"A mulher casa e não estuda, porque o esposo não deixa com medo de pegar chifre"

Iranilde e Cleusa, duas "margaridas", defendem com entusiasmo a participação das mulheres nas lutas políticas/sindicais. Foto: Jadson Oliveira..

(Conversa com duas “margaridas” sobre machismo e participação política das mulheres. Foi no segundo dia do evento, 17/agosto, no acampamento no Parque da Cidade, em Brasília. A Marcha das Margaridas foi organizada pela estrutura sindical da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, Contag, e levou à capital federal mais de 70 mil mulheres de todo o país, a maioria trabalhadoras rurais, sob o lema Desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade).
Iranilde – Olha, nós somos culpadas pelo machismo dos homens, porque as mulheres muitas vezes deixam de trabalhar pra ajudar a renda de seu esposo, a renda familiar, porque a mulher casa e não estuda, porque o esposo não deixa com medo de pegar chifre, então as mulheres deixam de ser libertas. Elas têm de se conscientizarem, aí está o papel da educação, hoje com certeza os profissionais da educação estão aí não só para ensinar a ler e escrever, mas também para conscientizar, ensinar a reivindicar seus direitos…
(Quem está falando é Iranilde Benício de Carvalho, 40 anos, casada, três filhos, da cidade de Araioses, município que tem pouco mais de 50 mil habitantes, no Baixo Parnaíba, Maranhão. É funcionária da prefeitura e presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais. Ela estava conversando com Cleusa e eu me meti na conversa e pedi permissão para ligar o gravador).
Você conhece mulheres que sofrem essa repressão dos maridos?
Iranilde – Conheço, eu conheço dois tipos de depoimento: mulheres que depois que foram para a faculdade não aguentaram mais seus esposos e separaram. Eu conheço elas, não é porque elas queriam namorado, não é isso, elas não aguentaram mais a repressão, não aguentaram mais o egoísmo, o machismo de seus companheiros. E conheço mulheres que até hoje estão camufladas, olha a situação… não foram estudar pra não separar do marido, o marido foi e separou dela e ficou com outra. O que foi que ela ganhou? Está desempregada e sem o marido, olha a contradição.
Cleusa: "Temos uma democracia semi-aberta, porque a gente não vive numa democracia franca". Foto: Jadson Oliveira.

Cleusa – O machismo é arraigado em todo nosso território brasileiro. Se nós mulheres não o enfrentarmos diuturnamente ele não acaba… a mulher não tem dupla jornada, não, a mulher tem ene jornadas, ela trabalha, estuda, cuida dos filhos e, além do mais, têm muitos maridos que não compreendem essa luta da mulher, então é preciso que a própria mulher se dê o seu valor e, por isso, ela precisa estudar, participar, defender sua categoria seja na política, seja na escola, em qualquer fórum, em qualquer departamento que ela estiver, tem que estar defendendo seus direitos.
(Esta é Maria Cleusa de Jesus Silva, 57 anos, divorciada, três filhos, de Goiânia, Goiás. Ela é funcionária do Ministério da Saúde e diretora de Informação do Sindicato dos Servidores Federais da Saúde e Educação).
É importante a participação de vocês, das trabalhadoras rurais, na política partidária, no processo eleitoral?
Cleusa – Acho que é importante a participação do povo, principalmente porque temos uma democracia semi-aberta…
Democracia semi-aberta… o que é isso?
Cleusa – Democracia semi-aberta porque a gente não vive numa democracia franca, nem todas as pessoas podem exercer seus direitos, eu posso, mas muitos não podem falar o que pensam, porque são cortadas, são tolhidas de todas as formas, podem perder o emprego, por exemplo, sofrer represálias no trabalho, servidores da área federal, da área municipal, vivem trabalhando sob pressão.
Iranilde – Com certeza, a participação é muito importante, também nas eleições. Vou contar minha experiência na última eleição lá na minha cidade em Araioses, foi eleita a prefeita Luciana Trinta, foi eleita por outro partido, mas agora é do PMDB. Foi uma decepção pra nós mulheres, mas na verdade pra nós, do Partido dos Trabalhadores, não foi surpresa porque o partido dela é um partido que não tem nada a ver com os servidores públicos, é da elite, não sabe o que é pobreza, as necessidades, nós que estamos acostumadas a passar fome, uma prefeita elitizada, branca, bonita… o que é que o povo dizia? É que ela já era rica, não precisava do dinheiro do nosso município, muita gente pensando que ela estava se propondo a ser prefeita prá administrar, pra cuidar dos pobres, pra cuidar da educação, da saúde, mas no entanto o hospital que tinha foi fechado, só ficou o hospital que é dela, que tem convênio com o estado e que não tem médico, há uma propaganda lá que diz que tem oftalmologista, que tem cardiologista, só no papel, tá lá na placa, mas não funciona.
Os milhares de manifestantes encheram o Eixo Monumental e Esplanada dos Ministérios. Foto: Isabela Lyrio.

Quando ela assumiu a primeira atitude dela foi colocar mais de 400 servidores públicos pra fora do serviço, alegando que as pessoas que fizeram o concurso, em 2006, quando do prefeito anterior, tinham sido aprovadas mas não classificadas. Foram chamadas pessoas que estavam na suplência, né? professores, auxiliares operacionais, agentes administrativos… a prova que havia necessidade é que o sindicato entrou com uma ação e muitos voltaram depois de três meses, quatro meses, sob liminar da Justiça.
Olha, o que acontece hoje? as pessoas falam que votaram nela porque não tinham uma opção… votaram nela porque era uma mulher rica, bonita, achavam que não tinham outra opção, que não tinha necessidade de roubar, que no Partido dos Trabalhadores as pessoas não tinham condição de se eleger, eram pessoas pobres, que quando estão no poder querem é roubar, tinham umas desculpas. No entanto, hoje tem uma decepção muito grande para os que acreditaram.
É importante participar de um movimento como a Marcha das Margaridas?
Iranilde – Com certeza. Todas as mulheres e todos os homens que vieram, de tantos lugares, de suas cidades, viemos de tão distante para, juntas com nossas colegas, para reivindicar nossos direitos, direito de uma saúde, direito de uma educação para nossos filhos mais justa e tirar esse tabu de que a mulher tem que ficar em casa, cuidar dos filhos, nós mulheres, nós aprendemos que temos capacidade não só de cuidar dos nossos filhos, de cuidar dos nossos esposos, de nossa família, como também estar à disposição de uma marcha dessa, uma marcha tão importante… é uma conquista, que nós hoje temos o direito de votar e de ser votada, e não queremos só isso, queremos ir mais além, queremos também a igualdade de poder no Executivo, no Legislativo, igualdade na política com os homens, na disputa de mandatos, foi aprovado que as mulheres têm direito a 30% dos candidatos, mas nós queremos 50%. As mulheres, nós precisamos nos conscientizar que temos de estar disputando esses mandatos, que nossas filhas mulheres não sintam que hoje estamos fugindo, que nossas filhas, na próxima década, estejam reivindicando direitos mais avançados.
Não é à toa que hoje estamos comemorando a Marcha das Margaridas, não é à toa que temos hoje o Dia Internacional da Mulher, ah! é uma data importante, mas precisamos saber o que aconteceu no Dia Internacional da Mulher, é porque os homens acham que as mulheres merecem? Não! Foram centenas de mulheres que morreram em uma fábrica na Inglaterra, reivindicando seus direitos e foram reprimidas. Justamente por isso nós, hoje, estamos aqui, agradecemos a participação dos homens, sua contribuição, eles também estão se conscientizando pra melhorar nossa vida familiar, pra quebrar o tabu que mulher tem de ficar só em casa, porque se meu esposo não tivesse essa compreensão, eu poderia estar aqui, como muitas margaridas estão, mas ter de enfrentar meu esposo quando chegar em casa.
Iranilde: "Tenho certeza de que as mulheres não vão voltar pra casa com a mesma concepção de antes". Foto: Jadson Oliveira.

Foi muito proveitosa, é minha primeira marcha, aprendi muito… tenho certeza de que as mulheres não vão voltar pra casa com a mesma concepção de antes, com certeza nós melhoramos nossa concepção de que, junto com a nossa presidenta Dilma, temos que correr atrás dos nossos direitos, porque se ficarmos em nossa casa chorando, trancada, ninguém vai saber o que está acontecendo, temos que dar esse grito, foi pra isso que viemos, dar esse grito de liberdade, de querer o melhor pra nossa sociedade, melhor educação e na sustentabilidade de nossos familiares e das mulheres brasileiras.
Cleusa – É minha segunda marcha, é muito importante, não é à toa que nós elegemos a presidenta Dilma, isso foi fruto de muita luta das mulheres, enfrentamos os tabus que temos no nosso dia-a-dia. É um movimento que não é só de uma margarida, na verdade são milhões de margaridas porque muitas que não estão aqui é porque não podem, é porque têm outros afazeres, mas nós, cada uma que veio representar nosso sindicato vai levar pra base esse compromisso que tivemos aqui e falar da importância da marcha, cada movimento desse é um aprendizado, pra mim a primeira foi boa e a segunda foi melhor ainda.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Brasília. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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