assim, se assume, se pensa a si mesma como uma policial que, empunhando o revolver assassina Mineirinho, assassinando a si mesma. É matando o outro que mato a mim mesmo.

Como é possível uma escritora se colocar no lugar de um bandido? Se há, portanto, uma vontade de matar, há uma vontade de ser mineirinho. A decisão diz quem cada um é diante do outro.

A DE-CISÃO EM ODIAR

Certamente, Lispector aprendeu com Nietzsche que em cada um de nós, habita uma vontade. Nietzsche chamaria de “vontade de poder” ou “vontade da vontade”, de modo que a “vontade” se encontra para além do bem ou do mal.

Treze tiros em Mineirinho não se resumem a sua vida de bandido, mas é, acima de tudo, vontade de matar. Para Nietzsche toda a vida é movida por uma vontade, de modo que “o querer é decisão para si. Alguém que não sabe o quer não quer absolutamente” (Heidegger, 2010, p. 38).

Certamente, as categorias de poder contem contornos diversos, mas em Nietzsche não se trata do poder no sentido de dominar o outro, mas da vontade de afirmar a vida, enquanto força interior e criadora que move os seres humanos, daí a expressão: A vida é movimento. A vida que se movimenta entre amor, paixão, ódio, alegria, tristeza, ira, etc. Nesse movimento é necessário saber querer, ou seja, conhecer a si mesmo desde a experiência de amar, da alegria, da tristeza como da ira.

Se devo conhecer a mim mesmo desde experiências diversas e adversas, isso quer dizer que a vontade, de certa forma, tem uma autonomia criadora de sentido: ninguém me obriga a amar um outro, amo porque quero amar. Quando se decide casar com alguém, essa decisão é autônoma. “Nesse caráter de decisão pelo o qual o querer é lançado para além de si reside o ser-senhor sobre” (Heidegger, 2010, p.39). Amar é querer estar com outro, é ser senhor sobre meus sentimentos e, por extensão, sobre minhas ações. Somos afetados pelo que sétimos pelo outro, mas a decisão para esta com o outro, precisa ser subjetiva. Deve-se decidir por si mesmo.

Mediante exposto, nos questionamos: o ódio, enquanto ato da violência pode ter o mesmo caráter do amor, da alegria ou da felicidade? O ódio existe ao lado dos outros afetos? “O ódio não é apenas um outro afeto. Ao contrário, ele não é absolutamente nenhum afeto, mas sim uma paixão. No entanto, denominamos os dois sentimentos. Falamos do sentimento do ódio e do sentimento de ira. Não podemos nos propor e nos decidir a ficar irados” (Heidegger, 2010, p.42). O ódio se torna uma experiência na qual o sujeito se nega a abertura para o outro. “ O ódio pode explodir repentinamente em um feito ou em uma exclamação, mas isso apenas porque ele já se abateu sobre nós, porque ele já veio à tona em nós e foi alimentado em nós mesmos; só pode ser alimentado aquilo que já está aí e vive” (Heidegger, 2010, p. 45). Tal qual o amor, o ódio tem um efeito duradouro, pois alimentamos até consumir nosso ser. “O homem irado, perde o poder de reflexão. O homem tomado pelo ódio tem o seu poder de meditação e de reflexão aumentado até a mais fina maldade” (Heidegger, 2010, p.45).

Todos os dias são noticiados mortes de mulheres por seus parceiros. Isso quer dizer que o ódio tem uma racionalidade própria, pois planeja e calcula previamente como se vingar. Assim, toda ação de violência tem uma racionalidade inerente a sua execução. Nestes termos, a ira pode até ser cega, mais o ódio é clarividente. “À paixão pertence a uma ampla expansão de seu campo de vinculação e uma abertura de si mesmo; também no ódio acontece uma tal expansão, na medida em que ele persegue o odiado constantemente por toda parte” (Heidegger, 2010, p.45). O ódio se torna a impossibilidade de diálogo e compreensão, pois o outro se encontra previamente condenado. Quem alimenta o ódio, entende, interpreta as relações a partir dele.

A paixão assim compreendida lança novamente luz sobre o que Nietzsche denomina de vontade de poder. A vontade como o ser-senhor-sobre-si-mesmo nunca é uma encapsulação do eu em seus estados. A vontade é, como dissemos, de-cisão na qual o que quer se expõe da maneira mais ampla possível ao ente, a fim de mantê-lo na esfera de seu comportamento (Heidegger, 2010, p. 45).

A paixão, segundo Heidegger, é uma força originária que se abre a existência. O ódio também é uma força originária, mas ao contrário da paixão, o ódio é fechamento. Não se trata simplesmente de ações psicológicas ou sociológicas, mas modos de escolher habitar o mundo da vida. Assim, Heidegger entende que a vontade dever exercer sua força sobre o próprio sujeito mediante situações adversas, isto é, sobre a sua existência. Existir é, de certo modo, experimentar a dor, a alegria, paixão e ódio. Mas aquele que não entende a existência, isto é, não deseja de forma absoluta administrar suas ações, experimenta o ódio como domínio sobre o comportamento do outro. Isto é vontade de poder, pois o outro precisa ser eliminado para satisfazer um determinado prazer do eu. Executar Mineirinho com treze tiros foi, de alguma forma, um ato de prazer. É neste sentido que Nietzsche proclama a morte de Deus, pois sendo Deus o autor e destino da vida, agora é o ser humano que mediante o ódio, se torna o substituto de Deus.

CONCLUINDO NOSSA MEDITAÇÃO

É possível odiar alguém que nuca nos ofendeu? O que a mãe de santo do candomblé fez a determinado grupo católico ou protestante evangélico para ser odiada? O que fez um homo afetivo para ser rechaçado pelo homofóbico? O que fez os negros e negras da favela do alemão e penha no Rio de janeiro para serem assassinados pela política de Estado? Sim, não é apenas possível odiar aquém que nunca nos ofendeu, como o ódio se torna um mecanismo de gestão política. Odiamos as pessoas não simplesmente por algo que ela fez contra a nós, não se trata de ser traficantes de drogas apenas. Odiamos pelo seu modo de vida. São pessoas que não pertencem ao nosso grupo de pessoas brancas e de homens de bem; são pessoas que não pertencem a nossa religião católica ou partido político. Odiamos porque se deseja odiar e que por essa razão, o ódio se torna um projeto pessoal e político de eliminação do outro. Por isso que o ressentimento é a potencialização do verbo ressentir. Ressentir é sentir duas vezes aquilo fora sentido, pois ao invés de se abrir ao outro, o ressentimento afirma-se como ódio.

De-cisão indica, portanto, corte ou escolha, uma ação onde se decide ser quem é. Tal decisão é existencial pois a escolha constitui o sujeito enquanto tal. Não escolhemos entre o bem e o mal como se fossem duas dimensões ou um maniqueísmo. Eu sou as minhas escolhas, pois bem e mal habitam em nós e fora de nós mesmos. Portanto, a vontade nos expõe, seja como abertura, diálogo ao outro, ou como negação e fechamento ao outro. Aí reside a morte! Não somente do outro, mas antes, do si mesmo. Assim, mineirinho, ou os mineirinhos, são frutos de uma sociedade que exclui para matar. Uma vez excluído, o Estado matando com treze tiros, mostra que para construir uma sociedade de burguesa, religiosa e branca, a justiça precisa ser transformada em vingança. O estado, ao utilizar a violência como modus operandi, alimenta a violência como forma de relação entre os indivíduos sociais, pois a origem da violência não se restringe a ausência da moral ou das armas, antes, a violência se encontra nas desigualdades alimentadas pelas estruturas de poder que por sua vez, desumaniza para fazer aparecer o criminoso. No Brasil de hoje, uma parcela considerável da sociedade defende o assassinato do seu próprio povo e, dentre estes, um número grande de religiosos.

BIBLIOGRAFIA

HEIDEGGER, M. Nietzsche I. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

1 Ana Kléria Barbosa, é professora do ensino médio e fundamental na cidade de Tanquinho-Bahia e uma liderança política popular.

3 As pinturas de Clarice Lispector estiverem em exposição no Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro no ano de 2022. O acervo encontra-se atualmente guardado e preservado na Casa Rui Barbosa, também no Rio de Janeiro. Clarice tinha uma grande estima pelas artes de um modo geral, mas a pintura possuía um lugar privilegiado, pois era seu jeito de escrever sem palavras – gesto que a mesma desejava em demasia. Para ela, a palavra atrapalhava. Em Outros Escritos (2005), a autora relata que o ato de pintar é a coisa mais pura que ela poderia fazer, algo que dá muito gosto e prazer de se conceber. As artes visuais são tão importantes para Lispector que ela criou para sua Água Viva (1973) uma personagem pintora e para A Paixão Segundo GH (1964) uma escultora.

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