A escrivaninha de seu Chico

Francisco Pires Fereira, trabalhador rural do interior paraibano, trabalhador por conta própria aposentado, e o autor deste texto, entrelaçam histórias. Marceneiro um, terapeuta comunitário e escritor o outro, a cessão de uma escrivaninha feita a mão pelo primeiro, deslancha novamente o processo criativo do segundo. Lá vai o texto:

Seu Chico cedeu-me uma escrivaninha que ele mesmo fez. Ele e dona Marieta carregaram o móvel até ajeitá-lo no portamalas do meu carro. Ele tem mais de 80 anos. Lavrador de Conceição, sertão paraibano, pai de Maria, minha mulher, portador de muitas histórias, cedeu-me a peça feita pelas suas próprias mãos, marceneiro, a mim, sociólogo e escritor, eras depois nascido, aqui, na frente do computador, às minhas costas, a escrivaninha de seu Chico me faz companhia.

Fazia tempos que não escrevia nada, mas hoje, depois de saber que o móvel feito a mão pelo meu sogro, viria me sevir para exercitar meu ofício, aqui estou, outra vez. Não é um caderno, não é uma caderneta, não são folhas de papel, mas são folhas de qualquer modo, algum tipo de folhas que poderás, passageiro do ônibus que esperas no ponto, saborear ao teu bel prazer ou, pelo contrário, deixá-las ir no vento. Isto me é indistinto, pois, saídas da pena do escritor, todas as folhas são do vento.

Seu Chico chegou em João Pessoa em 1979. Um dos seus primeiros trabalhos, quando morava na rua Riachuelo, foi de marceneiro. Até hoje, seu olhar se ilumina de alegria, ao contar dos seus primeiros passos na grande cidade, com Tizé, com quem pintavam casas no Bessa. Joselia, uma das suas filhas, mora no Bessa. Outra, Luzimar, o faz, com um sem número de pequenininhos, na casa da rua Riachuelo onde seu Chico começou a vida na cidade.

Luzimar trabalha de costureira nas horas vagas, como dona Marieta o fizera em Conceição, depois de saírem do sítio Maria Soares, onde Maria nasceu. Era um tempo de alegria, dos meninos ajudarem o pai, que fazia moldes para rapadura. Maria levava comida pros trabalhadores no sítio, trabalhava na colheita do algodão. Era um tempo de alegria. O pai de dona Marieta foi morto por causa da posse da terra. Maria não chegou a conhecê-lo. Hoje moram ambos, dona Marieta e seu Chico, na Cidade Verde, em Mangabeira, em frente de um cajuzal onde Romero, meu cunhado, e Mara, sua mulher, colhem frutas que partilham.

Matheus, filho de Mara, sorri no seu sorriso maroto. Marayara, sua irmã, é bem bonita, e ajuda a mãe nos afazeres domésticos. Gilvandro, o marido de Josélia, é construtor, como Arturo fora, só que de casas de menor padrão do que as que Arturo fizera com os planos de Gita. Somente com 20 anos, é que seu Chico foi usar sapatos. É católico fervoroso. Hoje, quando fui pegar a escrivaninha na sua casa, tinha um rosário enrolado encima de uma das cadeiras que hoje estão comigo.

Hoje carreguei terra para dentro de casa. Acompanhamos o casal ao banco, para receberem seus proventos de aposentadoria. Depois fomos para o supermercado, onde algumas compras foram feitas, como leite, bolachas, etc.

De tarde, compramos alguns móveis na rua da República, sabor a tempo. Maria reencontrou um buffet que virá para a sala da minha casa. Será uma casa de verdade.

E eu, com a escrivaninha de seu Chico às minhas costas, também serei (ou já ou) um escritor de verdade. Para não ser dito que não me prezo, que estou com baixa autoestima, ou coisas assim, direi apenas que, com escrivaninha em casa, sinto ser um escritor de verdade, com todas as letras.

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