
Em Fortaleza, mãos solidárias estão em trabalhando com 150 turmas, em mais de 65 bairros.
Igor Cordeiro / Brasil de Fato – Fortaleza (CE), 06.out.2025 às 15h00
A alfabetização de jovens e adultos é um tema complexo, tão invisibilizado quanto os motivos que a tornam necessária. Nos grandes centros urbanos, é preciso considerar alguns pontos. Antes de tudo, compreender quem são os sujeitos a serem alfabetizados, quais os motivos que os impediram de estudar na idade regular e qual o seu contexto sociocultural e histórico.
No caso de Fortaleza, pesa o histórico das migrações vindas do interior do Ceará. Apesar de parecer distante, esse processo é recente e ainda marca a vida de muitos educandos, sobretudo em bairros como Barra do Ceará, Grande Pirambu e outras áreas periféricas. Nessas regiões, os migrantes enfrentaram subemprego, precarização do trabalho, descaso do poder público e uma economia paupérrima — situação de subcidadania.
O perfil predominante dos educandos revela pessoas de baixa renda, com idade média entre 40 e 70 anos, que frequentaram pouco ou nada a escola. Não há grande diferença entre homens e mulheres quanto à quantidade, mas os motivos do abandono escolar variam conforme o gênero. O resultado, contudo, é comum: uma considerável massa de pessoas em vias de alienação. Em Fortaleza, esse grupo corresponde a cerca de 5,6% da população (IBGE, 2022).
A proximidade cultural entre a capital e o interior tem favorecido a aplicação de práticas da pedagogia do Movimento Sem Terra, bem como adaptações ao método, como os Círculos de Cultura – contribuição da Pedagogia Freireana. A periferia de Fortaleza carrega no seu cotidiano as marcas do interior e do campo. Essas raízes aparecem nas tradições, nos costumes e na memória coletiva das comunidades, constituindo um patrimônio cultural que serviu de base para a elaboração de estratégias pedagógicas voltadas à alfabetização no contexto urbano da capital, tendo em vista as relações dialéticas entre campo e cidade.

Partindo dessa análise histórica, é que podemos entender os fatores geradores dos principais desafios da Jornada de Alfabetização. Entre os principais entraves, o primeiro é o reconhecimento da própria condição de analfabetismo. Esse processo exige que a pessoa tome consciência da necessidade de se educar e, ao mesmo tempo, tenha a coragem de admitir sua situação diante dos outros. Isso exige coragem, pois, em nossa sociedade, ainda persiste uma percepção que culpabiliza o indivíduo, gerando vergonha e sentimento de incapacidade. Essa vergonha não é apenas individual, mas fruto de uma construção social que associa falta de escolaridade à inferioridade e ao fracasso.
Frantz Fanon, em seus escritos sobre a desumanização e a internalização da opressão, mostra como os sujeitos oprimidos muitas vezes incorporam os estigmas que lhes são impostos, passando a enxergar-se pela lente do opressor. Assim, o analfabeto, em vez de compreender sua condição como resultado de processos históricos e sociais de exclusão, tende a sentir culpa e vergonha pessoais. Essa vergonha revela como a dominação não se dá apenas pela privação material, mas também pelo controle simbólico e psicológico, produzindo feridas profundas na autoestima e na identidade do sujeito.
É esse fator que explica o curioso fato de muitas vezes não percebermos a presença de pessoas em situação de analfabetismo em nosso convívio. São parentes, amigos e vizinhos que tiveram negado um direito tão básico: o de aprender a ler e escrever na idade certa. O analfabetismo foi e ainda é uma triste mancha em nossa história, que, enquanto sociedade, temos sistematicamente ignorado.
Neste sentido, o analfabetismo é resultado das condições socioeconômicas nas quais essas pessoas estavam inseridas. Tal falha do Estado nunca foi corrigida; preferimos jogar para debaixo do tapete essa vergonhosa mancha.
Outra dificuldade enfrentada tem origem em um problema latente em nossos territórios: a presença do crime organizado. Para além do déficit educacional, a jornada revelou a disputa constante pelo território. O próprio termo “território” não se refere apenas a um espaço geográfico, mas está intrinsecamente ligado às relações de poder, posse, soberania e a aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais. Esse poder está em permanente disputa; bairro a bairro, rua a rua, a periferia é disputada. Não foram raros os casos de turmas impedidas de utilizar determinada escola por ela estar localizada em uma rua dominada por outra facção. A população periférica vive sitiada em seu próprio bairro — ou até mesmo em sua própria rua. Como consequência, enfrentamos a dificuldade de encontrar locais adequados para as turmas, o que impôs sérias limitações.
Diante disso, foi necessário criar alternativas: turmas em associações, centros comunitários, instituições religiosas e até mesmo nas casas de alfabetizadores. Essa foi a resposta popular diante de um cenário tão adverso.
Apesar das dificuldades, a disposição em iniciar essa jornada não faltou. Ainda há um longo caminho a trilhar, e esperamos não apenas alfabetizar jovens e adultos nos mais diversos bairros de Fortaleza, mas também transformar as bases sociais desses territórios. Como disse Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. É com essa convicção que a Jornada de Alfabetização almeja concretizar grandes transformações em Fortaleza.
*Igor Cordeiro, coordenador de turma da Jornada de Alfabetização de Jovens e Adultos nas Periferias, Mãos Solidárias – CE e militante do MST.
Editado por: Camila Garcia
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