A escrivaninha de seu Chico já recebeu alguns livros

Na primeira noite da escrivaninha em casa, já ganhou alguns livros. E este segundo escrito, que registra sua chegada com benevolência.

A escrivaninha de seu Chico já recebeu alguns livros. Após a sua primeira noite em casa, a superfície branca, em que se notam afundamentos de pregos, recebeu algumas superfícies impressas encadernando coisas como: Juventude, de Joseph Conrad, e o Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. Mas o primeiro foi a Bíblia, a tradução ecumênica que recebi do meu irmão e amigo Alder Julio. Afora o seu conteúdo, os livros são companhias. São lugares, também. Imagens. Companhias e lugares, Sentimentos. Jorge Luis Borges admirava Joseph Conrad, de quem vi um exemplar impresso, pela primeira vez, na casa do meu irmão Arturo: El corazón de las tinieblas. O livro da Brontë me lembra Mamina, que adorava escritoras. Virgínia Wolff (Um quarto próprio, O vestido novo) e Jane Eyre aguardam sua vez. Agora sei que lerei. Sei que poderei novamente, como antes, deitar os olhos sobre a superfície das folhas de um livro e viajar. Andar pelos lugares que Ray Bradbury descreve em Vinho de Estio, voltar ao Túmulo, na célebre narrativa de Howard Phillips Lovecraft, que me iniciara, na minha já longínqua infância, no mundo do tenebroso, do assombro, do inimaginável. Meu irmão Leonardo, que mora em Brasília, é um andarilho. Já foi para São Paulo e Brazópolis de carro. Viajar é como ler. Quem lê, viaja sem sair de casa. Viaja sem se drogar. Drogas, to fora. Já chega a televisão, que com seus inúmeros canais, raramente oferece algo apreciável para estes olhos que já atravessaram décadas. Hoje de madrugada, uma exceção. No canal da TV comunitária de Ponta do Seixas, um filme não sei chamado como, com cenas e ritmos, mulheres e vestidos, galãs e ambientes, como antigamente. “É preciso saber viver”, oiço uma voz no gramophone, e me vou. His master´s voice, dizia a gravura do cachorro a ouvir o som da voz que saia pela buzina nos discos da RCA Victor. Bons tempos. A vida. O filme parecia as lâminas de Seleções. Não podia acreditar. O meu reino é aqui. O sul é isto. Eu estou lá onde queria ir, onde sempre quis estar. Tu es Aquilo, dizem os hindus. Tat Tvam Asi. Por mais sublime que possa parecer o processo de conversão, não necessitas te converter nAquilo. Tu és Aquilo. Lembra, ó Alma, que és Deus. Sem querer fazer pregações, apenas queria lembrar disto, para mim mesmo. Estas folhas não tem outro destinatário. Se porventura forem parar diante dos teus olhos, deixa-as voar.

Um livro de Abbhaya Chaitanya (F.J.Alexander) veio a mim nestes dias. “Há horas em que te esqueces do mundo. Há horas em que o eu se introduz dentro da alma, e fica na presença do Altíssimo. Calam-se os clamores do desejo. Só Deus é. Ele apenas pede que te conheças um pouco. Conhece a ti mesmo. Na verdade, mora Deus dentro do teu coração”. Pois é. Não somos nada, como dizia Ramón, meu tio, autor de Antropologia de Síntesis. ¿Qué le pasa al boxitracio del mister? No somos nada, repetía. Somos todo. Si soy todo, ¿qué es lo que ando buscando? Soy el reino por el cual lucho. El reino de Dios es esto, soy yo, es lo que vivo. Eso es Zen. ¿Me explico? Es muy lindo.

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