A guerra contra o Irã: uma leitura em múltiplas escalas

Crédito: محمد برنو/Wikimedia

A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã recoloca o Oriente Médio no centro das tensões internacionais e revela, mais uma vez, a fragilidade da ordem global contemporânea. Longe de ser apenas um episódio isolado, o conflito expõe disputas geopolíticas mais amplas, nas quais se entrelaçam crises internas dos Estados, rearranjos regionais e transformações na hierarquia de poder do sistema internacional

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, cuja etapa mais recente foi iniciada em 28 de fevereiro de 2026, é mais um sintoma da conjuntura crítica que vivemos em escala global, caracterizada por rápidas mudanças e múltiplas variáveis. Neste texto, resultante de um diálogo iniciado com um evento on-line promovido pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, partimos de uma análise dos lugares, buscando entender a tomada de decisão, para depois passar para as escalas mesorregional e global. Antes de iniciar, contudo, é necessário fazer a ressalva de que em toda guerra há uma névoa que dificulta a análise, especialmente uma com informações que chegam o tempo todo, mas são pouco confiáveis. De fato, o campo comunicacional é outra frente de batalha.

A escala dos lugares: singularidades nacionais e materialização do conflito

O início do conflito e seu desenrolar pode ser entendido como resultante de uma sequência de decisões que partem do Estado de Israel, dos Estados Unidos e do Irã. As decisões tomadas em Washington não podem ser dissociadas das contradições internas que se agravam nos Estados Unidos. De fato, a política de defesa atual foi permeada por tensões internas desde as propostas iniciais. Há uma retórica militarista, apoiada pelo complexo industrial-militar e que se concretiza em aumento dos gastos militares, na nomeação do “Departamento de Guerra” e na pressão para que os aliados gastem mais com defesa. Por outro lado, parte da base de apoio social que sustenta Trump critica veementemente ações militares prolongadas, vistas como fonte de custos para os Estados Unidos. Para parte dessa base de apoio“Tornar a América Grande Novamente significa uma atenção ao âmbito interno e menos recursos para guerras e intervenções supostamente humanitárias.

Essas tensões internas foram inicialmente geridas a partir da fórmula “Paz pela força”, que expressa uma concepção do poder fundada na dimensão militar, em uma crítica à “ordem baseada em regras” e à universalidade da democracia e dos direitos humanos. Passa também por uma crença de que a vontade dos Estados Unidos poderia ser imposta com operações militares pontuais. Além das tensões internas ao trumpismo, outro fator que explica a tomada de decisão são as mobilizações internas e a necessidade das lideranças do Partido Republicano em encontrar fatores de união nacional – cenário ainda mais relevante em razão da proximidade das eleições de meio de mandato.

No Irã, a escala local é marcada por uma teocracia xiita que luta por sua sobrevivência. Este regime ainda mantém coesão interna do ponto de vista das elites políticas e militares, ainda que enfrente resistência popular e tenha que lidar com a pluralidade étnica e religiosa. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, uma série de protestos tomou conta do país, refletindo demandas genuínas da população iraniana, situação que foi instrumentalizada pelos Estados Unidos e Israel em uma tentativa frustrada de desestabilização do regime.

A continuidade da coesão interna explica a resposta iraniana. De acordo com relatos, no dia 28 de fevereiro, o bombardeio inicial ocorreu majoritariamente desde fora do território iraniano e a resposta persa começou rapidamente depois, com ataques a bases militares dos Estados Unidos na região do Golfo. A capacidade de resposta inicial iraniana se explica por uma descentralização da cadeia de comando da defesa, com uma estratégia de defesa em mosaico que atribui autonomia a nível operacional e foi pensada exatamente para um cenário de assassinato das lideranças centrais. Essa capacidade de resposta mantida depois da decapitação do regime parece ter pegado os Estados Unidos e Israel de surpresa.

A reação do Irã – que mostrou, ao menos neste início, capacidade e vontade para reagir – pode gerar uma guerra prolongada, que levaria a novos dilemas para os Estados Unidos, seja em razão do custo político de perda de vidas americanas ou da falta de material bélico suficiente para sustentar esta guerra. Os Estados Unidos possuem armamentos de alto custo e tecnologia agregada – em uma situação de barroquização – mas que não servem para guerras de atrito, assimétricas e econômicas.

A escala mesorregional: ordens regionais em disputa

A escala mesorregional pode ser pensada a partir das duas ordens regionais em disputa no Oriente Médio. A primeira, promovida por Estados Unidos e Israel pode ser compreendida como uma ordem baseada na instabilidade. Esta ordem em construção remonta aos Acordos de Abraão, assinados em 2020 e mediados por Trump em seu primeiro mandato, envolvendo inicialmente Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, agregando depois Marrocos e Sudão. Essas articulações entendem o Irã como ameaça central e há uma tentativa de expansão e consolidação da articulação, inclusive com a intenção de trazer a Arábia Saudita para os acordos.

A outra ordem em construção reflete a perspectiva das monarquias árabes do Golfo, em especial Arábia Saudita, Catar e Omã. Estes regimes têm sido cada vez mais cautelosos e tentado repensar os custos da manutenção de bases dos Estados Unidos. Não no sentido de se afastar dos americanos, mas de diversificar suas parcerias – movimento visto na aproximação dos países do Golfo com Rússia e China – e de repensar a constatação de que o Irã é a fonte de desestabilização regional. Em março de 2023, por exemplo, Arábia Saudita e Irã, antes grandes inimigos, normalizaram suas relações, com mediação chinesa.

Os custos dessa aliança das monarquias árabes do Golfo com o Ocidente ficaram patentes na Guerra dos Doze Dias e no ataque que Israel fez ao Catar em setembro de 2025. Para além da dimensão militar, cabe ressaltar a importância crescente do comércio com a China para estes países. O Irã aproveitou este momento para mostrar os custos dessa expansão imperialista de Estados Unidos e Israel. Isso explica os alvos dos principais bombardeios iranianos: embaixadas e bases militares americanas no Oriente Médio.

De forma geral, o ataque ao Irã e a tentativa de mudança de regime significam a manutenção de um estado de guerra permanente no Oriente Médio, de instabilidade e caos, que interessa a Israel e ao complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Assim, os ataques deixam claro que o centro de desestabilização da região não é o Irã, mas principalmente os Estados Unidos e Israel.  Ao mesmo tempo, a desestabilização é reproduzida também pelo Irã, que arma, treina e financia milícias como forma de resistência aos Estados Unidos e à Israel.

A escala global: crise da diplomacia e da hegemonia

Nesta escala, o conflito armado marca um ponto de inflexão de um sistema em crise. Os Estados Unidos são uma potência em declínio que, no entanto, tentam manter sua influência internacional. A guerra contra o Irã é como uma alavanca – pode gerar tendências para um lado ou para outro, agravando a decadência em prol da multipolaridade ou a estancando. Em termos materiais, a região importa porque reflete a possibilidade de controlar um centro de distribuição da energia em escala mundial.

A tendência de declínio dos EUA tem se expressado em intensificação do emprego da força militar. Embora a guerra contra o Irã seja o ápice desta estratégia até agora, também revela alguns dos seus limites. Mostra principalmente que o emprego da violência organizada é capaz de causar grande devastação, mas não é – necessariamente – suficiente para que os EUA consigam impor sua vontade. Neste cenário, consolida-se também o abandono da narrativa de promoção de democracia, base da justificativa da hegemonia americana.

Além disso, o conflito também aprofunda a crise do multilateralismo e da diplomacia. A guerra se iniciou em meio a uma negociação mediada pelo Omã. De acordo com o ministro de relações exteriores do Omã, Badr bin Hamad Al Busaidi, o acordo era iminente e atendia aos interesses de Washington porque incluía a possibilidade de visitas de inspetores americanos as instalações nucleares iranianas, além de renúncia do país persa às reservas de material nuclear.

Articulação entre escalas: do global aos locais

A leitura articulada das escalas global, mesorregional e local permite compreender a guerra contra o Irã não como um evento isolado ou conjuntural, mas como uma configuração histórica complexa, produzida pela sobreposição de dinâmicas estruturais e contingentes. Cada escala contém sua própria lógica, mas nenhuma é inteligível de forma autônoma. É justamente na interseção entre escalas que o conflito se materializa, se intensifica e se prolonga.

Na escala global, observa-se um processo de transição da ordem internacional, um longo processo de declínio dos Estados Unidos – que ainda pode ser contido. Nesta conjuntura crítica, o conflito do Irã pode ser um ponto de inflexão, em razão da possibilidade de controle de um centro de distribuição de energia.

Na escala mesorregional, o conflito reflete a existência de ordens regionais em disputa. A primeira, patrocinada pela aliança Estados Unidos-Israel, aposta na continuidade das guerras permanentes, no caos constante. A segunda, em construção por algumas monarquias do Golfo, propõe uma região com alguma autonomia, que gradualmente se afasta da dependência dos Estados Unidos e constrói relações com os outros centros de poder em ascensão.

Já na escala local, ou dos lugares, emergem as singularidades históricas, as disputas de poder internas, as consequências de um período eleitoral no qual tanto Netanyahu em Israel e Trump nos Estados Unidos precisam de uma vitória na cena internacional para contrarrestar o descontentamento social doméstico que ameaça sua posição política. Estes aspetos nacionais geram constrangimentos importantes para explicar tomadas de decisão. Também é nesta escala encontram-se motivações para explicar a aventura militarista.

Nesse quadro, um elemento tende a ser sistematicamente invisibilizado pelas análises centradas no poder: as populações civis que são as principais vítimas desses conflitos. São elas que sofrem os efeitos diretos das guerras, dos bloqueios econômicos, das sanções internacionais, das ocupações territoriais e da destruição de infraestruturas básicas. Paradoxalmente, são também aquelas que menos poder têm sobre as decisões estratégicas que produzem e perpetuam esses conflitos.

 

Davis Gruber Sansolo é coordenador-executivo do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI-Unesp), professor do Campus Litoral Paulista e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e no Caribe (TerritoriAL).

Héctor Luis Saint-Pierre é professor Titular em Segurança Internacional e Resolução de Conflitos da Unesp, vice-coordenador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI-Unesp). Fundador e líder do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) da UNESP.

Isabela Agostinelli é professora da Graduação em Relações Internacionais na FECAP. Pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP e do Instituto de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU). Doutora em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP).

Lívia Peres Milani é doutora em relações internacionais pelo programa de pós-graduação San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP) e pesquisadora no Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp.

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