A visão em torno da bioeconomia

A relação nada amistosa entre a economia e a natureza fez surgir, em meados da década de 1960, explicações técnicas que procuravam dar conta da imprescindível necessidade de mudar o processo econômico-produtivo. Àquela altura vislumbrava-se claramente que as constantes agressões ao meio ambiente, fruto da expansiva atividade econômica que fere as fronteiras do ecossistema, geram consideráveis passivos ambientais. Foi no calor dessas discussões que surgiu uma nova visão da teoria econômica que envolvia tanto a biologia quanto a física: a bioeconomia.
O que seria isso? Bioeconomia se configura na base científica da economia. Na essência, pode-se defini-la como um conceito de desenvolvimento que pressupõe novas relações com o meio ambiente, com o planeta Terra em si e com as pessoas.
Federico Chicchi, sociólogo italiano e um dos mais preparados estudiosos desse assunto, aponta que “a bioeconomia refere-se ao processo de captura da vida e à produção da própria vida no interior das regras do discurso econômico”.
Para René Passet, outro renomado especialista no assunto, a bioeconomia é o “novo paradigma da economia”. Esse pensador francês destaca que o conceito de bioeconomia surgiu como conseqüência do alerta ecológico dos anos 1960/70, que descobriu o processo econômico como uma extensão da evolução biológica.
A termodinâmica e a biológica são os seus fundamentos. O objetivo, diz Passet, “é integrar as atividades econômicas nos sistemas naturais porque as leis da macroeconomia não se reduzem às da microeconomia”. O interesse geral é muito mais do que a soma das partes. Os mecanismos naturais (como o ar, a água, o solo) não têm que ver com as leis de mercado; por sinal, problemas com esses bens comuns e naturais transcendem a lógica das nações e dos mercados. Dessa forma, na visão de Passet, a economia situa-se além de si mesma e vislumbra um novo modelo de desenvolvimento, chamado, pois, de bioeconômico. E esse modelo para se efetivar precisa ser de caráter integrador, caso contrário, malogrará.
Para enfatizar a questão esse seria um modelo capaz de conciliar os interesses públicos, privados e solidários com o interesse amplo e geral, envolvendo o que a macroeconomia tradicional tanto esquece: as pessoas e suas relações com a natureza.
Com isso, enaltecemos que a economia tem tudo a ver com um projeto de desenvolvimento que envolva as pessoas e o capital natural, caso contrário não se sustentará na linha do tempo tendendo, pois, a se desequilibrar logo mais à frente.
As pessoas e o desenvolvimento econômico e humano, em consonância com o aspecto da natureza, precisam andar juntos. Os objetivos econômicos precisam apontar para essa realização. Só há (e haverá) verdadeiro desenvolvimento socioeconômico quando as pessoas forem definitivamente contempladas. De nada adianta buscar o desenvolvimento das instituições, por exemplo, se essas não forem colocadas à disposição das pessoas. São as pessoas que fazem funcionar a economia, as instituições, e, claro, o próprio mercado.
Ademais, uma vez que esse processo macro envolve sensivelmente a participação das pessoas, nada mais normal que abordar as relações dessas para com a natureza, tendo em vista que o homem não é dono do meio ambiente, mas sim seu hóspede e, do meio ambiente depende vertiginosamente para dar prosseguimento ao curso natural da vida.
Infelizmente, esse “hóspede” tem se comportado como aquele inquilino que, descontente com o valor do aluguel, “destrói” partes de sua moradia.
Por esse prisma, a bioeconomia não deve então ser apenas entendida como uma aproximação econômica ao vivente, mas sim como uma aproximação “vivente” à própria modelagem econômica. Essa simbiose necessita ser sincronizada, uma vez que a economia nada mais é que uma atividade de transformação que tem como finalidade precípua satisfazer as necessidades humanas mais elementares. E onde estão mesmo os recursos indispensáveis para esse atendimento? É evidente que se encontra na natureza todo e qualquer recurso necessário para a produção (transformação, na verdade) de bens que suprirá as necessidades humanas. Por fim, nunca é demais aduzir que a economia intervém em três níveis: i) transformação e cálculo; ii) o nível humano; e, iii) o nível natural. Logo, a interface homem-atividade-natureza se realça a todo e qualquer instante.
(*) Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor, especialista em Política Internacional com mestrado pela (USP).
prof.marcuseduardo@bol.com.br

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