
Jornalista e escritor foi um dos mais proeminentes líderes do movimento abolicionista no Brasil.
Estevam Silva – São Paulo / Opera Mundi – Pensar a História, 9 de outubro de 2025, às 15:24
Há 172 anos, em 9 de outubro de 1853, nascia o jornalista e escritor José do Patrocínio, um dos mais proeminentes líderes do movimento abolicionista no Brasil.
Filho de um padre com uma jovem negra escravizada, Patrocínio conseguiu superar as terríveis barreiras raciais do Brasil Império e se consagrou como um dos maiores jornalistas do século 19.
Fundador da Associação Central Emancipadora e da Confederação Abolicionista, ele foi um dos grandes comandantes da luta contra o regime escravocrata, organizando campanhas e passeatas em prol da emancipação, coletando fundos para a compra de alforrias e ajudando a organizar a fuga de escravizados — ações que lhe valeram o epíteto de “Tigre da Abolição”.
O jornalista também exerceu o cargo de vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras e foi responsável por redigir e anunciar publicamente a moção que oficializou a Proclamação da República.
Juventude e formação
José Carlos do Patrocínio nasceu em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Ele era filho do cônego João Carlos Monteiro, o vigário da cidade, e de Justina do Espírito Santo, uma jovem escravizada de origem Mina.
Embora fosse um sacerdote, seu pai era conhecido pela vida desregrada, repleta de vícios e aventuras. Era também um homem poderoso, proprietário de terras e deputado na Assembleia Legislativa Provincial. Justina era uma de muitas escravizadas que viviam nas terras do padre. Ela foi cedida como um presente de Emerenciana Ribeiro do Espírito Santo, uma das fiéis da paróquia.
O vigário não reconheceu Patrocínio como seu filho, mas permitiu que o menino crescesse como liberto em sua fazenda na Lagoa de Cima. Patrocínio passou sua infância em meio aos escravizados, testemunhando os maus-tratos e a exploração inclemente a que eram submetidos.
Em 1868, Patrocínio, então com 14 anos, obteve a permissão do pai para deixar a fazenda e ir para o Rio de Janeiro, em busca de oportunidades. Na capital do Império, trabalhou como servente na Santa Casa de Misericórdia. Depois, tornou-se aprendiz de farmácia na Casa de Saúde do Bom Jesus do Calvário, do doutor Batista dos Santos.
Determinado a buscar uma carreira na área da saúde, Patrocínio se matriculou no Externato João Pedro de Aquino. Em 1871, ele foi aprovado no curso de farmácia da Faculdade de Medicina. Para se manter durante a graduação, Patrocínio dava aulas particulares. Também contava com o auxílio de uma sociedade beneficente e de seu amigo Sebastião Catão Calado.
Patrocínio enfrentou dificuldades financeiras após sua graduação em 1874. Sem ter onde morar, foi socorrido por um colega da época do externato, que lhe ofereceu abrigo na casa do capitão Emiliano Rosa Sena, no bairro de São Cristóvão.
Foi nesse período que Patrocínio se envolveu afetivamente com Maria Henriqueta, dita “Bibi”, uma das filhas do militar. O relacionamento, a princípio, incomodou o capitão, mas foi posteriormente aceito. Patrocínio e Bibi se casaram em 1879 e tiveram cinco filhos.
Carreira jornalística e literária
Durante a estadia na casa do capitão Sena, Patrocínio frequentou as atividades do “Clube Republicano”, que funcionava na mesma residência. A experiência possibilitou que ele tivesse contato com nomes como Quintino Bocaiuva, Lopes Trovão e Pardal Mallet e influenciou a decisão de buscar uma nova ocupação no jornalismo.
Em 1875, em parceria com Dermeval da Fonseca, Patrocínio lançou o quinzenário “Os Ferrões”, um panfleto com observações satíricas sobre os acontecimentos políticos do Império. Dois anos depois, em 1877, tornou-se redator da “Gazeta de Notícias”, assinando a coluna “Semana Parlamentar”, também dedicada a análises políticas.
Patrocínio estreou sua carreira literária nesse mesmo ano, lançando o romance “Motta Coqueiro ou a Pena de Morte”. A obra reconta de forma ficcional a história do fazendeiro Manuel da Motta Coqueiro, condenado à morte por um crime que não cometeu. Além de criticar as falhas do sistema judiciário e a crueldade da pena de morte, o romance também denunciava a brutalidade do sistema escravocrata.
Seu segundo romance, intitulado “Os Retirantes”, foi lançado em 1879. A obra é baseada nas reportagens jornalísticas que próprio autor escreveu durante uma viagem ao Ceará, a fim de investigar o flagelo da seca e acompanhar as medidas tomadas pelas autoridades. O romance é considerado o texto fundador da “literatura da seca”, influenciando trabalhos posteriores de Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos.
Patrocínio escreveu ainda um terceiro romance chamado “Pedro Espanhol”, publicado em 1884. O livro apresenta a história de um assassino que foge de Portugal e imigra para o Brasil acompanhando a família real. No novo país, ele passa a liderar uma quadrilha de bandoleiros — evocando alegoricamente a violência da herança colonial e seu impacto na formação do Brasil.
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