
De Trump a Orbán, de Meloni a Modi, líderes do mundo todo transformaram o medo, o ressentimento e o orgulho nacional em instrumentos políticos. Seu apelo não se baseia apenas no carisma, mas também na profunda insegurança gerada pela longa crise do neoliberalismo.
Nas últimas décadas, o neoliberalismo corroeu os alicerces sociais e emocionais da vida política. Com a erosão dos Estados de bem-estar social, a expansão do trabalho precário e o desaparecimento das proteções públicas, emergiu uma nova atmosfera de insegurança — na qual a raiva, o medo, o ressentimento, o orgulho ferido e o anseio por pertencimento se tornaram poderosas moedas políticas.
Este terreno emocional não é teórico. Está inscrito na retórica dos líderes mais influentes da atualidade. Donald Trump promete falar pelos “esquecidos”. Viktor Orbán alerta que a Europa está “sob ataque”. Narendra Modi enquadra a transformação política como um “renascimento nacional”. Giorgia Meloni reivindica a identidade — “mulher, mãe, italiana, cristã” — como uma fortaleza ameaçada. Javier Milei brada que “tudo vai desmoronar” sem uma ruptura radical. Benjamin Netanyahu encara cada crise como uma batalha pela sobrevivência nacional.
Seus vocabulários diferem, mas compartilham a mesma gramática emocional: mobilizar medo, orgulho, sentimentos de humilhação e ansiedade existencial em sociedades fragmentadas pela reestruturação neoliberal. A ascensão das formações autoritário-populistas de hoje não pode ser compreendida apenas pelo carisma; elas estão enraizadas em um contexto mais profundo de precariedade econômica, fragmentação social e colapso da confiança na institucionalidade.
Para entender essa convergência entre emoção e poder, a Jacobin conversou com a socióloga Mabel Berezin, cujo trabalho explora a relação entre afeto, identidade política e o desenvolvimento histórico dos movimentos de direita. Nesta conversa, Berezin explica como as emoções se tornam ferramentas políticas, por que novas formações de direita ressoam em diferentes continentes e como o neoliberalismo preparou o terreno para novas formas de autoridade.
Fundamentos materiais, crises emocionais
DORA MENGÜÇ
Antes de abordarmos as forças estruturais, quero começar pela matéria-prima em si: as emoções. A política contemporânea muitas vezes parece ser movida não por programas, mas pelo medo, orgulho e ressentimento. Como as emoções moldam o senso de pertencimento político hoje em dia, e como os líderes transformam o apego emocional em lealdade duradoura?
MABEL BEREZIN
As emoções sempre foram centrais na política. Qualquer líder eficaz — de esquerda ou de direita — sabe como lidar com elas. Mas as emoções nunca operam sozinhas. As pessoas reagem ao que sentem e ao que acreditam poder ganhar materialmente.
A lealdade política duradoura surge quando o afeto se funde com o que eu chamo de “resultados concretos”: ganhos econômicos, vitórias simbólicas ou a sensação de que um líder preenche uma lacuna. Quando as emoções e as expectativas materiais convergem, o vínculo político torna-se permanente.
DM
Você argumentou que a política emocional por si só não explica a persistência da direita nos dias de hoje. As emoções ou as condições materiais são mais decisivas — e como os líderes contemporâneos combinam as duas?
MB
São inseparáveis. A mobilização emocional é importante, mas sem uma base material, perde a sua força. Em muitos países onde a direita neoautoritária ascendeu, os líderes combinam narrativas carregadas de emoção com gestos simbólicos ou concretos que abordam questões materiais.
O medo e o ressentimento só adquirem poder político quando estão ligados a experiências vividas de insegurança, desigualdade e expectativas não atendidas.
DM
Gostaria de perguntar sobre uma ferramenta na qual muitos desses líderes se apoiam: a divisão. Por que a polarização se tornou uma estratégia política tão eficaz na era neoliberal?
MB
Porque a polarização simplifica um mundo que se tornou estruturalmente instável devido ao neoliberalismo. À medida que as instituições enfraquecem e as pessoas perdem a segurança econômica, as narrativas binárias oferecem clareza e direção.
Em contextos autoritários competitivos, a polarização também ajuda a consolidar o poder: ela apresenta o líder como o protetor indispensável contra os “outros” hostis.
Identitários político-teológicos
DM
Uma vez que a polarização se instala, sua linguagem é moldada por slogans — simples, ambíguos e carregados de emoção. Por que slogans políticos vagos mobilizam as pessoas com tanta eficácia hoje em dia?
MB
O poder deles reside em seu vazio. Slogans vagos permitem que as pessoas projetem neles seus próprios medos e desejos. Isso também era verdade nas décadas de 1920 e 1930 — a propaganda autoritária usava a ambiguidade para estimular o imaginário coletivo.
Sob a precariedade neoliberal, promessas vagas tornam-se ainda mais potentes, pois conseguem absorver as ansiedades de sociedades fragmentadas.
A mobilização emocional é importante, mas sem uma base material, perde a sua força.
DM
Vamos falar sobre as figuras que proferem esses slogans: líderes que se apresentam quase como receptáculos de significado. Quando líderes dizem “Eu sou você” ou “Eu falo por você”, estão construindo uma nova identidade político-teológica?
MB
Em certo sentido, sim. Essa retórica faz com que líderes se transformem, passando de atores comuns a figuras quase teológicas. Eles se tornam símbolos em vez de indivíduos com programas políticos.
Isso funciona com maior eficácia em sociedades já marcadas por fragmentação, tensão cultural ou decadência institucional. Onde encontra ressonância, cria uma sensação de absolutismo emocional em torno do líder.
DM
Essas dinâmicas emocionais parecem globais em parte porque as condições econômicas subjacentes também o são. De que forma a reestruturação neoliberal e a erosão dos Estados de bem-estar social alimentaram a ascensão dos movimentos populistas autoritários contemporâneos?
MB
A partir da década de 1990, a erosão das proteções sociais enfraqueceu o vínculo entre os cidadãos e o Estado. A estabilidade no emprego entrou em colapso, as garantias públicas diminuíram e a previsibilidade a longo prazo desapareceu.
Minha pesquisa comparativa mostrou que a reestruturação neoliberal produziu respostas emocionais — medo, frustração, desilusão — que foram exploradas por movimentos autoritários-populistas. A crise econômica criou a base material; a crise emocional criou a oportunidade política.
A fúria dos abandonados
DM
Há um longo debate sobre se a direita atual é impulsionada principalmente pela identidade cultural ou pelo declínio econômico. A nova direita se baseia primordialmente em políticas identitárias — ou a insegurança econômica ainda é a força motriz por trás dela?
MB
A identidade importa, mas a insegurança econômica é o pano de fundo estrutural. Sem ela, os apelos identitários perdem força política. Quando os problemas estruturais permanecem sem solução, as pessoas tornam-se mais receptivas às promessas de atores neoautoritários ou autoritários competitivos.
DM
Uma emoção persiste em diferentes sociedades: a sensação de abandono. Por que o sentimento de que “o Estado não nos protege mais” se tornou tão decisivo politicamente?
MB
Porque captura a essência da era neoliberal. Nos Estados Unidos, na Europa e em outros lugares, as pessoas se sentem abandonadas por instituições que antes garantiam estabilidade.
Esse sentimento tem raízes em condições reais: mercados de trabalho precários, serviços públicos em declínio, proteções sociais enfraquecidas e instituições sobrecarregadas. Quando as pessoas se sentem desprotegidas, a política autoritária torna-se atraente.
DM
Você afirma que as emoções são necessárias, mas não suficientes na política. O que distingue os líderes autoritários na forma como mobilizam as emoções?
MB
Sua disposição para ultrapassar limites. Líderes autoritários exploram as emoções de forma agressiva, muitas vezes rejeitando completamente as normas retóricas ou institucionais. Esse estilo transgressor atrai a atenção e intensifica a mobilização.
Mas as condições materiais importam. A manipulação emocional ganha força porque a crise econômica cria um terreno fértil.
DM
Finalmente, depois de todas essas camadas — emoção, economia, polarização, identidade, liderança — qual estrutura analítica nos ajuda a compreender a política contemporânea?
MB
Uma perspectiva multidimensional. Para entender o cenário atual, precisamos examinar como as emoções são politizadas, como as economias neoliberais geram insegurança, como as formações autoritárias-populistas preenchem o vácuo resultante e como as crises estruturais remodelam as identidades políticas.
Explicações puramente emocionais ou puramente econômicas não são suficientes. As emoções só se tornam politicamente decisivas quando estão enraizadas na erosão material, no colapso da capacidade estatal e na fragmentação social produzida pelo neoliberalismo.
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