A falta de pudor dos que têm sede de poder

Foto: latuffcartoons.wordexpress.com
 
Tempos atrás comecei um incessante estudo sobre a nossa imprensa. Tinha como objetivo conhecer um pouco mais a nossa história, analisar a visão distinta dos fatos e conhecer os profissionais de épocas anteriores. Como são muitos nomes e personagens marcantes, procurei dar ênfase nas fases politicamente mais turbulentas, que de certa forma se assemelham à atual. Somente esmiuçando o passado eu poderia começar a entender os motivos de tanto atraso na atualidade.
Por mais que a minha paixão tendesse ao Getulismo em sua fase democrática, fui imparcial nas buscas. Li ambos os lados, tantos os que se alinharam a Getúlio, quanto os que o combatiam (praticamente toda grande imprensa).
A bagagem, o lastro de conhecimento e a retórica dos protagonistas da época eram enormes. O que faziam dos debates, furos de reportagem, discursos e matérias terem qualidades exemplares, inflando a paixão dos leitores, eleitores. Paremos aí. Mesmo tomado pelo romantismo dos tempos que não vivi, a falta de pudor e caráter dos que faziam oposição a Getúlio brecou toda volúpia inicial. A falta de ética, a omissão de fatos fundamentais e, principalmente, o fato de jornalistas optaram por atirar contra a própria pátria, defendendo interesses escusos, marcaram negativamente toda a viagem ao passado.
Utilizando-se da alta capacidade de propagação de opiniões, tendo em vista o grande poder que detinham sobre os meios de comunicação, os opositores de Getúlio perfilavam entre jornais, revistas, rádios e tevê agressões infames e assustadoras. Apropriavam-se da moral, que na maioria das vezes não tinham, para defender coisas indefensáveis. E a triste conclusão é que o jogo sujo de ontem é exatamente o mesmo de hoje: fustiga-se a vida pessoal, apelando-se para episódios com a credibilidade vulnerável que ganham tom de verdade. O moralismo barato e seletivo já fazia moda desde então.
Samuel Wainer, getulista até o fim, em sua autobiografia, narra com sinceridade sua história, não se abstendo de suas vergonhas e erros. Teve seu ego inflado pelo sucesso. Aproveitou-se dele. Mas em todo momento, o que se via era uma incessante defesa de sua crença e paixão: era um nacionalista convicto.
Wainer resistiu a todos os tipos de ataque. O primeiro e mais vil era baseado na sua origem. Judeu, do Bom Retiro, tendo sua trajetória inicial longe da aristocracia brasileira, sofreu preconceitos e exclusões marcantes. Como o seu jornal, o Última Hora, era praticamente o único a fazer o contraponto à grande imprensa, Samuel Wainer teve de enfrentar toda oposição e sua torpe artilharia.
Lacerda, principal atacante, tentou a todo custo fechar o Última Hora. Logo após o suicídio de Vargas, Lacerda, mesmo não tendo cargo algum no governo Café Filho, operou pelo fechamento do jornal. Com a morte de Getúlio, exigia o fim do veículo, alegando que este representava tudo que haviam combatido. Não obteve êxito nesta empreitada, mas manteve outras tentativas nos meses seguintes.
Outra tentativa marcante foi feita através de um processo judicial que tinha mais uma vez o objetivo de fechar o Última Hora. Alegando que Wainer não tinha nascido no Brasil, tentaram cassar a todo custo a legitimidade do meio de comunicação. Wainer, mesmo em seu livro não revela onde nascera, mas os fatos e documentos mostram que se ele não nasceu no Brasil, aos dois anos de idade já se encontrava em território nacional.
Enquanto Lacerda não media esforços para chegar à presidência, Assis Chateabriand executava práticas imorais para aumentar o seu império jornalístico e poder diante dos governos. Tudo a serviço da vaidade pessoal, dinheiro e poder. E o mais engraçado era a alternância de posições. Se os louros a colher estivessem no lado nacionalista, empreendia campanhas favoráveis à causa. Caso os louros estivessem do lado oposto e fosse necessário abraçar os interesses estrangeiros, trocava de lado e despejava artilharia pesada contra os nacionalistas. Eram chantagens inacreditáveis. Valia tudo pelo poder.
Os anos se passaram, nos conduzindo aos anos de chumbo e de censura. O que para muitos era o início do fim, para outros era tempos de glória e crescimento. Foi neste período que a Globo ampliou brutalmente e solidificou seu império. Sem escrúpulos e sem bandeira, a linha a se seguir era simples e única: alinhava-se às grandes forças para defender interesses próprios.
Atualmente o jogo é bem parecido. Nos primeiros governos do PT, mantiveram uma relação amena. A Globo não deixava de arrecadar e o governo ainda não sentia o peso da mão golpista. E este talvez tenha sido o grande erro. Lula não aproveitou o auge da popularidade para impor à sociedade o debate sobre a democratização da mídia. Talvez por sentir imaturidade por parte da população ou apenas por receio de enfrentar um árduo embate com os barões da mídia, o que fatalmente traria desgastes. Como até então grandes projetos sociais e transformadores avançavam, optou-se pelo esquecimento. E hoje se paga um preço alto.
Agora que as coisas andam de mal a pior, o que até então não representava maiores perigos, tomou corpo e coragem. A grande mídia assumiu sua face golpista e vem depositando dia a dia ataques contra o governo com objetivo de acender as chamas do impeachment ou de anular Lula para o próximo pleito.
E, mais uma vez, um governo que até então dava sinais fortes de defender os interesses nacionais, sofre com a falta de aliados na imprensa e a potência dos inimigos. A defesa é feita quase que exclusivamente por blogs de mídia alternativa, que apesar da seriedade de seus profissionais, ainda não tem forças o suficiente para conter o avanço conservador e as armas impiedosas dos grandes. Mas mesmo assim, vem demonstrando coragem e sustância nos contragolpes, o que tem feito os poderosos apelarem à justiça.
Com as investigações feitas por blogs sobre a mansão da família Marinho em Paraty, construído em uma área de proteção ambiental e de supostas relações entre os Marinho e a Mossak Fonseca (empresa multinacional especialista em abrir off-shore), a Globo tenta censurar as mídias alternativas por meio de processos judiciais. E da mesma forma que Lacerda tentou calar o Última Hora, a Globo tenta censurar seus opositores.
E tudo dentro do contexto de um Brasil dividido, aonde o grande problema agora vai muito além das disputas políticas e ideológicas: coloca-se mais uma vez a democracia e a liberdade de imprensa em risco.
E fica o sentimento de que enquanto não debatermos com coragem e peito aberto mudanças estruturais reais a história irá se repetir. E como sempre, tendo como protagonista a vilania e a falta de pudor dos que têm sede de poder.
(*)Foto: latuffcartoons.wordexpress.com

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