
Com figuras como José Martí e Fidel Castro, o Papa Francisco compartilha sua condição de visionário, comprometido com o exercício da utilidade da virtude na luta pelo melhoramento humano e pelo equilíbrio do mundo.
Guillermo Castro H. / Diálogos do Sul Global / Alto Boquete, às Tradução: Ana Corbisier
“A esperança é audaz, sabe olhar para além da comodidade pessoal, das pequenas seguranças e compensações que estreitam o horizonte, para abrir-se a grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança.
Francisco, Fratelli Tutti, 55“
Jorge Mario Bergoglio nasceu no bairro de Flores, em Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, e faleceu no Vaticano em 21 de abril de 2025, aos 88 anos de idade, após ter sido eleito papa em 13 de março de 2013 e adotado, como pontífice, o nome de Francisco. Há poucos dias completou-se, assim, um ano de sua ausência, e começa a tomar forma a avaliação de seu legado, no qual o teológico e o político se entrelaçam estreitamente, como expressa sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, de 2013, talvez o mais juvenil de seus textos de plena maturidade [1].
Sua obra maior inclui, entre outras publicações, as encíclicas Laudato Si’, Sobre o Cuidado da Casa Comum, de 2015, dedicada à crise socioambiental [2], e Fratelli Tutti, Sobre a Fraternidade e a Amizade Social, de 2020, dedicada à crise sociocultural e política de nosso tempo [3]. A primeira teve singular êxito editorial, pela novidade de a Igreja assumir um papel de liderança na formulação da crise socioambiental em um momento de especial intensidade, quando as negociações internacionais em torno da mudança climática pareciam oferecer a possibilidade de um acordo à altura da complexidade e das responsabilidades do problema — possibilidade que posteriormente se frustrou.
Aqui, o essencial ficou expresso no parágrafo 139 de Laudato Si’, que passou a sintetizar o fundamental do ambientalismo comprometido com a mudança social, particularmente em nossa América. Ali se afirma que:
“Quando se fala de “meio ambiente”, indica-se particularmente uma relação, aquela que existe entre a natureza e a sociedade que a habita. Isso nos impede de entender a natureza como algo separado de nós ou como um mero cenário de nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e estamos interpenetrados. As razões pelas quais um lugar se contamina exigem uma análise do funcionamento da sociedade, de sua economia, de seu comportamento, de suas formas de compreender a realidade. Dada a magnitude das mudanças, já não é possível encontrar uma resposta específica e independente para cada parte do problema. É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental. As linhas de solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.
Francisco, Laudato” Si’
A partir de raciocínios como esse, pode-se afirmar que, se desejamos um ambiente diferente, devemos contribuir para a criação de uma sociedade distinta: próspera, equitativa, sustentável e democrática. Nessa perspectiva, a dimensão social do que foi proposto em Laudato Si’ encontraria expressão cultural e política, cinco anos depois, em Fratelli Tutti, em uma circunstância histórica que já anunciava o drama humano de nosso tempo, visível nos conflitos em curso na Ucrânia, no Oriente Médio e na África Subsaariana, bem como no aumento das tensões sociais — em torno de questões como a imigração e a ascensão dos neofascismos do século 21 no mundo do Atlântico Norte e em seus correspondentes no Sul Global.
Em 2020, de fato, o processo de globalização iniciado no final do século 20 havia avançado na criação de novas estruturas de relacionamento no sistema mundial, nas quais tendiam a se combinar as demandas de extrema liberdade no plano econômico com crescentes tendências ao confronto no plano político. A esse respeito, Francisco detalhou em Fratelli Tutti advertências que já havia formulado sete anos antes em Evangelii Gaudium. “Abrir-se ao mundo”, disse,
“é uma expressão que hoje foi cooptada pela economia e pelas finanças. Refere-se exclusivamente à abertura aos interesses estrangeiros ou à liberdade dos poderes econômicos de investir sem restrições em todos os países. Os conflitos sociais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Essa cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque a sociedade cada vez mais globalizada nos torna mais próximos, porém não mais irmãos. Estamos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que faz prevalecer os interesses individuais e enfraquece a dimensão comunitária da existência. Há sobretudo mercados, onde as pessoas desempenham papéis de consumidores ou espectadores. O avanço desse globalismo favorece, em geral, a identidade dos mais fortes, que se protegem a si mesmos, mas tende a diluir as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desse modo, a política se torna cada vez mais frágil diante dos poderes econômicos transnacionais, que aplicam o “dividir para reinar”.
Francisco, Fratelli Tutti”
Fratelli Tutti examina em detalhe os grandes males do momento histórico em que vivemos, desde a iniquidade no acesso aos bens criados pelo trabalho de todos em sociedade até a negação de direitos a minorias e migrantes, o esvaziamento de conteúdos na comunicação e na cultura e o crescente recurso à força nas relações internacionais. Ao mesmo tempo, faz isso sobretudo na perspectiva de uma nova construção das relações humanas, baseada na fraternidade e na amizade social. A primeira, distinta da irmandade fundada em vínculos de família ou de interesses comuns, refere-se à nossa capacidade de nos reconhecermos como próximos dos demais seres humanos, em particular daqueles sujeitos à necessidade, a partir de uma leitura original da parábola do bom samaritano. A amizade social, por sua vez, refere-se especialmente às nossas capacidades para a vida em comunidades de pequena e grande escala, que compartilham valores e relações solidárias. Ambas, caberia acrescentar, são vistas como capacidades para enfrentar e transcender os males da dimensão obscura de uma globalização hoje carente de um rumo comum, recorrendo às virtudes da solidariedade para pensar e gestar um mundo aberto.
Essa visão, por outro lado, é apresentada a partir de uma perspectiva ecumênica, em diálogo não apenas com a cristandade, mas com todas as grandes religiões do mundo. Assim, no que diz respeito ao islã, Francisco refere-se em detalhe ao seu diálogo com o Grande Imã Ahmed Al-Tayyeb, no qual, “ampliando o olhar, recordamos que ‘a relação entre o Ocidente e o Oriente’”
“é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser substituída nem negligenciada, de modo que ambos possam enriquecer-se mutuamente por meio do intercâmbio e do diálogo entre as culturas. O Ocidente poderia encontrar na civilização do Oriente os remédios para algumas de suas enfermidades espirituais e religiosas causadas pela dominação do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente muitos elementos que podem ajudá-lo a salvar-se da fraqueza, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e históricas, que são um componente essencial na formação da personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso de políticas de dois pesos e duas medidas.
Francisco, Fratelli Tutti”
Nesse espírito, Fratelli Tutti chega ao seu capítulo oitavo e final, intitulado justamente “As religiões a serviço da fraternidade no mundo”. Ali disse Francisco, em nome da “fraternidade humana que abraça todos os homens, os une e os torna iguais”, dessa “fraternidade ferida pelas políticas de integrismo e divisão e pelos sistemas de lucro insaciável e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens”:
“Em nome da liberdade que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e distinguindo-os com ela. Em nome da justiça e da misericórdia, fundamentos da prosperidade e pilares da fé. Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em cada rincão da Terra. Em nome de Deus e de tudo isso […] “assumimos” a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento recíproco como método e critério.
Francisco, Fratelli Tutti”
Ele está conosco, sem dúvida. Compartilha com outros, como José Martí e Fidel Castro, sua condição de visionário comprometido com o exercício da utilidade da virtude na luta pelo melhoramento humano e pelo equilíbrio do mundo. Foi, em vida, um dos nossos: nossa América está nele, assim como ele está conosco.
Alto Boquete, Panamá, 23 de abril de 2026
[1] https://www.vatican.va/content/francesco/es/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione- ap_20131124_evangelii-gaudium.html
[2] https://www.vatican.va/content/francesco/es/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
[3] https://www.vatican.va/content/francesco/es/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html
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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Guillermo Castro H.Guillermo Castro Herrera é colaborador da Diálogos do Sul Global, Castro é uma voz comprometida com as lutas decoloniais, a justiça ambiental e a reconstrução da América Latina desde uma perspectiva anticapitalista. Nascido no Panamá em 1950, é vice-presidente de Pesquisa e Formação da Fundación Ciudad del Saber, e autor de obras como El Agua entre los Mares e Naturaleza y sociedad en la historia de América Latina.
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Papa Francisco falava no descarte. A civilização do descarte. Não sei se são exatas estas palavras. Mas o descarte é. Até que ponto o legado de Francisco continua a nos tocar? Até que ponto nós, pessoas da terceira idade, continuamos de fato sendo parte da sociedade? Acabo de assistir a um filme argentino, “Parque Lezama,” na Netflix. Um pouco é isto. Não toleram os velhos. Tentam nos descartar de todo jeito. Mas ainda estamos aqui. Da minha parte, não só não estou de saída, mas na verdade estou chegando. Machado de Assis falava, não sei se nas “Memórias póstumas de Brás Cubas,” na vida como um processo no qual vamos por assim dizer, completando etapas, edições. A edição final é a atual. A síntese e florescimento do viver como um todo. Sinto-me à vontade de deixar vir o que sinto e o que penso. Afinal, esta revista têm um formato de diário. Um espaço de conversa. O que creio ter aprendido sobre tudo neste já longo trajeto que me trouxe até aqui, é que não há palavras finais. E nem final há, no fim das contas. Continuidade, sim, isto é o que tenho visto que existe. Prosseguimos algo que começou antes da nossa nascença, e que fomos modelando ao longo do tempo. O tempo poderia parecer que também foi descartado, neste tempo de não termos tempo para nada. Tudo é pra já. Pra ontem ou anteontem. Será? O sol já vem. O dia vem aí. Tempo para viver, é o tempo que há. Ou devemos fazer esse tempo? Eu creio que enquanto estamos vivos(as) temos essa possibilidade. A de fazermos a vida valer a pena. Que cada dia, cada hora, cada instante conte. É isto.