A Lei da Ficha Limpa, a hemorragia e os esparadrapos

Nunca apoiei a Lei da Ficha Limpa, pois detesto paliativos e, mais ainda, simulacros de soluções.

Vivemos sob o sistema capitalista, cujo primeiro e único mandamento é enriquecei!.

Sem complemento nenhum. É só enriquecei!, mesmo.

Pouco importa se por meios éticos, amorais ou imorais. Isto é irrelevante. O capitalismo a todos lança numa corrida de ratos atrás da riqueza, status e poder, pisando em quem atrapalhar a escalada.

Há ainda certas leis vetustas, anticapitalistas. Como aquela proibindo que se assassine o concorrente direto para tirá-lo do caminho.

Mas, quem enriqueceu geralmente consegue escapar das grades, seja com subornos bem colocados, seja recorrendo ao estoque infinito de medidas protelatórias que a Justiça lhes faculta e os luminares do Direito estão sempres prontos para sugerir.

Mais: só tolos não percebem que Executivo e Legislativo hoje pouco mais são do que Poderes decorativos, pois sua liberdade de ação acaba onde começa a imposição dos ditâmes do grande capital.

Bancos estão entre o que há de mais parasitário, pernicioso e predatório em nossa sociedade. O que aconteceria se Dilma Rousseff e os nobres parlamentares decidissem estatizar o sistema financeiro, confiscando o que foi arrancado do povo para devolvê-lo ao povo? Não durariam um dia nas suas funções.

Pois, mais do que qualquer cláusula pétrea da Constituição, prevalece o princípio de que nada será feito contra os interesses dos realmente poderosos. E revoguem-se  os que dispuserem em contrário, como revogaram Allende, João Goulart e tantos outros…

O Executivo nada mais faz do que gerenciar o País para os capitalistas. O Legislativo discute o sexo dos anjos e aprova aquilo que lhe compete aprovar, depois de concluídas as barganhas de praxe.

Se afastarmos os corruptos mais ostensivos, só conseguiremos fazer com que os demais sofistiquem o  modus operandi.

Eu era um novato na imprensa do Palácio dos Bandeirantes quando do Fora Collor!. Jamais esquecerei a avaliação de um colega que lá trabalhava há décadas:

“O único pecado do PC Farias foi desconhecer as práticas adotadas por seus iguais dos centros políticos importantes. Todos cometem os mesmíssimos delitos. Só que, em São Paulo, caixa 2 jamais emite cheques, paga tudo em dinheiro vivo, para não deixar digitais espalhadas por aí. O caipirão das Alagoas não sabia disto…”

Então, sempre que ouço falar em acabarmos com a corrupção sob o capitalismo, a imagem que me vem à mente é a de cidadãos a enxugar gelo para todo o sempre e esforçando-se se ao máximo para crerem que fazem algo útil…

Se quisermos estabelecer o primado da moralidade, teremos de dar um fim ao sistema econômico fundado no enriquecei! e instaurar outro em que o valor supremo seja o bem comum, com cada indivíduo dando sua melhor contribuição para a felicidade de todos.

O resto são fúteis tentativas de estancar hemorragia com esparadrapos.

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