A Lista

lista-final
Por volta de oito horas da manhã, empurrando o seu carrinho de mão, nosso herói ia chegando para mais um dia de trabalho. Amiúde, vinha vestido todo de branco, desde os sapatos até a camisa polo, ambos surrados pelo excesso de uso. Apesar da aparência envelhecida, tanto das roupas quanto da pele, ele sustentava na barba escanhoada e no perfume de colônia alguns traços de vaidade.
A cada esquina que ia passando, da Lapa até o destino final, acenava em resposta a cada um dos que insistiam em debochar do seu perfil:
– Pai de santo a esta hora da manhã? É macumba boa hein! – dizia Baiano, o vigia da esquina da Correia Dutra.
-É amigo, todo cuidado é pouco. Não se esqueça de que parado nessa esquina, o sujeito fica vulnerável. Já fiz muito trabalho aí – respondia em tom malandreado e sarcástico.
De segunda à sábado, por volta de 8 horas, Edinho, o nosso herói, estacionava seu carrinho de mão bem em frente ao 214, ali na rua do Catete. Abria uma mesa dessas de encaixe, posicionava alguns bancos capengas no entorno e, bem ao centro, posicionava uma cadeira alta e acolchoada, dessas de escritório. Em seguida, estendia sobre a mesa uma toalha florida desbotada, mas com a aparência de limpa. Depois do ritual diário de arrumação, sentava-se na melhor das cadeiras, onde passava quase que o dia inteiro aferindo a pressão dos transeuntes, recebendo amigos e conhecidos da região.
A manhã ia avançando e lá pelas 10 horas começavam a chegar os companheiros de sempre. Iam tomando os bancos, se acomodando no local e iniciando aquele velho e bom bate papo, típico dos tempos em que ninguém tinha celular. Entre uma conversa e outra, nosso herói lembrava-se do almoço. Por mais que o bate-papo amenizasse as durezas da vida, era preciso atender para comer.
– Minha senhora, para não ter sustos e imprevistos pela frente é importante verificar a pressão. Vamos lá? Cinco reais para manter a tranquilidade – era Edinho alertando os mais velhos e vendendo seu pão de cada dia.
– 12.1. A diastólica está alta, minha senhora. Procure repousar e tomar bastante água de coco. – recomendava em tom de seriedade.
Os que passavam algum tempo ao lado do nosso herói podiam perceber que os números da aferição e as recomendações eram quase sempre as mesmas. A diastólica alta, a pressão sempre na casa dos 12, o repouso e a água de coco eram repertório quase certo em cada atendimento.
A grande verdade é que o aparelho medidor estava velho e, como nosso herói andava apertado, a solução era defender o patrimônio e continuar a trabalhar. Já a água de coco e o repouso, segundo ele, são recomendações infalíveis, que não fazem mal a ninguém.
– Nestor, essa máquina aqui é importada lá do estrangeiro, coisa da melhor qualidade. Não me venha com essa de que o aparelho tá velho. O que eu posso fazer se esse povo não se cuida? A diastólica sobe mesmo. – ia justificando-se ao perceber que o amigo Nestor iniciaria, mais uma vez, o deboche pelos repetidos diagnósticos.
– Sei, sei. Importado lá do Pedro Ernesto né? – era Nestor fazendo escárnio com a possível origem do aparelho.
Destaca-se aqui que o nosso herói tinha um carinho especial pelos loucos. Era impossível passar alguma hora do dia sem que ao seu lado não tivesse alguém com passagem pelo Pinel. Mas, e daí? Segundo ele, nada melhor que um louco para esquecer-se do insano mundo real.
De tempos para cá, nosso herói lançara um grande desafio para o grupo de amigos: listar, em ordem cronológica, os conhecidos que iriam morrer.
– Rodrigão, apesar da trajetória esportiva, anda se excedendo com a cana. Podemos colocá-lo entre os cinco, o que acham? – iniciava as análises – E o Lacerda hein? Acho que vai enterrar todo mundo aqui. Maluco dos bons é aquele que não dá a mínima para a sua condição e ainda pensa que está bem para burro. Vamos botá-lo lá no final. – eram as justificativas que ele arrumava para encaixar um a um nas posições de partida.
E assim, durante um grande período do dia, discutiam, argumentavam e colocavam em ordem, a lista dos que o homem da capa preta levaria.
Há de se destacar que nem todo mundo gostava de ser citado. Lino, com oitenta anos, era um deles. Assim que o assunto começava, com as mãos trémulas de quem tem Parckson, fazia três vezes o sinal da cruz. Era uma forma de pedir proteção ao divino e quem sabe uma prorrogação no tempo de permanência:
– Para com isso Edinho, esse negócio de lista quem faz é Deus. Só ele sabe minha hora. E, querendo ou não, eu me cuido e sou um homem de bem. – dizia Lino, amedrontado com a brincadeira e de certa forma fazendo uma autopromoção para o divino.
– Pode deixar Lino. Não falo mais sobre a lista com você. Mas cá para nós, tu não achas que vai ficar fora dos 10 primeiros né? – era Edinho provocando, seguido de uma grande gargalhada.
Naqueles encontros diários, ocorriam as refeições coletivas. Cada um trazia o que podia. Uns só levavam a fome, como era o caso de Lacerda, que mesmo vivendo miseravelmente, acreditava que aquela situação era resultado de uma vida cheia de mulheres.
– Gastei tudo com elas meu filho! Dei muitos presentinhos para cada uma. Mas a minha luta não é essa, a minha luta é para combater o sujeito que mora em bairro de rico e reclama da vida! – era Lacerda, acometido pela esquizofrenia, vociferando para o além e misturando os temas.
E assim, foram anos e anos de encontros, bate papos, listas e tudo o que há direito.
O que ninguém contava era com a intervenção de algumas autoridades locais. Inflados de autoritarismo e bravata, alegaram que a permissão do nosso herói estava vencida.
No dia da truculenta intervenção, os homens de farda e cassetete levaram todos os pertences de Edinho. Não houve resistência. O nosso herói simplesmente desabou, sentado sobre a única cadeira que lhe restou e, cabisbaixo, chorou silenciosamente. Provável que, naquele momento de impotência, tenha passado um filme em sua cabeça. Eram quase vinte anos de trabalho na região e, apesar da renda miserável, era aquilo que o fazia sobreviver.
Lutou-se muito para conseguir a tal da autorização. Os mais influentes tentaram contato com assessores parlamentares, delegados, advogados, inclusive um pai de santo. Qualquer um que pudesse resolver a situação.
Até que Nestor, depois de muito tentar, conseguiu a autorização com um vereador, conhecido da região. Entusiasmado com a novidade, correu para o Catete a fim de informar, não somente o nosso herói, mas toda a velha guarda que sofria angustiada sem aquele ponto de referência.
Tarde demais. Nosso herói, sem dinheiro e deprimido com a situação, teve um pico de pressão fatal. Partira na manhã do dia 12/1, sendo, sem prever e sem querer, o primeiro da lista.
Foto(*): blogdotrabalho.com

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