A pedagogia oficial paulista e o seu “manual para vigiar e punir”

O tucanato paulista parece mesmo insuperável quando se trata de administrar a educação pública, especialmente sob a batuta do indefectível Paulo Renato de Souza. Por pouco afundavam as universidades públicas federais de uma vez por todas entre 1994 e 2002. A obra só não foi concluída porque faltou-lhes mais um mandato presidencial, que perderam para Lula e o PT em 2002. Não fosse isso, hoje estaríamos entregues à sanha dos empresários que deitaram e rolaram na era FHC, abrindo uma “faculdade” a cada esquina, como quem abre uma quitanda.
Agora vemos do que são capazes em São Paulo. Divulga-se que as escolas estaduais daquele estado contarão com um novo e poderoso aliado na luta contra a indisciplina e a violência no ambiente escolar: um manual de normas e condutas, direitos e deveres para os alunos. A grande novidade do referido instrumento “didático-pedagógico” é que prevê punições para os alunos.
A pergunta que não quer calar é: quem vai punir? Ora, é evidente que essa tarefa recairá sobre os ombros de professores, funcionários e diretores que serão desta forma estimulados a partir para o confronto com os alunos. O senhor Paulo Renato não está a inventar a roda, é claro. Retoma um velho hábito das primeiras décadas republicanas em que os problemas sociais eram tratados pelas autoridades como caso de polícia. Talvez tenha esquecido que professor não veste farda, não usa cassetete e nem anda armado. Sua arma é a palavra.
Por que diachos esses doutos senhores não se perguntam porque as escolas são depredadas e destruídas, seus professores desrespeitados e agredidos e o espaço que outrora destinava-se à educação vai se transformando num cenário de guerra em que dos dois lados tombam vítimas – enquanto o secretário assiste do alto de seu confortável gabinete a barbárie campear?
Enquanto faltar de tudo um pouco para esses jovens que não têm outra alternativa a não ser estudar numa falida rede pública, a escola será o lugar onde a revolta e a indignação continuarão a aflorar. Sem condições de moradia decente, sem renda, sem emprego, sem transporte público de qualidade, sem atendimento digno na rede pública de saúde, mal alimentados e cotidianamente desrespeitados, o que esses estudantes encontram nas escolas? Prédios deteriorados, condições precárias de estudo, falta de professores, mestres desestimulados e pauperizados. E agora um código disciplinar de conduta travestido de manual de direitos e deveres!
Ora, esquece – propositalmente – o governo do estado de São Paulo que professores não são carcereiros e que escola não é presídio. Confunde-se aquele que um dia escolheu o ofício de educar, estimulando-o a punir. Educar não é punir, é gesto de amor, dedicação, compreensão, diálogo e orientação. A cúpula da educação paulista parece que não viu o belo documentário de João Jardim, “Pro dia nascer feliz”. Se viu, não entendeu ou não quis entender. A cúpula da educação paulista parece que nunca ouviu falar de um certo Paulo Freire, não é mesmo?
A garotada que freqüenta a escola pública estadual em São Paulo certamente gostaria de estudar numa escola bonita, dotada de toda infraestrutura e recursos tecnológicos, com professores bem remunerados e motivados, tal como os filhos da burguesia paulistana usufruem diariamente. Na falta disso e de tudo o mais, sentem-se ali mais uma vez oprimidos e desrespeitados, dentro e fora da escola.
A escola que deveria ser um espaço acolhedor e de diálogo, onde os jovens possam se manifestar livremente e ser ouvidos sobre suas angústias e sonhos, há muito tempo já perdeu o sentido. O gesto derradeiro do manual de conduta a respaldar punições – até multas são previstas – passa longe da tarefa de educar. Talvez lembre o delírio tirânico do panopticon em que Foucault viu o espaço por excelência para vigiar e punir. Jamais para educar.
Desse jeito, a iniciativa do governo paulista funcionará como um instrumento ainda mais eficaz não do ponto de vista disciplinar, mas do aprofundamento de uma luta de classes que o tucanato insiste em fomentar. Hoje joga professores contra alunos, amanhã ambos voltarão toda a sua fúria e indignação contra seus verdadeiros carrascos. Quem fomenta o ódio de classe, certamente há de colher os seus frutos.
PS – Em tempo, estaria o tal “manual de conduta” em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente? Ou às favas com a lei?
(*) Denilson Botelho é professor de história e autor de A pátria que quisera ter era um mito.

7 comentários sobre “A pedagogia oficial paulista e o seu “manual para vigiar e punir””

  1. Um manual de conduta. Era só o que faltava mesmo. O que mais virá depois disso para os (tristes) alunos do ensino público? Uniformes listrados? Curso de segurança e defesa pessoal para professores? Porte de arma para os inspetores? Cerca de um mês atrás (e isso numa escola particular), minha esposa, professora, tentou separar uma brica entre alunos na qual um deles cravaria uma lapiseira na cabeça do outro. Resultado: a “lapiseirada” tratou de acertar e furar o braço de minha esposa, que foi parar no hospital. Isso para não contar o que acontece na escola estadual em que ela trabalha; é deprimente. Que alguém está falhando é fato, mas não será um manual de conduta que corrigirá tal falha… não mesmo.

  2. Bastante complexo para o governo brasileiro tratar a disciplina quando o próprio capitalismo é, por natureza, indisciplinado. Tais estratégias, e outras mais que inventarem, não terão o menor sentido, muito menos obterão exito. A causa, raiz, de tudo está no próprio sistema assassino e suicida, indisciplina e bandido, desumano e sádico. Entretanto, temos um alento: tudo que está acontecendo já é um anúncio da decadência do capitalismo. Como não temos ainda outro sistema que possamos colocar em simetria, resta-nos lutar, e muito, pelo socialismo.

  3. Sou professor ACT da rede pública do estado de SP em Piracicaba. Não li ainda esse manual, mas acho q não precisaria de manual de disciplina de aluno se a escola voltasse a ser valorizada. Digo a escola como um todo, desde a remuneração digna de professores e funcionarios até condições para exercer o trabalho. As escolas são diferentes, pois há escolas q recebem bastante verba, outras não e ai tb há um descompasso com as necessidades de cada colégio. Eu sou de esquerda e odeio o PSDB ainda mais aqui no estado, mas acho q essa mania de vitimizar todos os alunos da rede pública é meio exagero. Boa parte das escolas de periferia q lecionei há bastante aluno pobre mesmo q passa as dificuldades q todos conhecem. Mas muitas escolas de periferia onde a maioria q estuda lá é da comunidade são ótimas pra trabalhar. Agora boa parte das escolas de centro, os alunos são de classe média e baixa. Pra nós hj o q dificulta é falta de cobrança dos alunos. Hj na escola aluno faz o q quer, pois o governo via diretorias de ensino não querem q repita aluno e muito menos os expulse. Isso trará uma estatistica muito ruim para o Serra ano q vem e por isso temos q aguentar aluno nos xingando e nos ameaçando e ficamos quietos pra não piorar as coisas. É lógico q não é a maioria, mas sim uma minoria q faz isso. Essa minoria consegue estragar classes inteiras e sabem q por causa da progressão continuada a maioria consegue passar no final via conselho. Eu acho q o estado tem q oferecer ensino gratuito e de qualidade e tb exigir como contrapartida do aluno q esse obedeça as regras um lugar de ensino tem q ter. Quem não obedecer a isso, pode-se dar uma ou duas chances, depois disso não tem jeito. Tem aluno q não quer estudar e acha q a escola é simplesmente ponto de encontro. Eu sei q vão falar q tem q ver o motivo desse desinteresse, mas pra isso a escola teria q ter equipes de psicólogos e outros profissionais só pra isso. Isso é quase impossível, então recai nos nossos ombros essa responsabilidade. Além de tentar ensinar, temos q dar nota de graça para aluno devido a seus problemas. Acho q não é por ai. Escola tem q ter regra e alunos e professores tem q segui-las e cumpri-las enquanto estiverem dentro da escola. Hj em dia o governo só cobra da gente, mas os alunos não. A realidade na sala de aula é bem diferente do q esses estereótipos q alguns tem dos alunos sempre como vítimas.

  4. Usando o próprio Foucault, podemos dizer que a sala de aula, não é nada mais que um espaço em que se opera a opressão, até mesmo pelas filas, uniformização e um tutor ditador posto em uma espécie de púlpito que pelo modo inatista de ensino torna o aluno, como tanto criticava Paulo Freire, um jarro que é cheio com uma terra disfarçada de conhecimento, isso sem contar que por tal inatismo, tiram-se as influências do meio, da classe ou “lugar social” e passa-se a culpar somente o aluno e acredita que o mesmo carrega consigo pré-definições que irá aprofundar…
    Porém, sabe-se de fato a realidade em que se encontra a rede pública de ensino, e mais que isso a conjuntura universitária, a partir da grande influência das empresas de “apoio” (que em minha opinião, só ajudam a fincar a bandeira do neoliberalismo nas universidades) tem transformado a academia e os respectivos acadêmicos, futuros professores, em meros academicistas que vêem na universidade apenas um lugar onde se assistem aulas chatas, onde não se fazem discussões e onde os tais universitários, não lêem.
    Opa, mais espere aí? Se eu não leio, como eu vou exigir leitura? E ainda, se eu só estagio pra completar horas da disciplina prática, e não o faço com tal afeição e a doutrina Freire, como posso me considerar um profissional da educação? E ainda, se o governo não me paga, qual estímulo terei em lecionar? E ainda, quando sou limitado por uma MEC totalmente antiliberal (no sentido filosófico, onde eu determino que o aluno siga apenas um “manual” e que o professor vomite tudo o que vê na academia antes de entrar na sala de aula e instruir tais crianças para que se perpetue um ciclo de ignorância e dominação, a mesma que só beneficia os grandes ‘barões’ que estão “apoiando” nosso ensino), como estarei exercendo uma profissão de um educador?
    Mas, calma lá, “companheiro” nós, Ramphastidae – Família a qual pertencem os tucanos – acreditamos que a criação de um sistema “Palmatória 2.0” é uma medida perfeitamente democrática e totalmente funcional… Ora, se aluno que não estuda porque trabalha de tarde e ajuda o pai à noite pra conseguir por o que comer em casa pra uma família, (ainda estereótipo, porém, não distante da realidade de muitos) e chega noutro dia ao colégio e se porta alheio àquilo o que seu professor o “ensina”, acreditamos que
    a solução é punir, afinal, isso é sim uma “social democracia” e não, não pregamos a privatização, o corte em gastos nas políticas públicas e muito menos estamos fomentando o desnível social… A punição surge como a grande salvação do ensino, a primeira grande revolução após as cotas raciais e para os “bichos” que se criam no ensino público, afinal, o que precisamos, é apenas de uma mão-de-obra com um pseudo-título universitário, para que se alastre o arauto da agnose, e para que possamos operar contribuindo para a expansão democrática (mas, não leiam Políbio, porque ele irá dizer que isso na verdade é a Oclocracia, shhh…)
    Isso, caros companheiros, é nada mais nada menos, que um alerta, o que o camarada acima nos alertou, de uma ruptura do “nosso tão amado sistema econômico vigente” o qual por meio da sua “maravilhosa globalização” atende a todos em qualquer lugar da melhor forma possível, e ainda assim, é muito melhor pra nós, estudarmos apenas a cultura, porque ela sobrevive no meio da carnificina e fechar os olhos para o que acontece é muito mais fácil, afinal, as idéias de Marx são maniqueístas, muito reducionistas e coisa do passado, não são?
    Mas, que é isso… O econômico não determina o social, imagina… Isso é apenas dogmatismo, o negócio mesmo é a gente começar do final, por que a gente sabe que se formos tomar iniciativas pra consertar nossa raiz, veremos que a gangrena do capitalismo se encontra em luta com certo anticorpo vermelho chamado socialismo, e o pior, talvez isso possa nos fazer pensar que o que operamos é somente a desgraça do povo, e isso nos tiraria de vez por todas do poder, caso chegasse aos olhos do povo… Vamos esconder… Alguém traz o futebol, carnaval, o créu e….o que mais?… ã…. AS OLIMPÍADAS…
    Eduardo Machado
    Graduando em Licenciatura Plena em História – UFPI

  5. Pra mim, aluno pode trabalhar e passar por um monte de dificuldades, mas em primeiro lugar tem q ter respeito não só pelo professor por ser professor, mas por ser uma pessoa mesmo. Esse estereótipo de aluno não vale ser generalizado, assim como não generalizo q todos os alunos nos desrespeitam. Mas como disse acima, uma minoria q consegue e o resto adere a condutas nada civilizadas. Como civilizadas? hj vc entra na sala e econtra na maioria das vezes, os alunos dispersos, batendo papo, jogando baralho, ouvindo música no celular, fazendo brincadeiras e só. A escola tem q ter regras, infelizmente, e quem está lá tem q segui-las. Nós professores seguimos e somos cobrados pra isso, mas o aluno não, faz o q quer.

  6. A pedagogia do amor, os sistemas de ciclo, servem somente para criar estatísticas e lançar na sociedade indivíduos que desconhecem o respeito, regras e a responsabilidade.
    Coitados de muitos desses alunos, só quando for tarde demais vão descobrir que a polícia, pedagoga de bandido, não leu Foucalt nem Paulo Freire.

  7. A escola pública está falida,por culpa exclusiva dos esquerdopatas,que ainda naõ entenderam,que o homem é um animal irracional complexo.Disciplina sim.

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