A derrota jesuítica no litoral do Brasil

Após a Descoberta, houve aqueles que definiram os americanos como seres irracionais, próximos aos animais, que teriam que ser regidos por povos civilizados. Especialmente o tupinambá da costa brasílica possuiria os atributos do selvagem. Entre os detratores do americano destacava-se o colono escravista. Por Mário Maestri (*).

Após a Descoberta, houve aqueles que definiram os americanos como seres irracionais, próximos aos animais, que teriam que ser regidos por povos civilizados. Especialmente o tupinambá da costa brasílica possuiria os atributos do selvagem. Desconheceria a lei, o Estado, a religião. Viveria nu como as feras, em moradias de ocasião, alimentando-se rusticamente. Ignoraria a lei natural fornicando sem travas e cevando-se da carne humana. Sem alma, seria refratário à palavra divina. Na Antiguidade, Aristóteles apresentara o homem inferior como destinado pela natureza à escravidão. Entre os detratores do americano destacava-se o colono escravista.

O reconhecimento da selvageria do americano manteria a Igreja à margem da gestão mesmo espiritual das imensas populações do Novo Mundo. O papado impugnou a negação do americano como ser pleno. Para o unitarismo cristão todos os homens descendiam de Adão e Eva e eram capazes de participar da comunhão cristã através da conversão que os arrancaria da miséria espiritual e material. As Américas haviam sido encobertas pela Providência para que os ibéricos às descobrissem à verdade divina, usufruindo os frutos fartos da obra pia.

Apenas chegado à Bahia, em 1549, queimando de ardor missionário, Manuel da Nóbrega e seus companheiros foram viver entre os tupinambás, que elogiaram pela integridade civil e moral e pela disposição e inclinação à boa nova. Eram frugais e desconheciam inveja, egoísmo, avareza. Não terem religião e Estado era vantagem, e não dificuldade à conversão. Manoel da Nóbrega afirmaria, confiante: «[…] deixando os maus costumes que eram de seus avós, em muitas coisas [os brasis] avantajam-se aos cristãos, porque melhor moralmente vivem e guardam melhor a lei da natureza.»

A divergência sobre o americano ensejou tensão entre colonos, interessados na redução do índio à escravidão, e o jesuíta, voltado à sua integração ao cristianismo e a ordem colonial pela conversão consentida. Entre os sacerdotes que acompanharam os colonos na desqualificação dos nativos encontrava-se o bispo Pedro Fernandes Sardinha, trucidado e devorado, em junho de 1556, pelos caetés ou pelos tupinambás, após o naufrágio do navio em que retornava a Portugal.

Muito logo feneceu o otimismo de Manuel de Nóbrega e de seus acólitos sobre o americano. A conversão que propunham subentendia verdadeiro salto no vazio, o abandono da organização social tradicional por ordem colonial que arrancava ao nativo suas melhores terras e o reduzia à escravidão. Os americanos resistiram à colonização e desertaram as costas pelo refúgio dos sertões agrestes, reduzindo a pó o esforço missionário. Muito logo, Manoel da Nóbrega informava Portugal que, dos sacerdotes no Brasil, afora «o padre Luís da Grã», o «padre Paiva, um pouco» e o «Padre João Gonçalves», «que tem muita caridade», «todos os mais têm muito pouco gosto pelo gentio».

Em 8 de maio de 1558, Manuel da Nóbrega redigiria patética missiva ao rei, na qual afirmava que, devido à oposição dos nativos à conquista de suas terras, os portugueses não ousavam se «estender e espalhar pela terra para fazerem fazendas», aproveitando apenas «as praias». Havia que sujeitar o «gentio», para permitir que os lusitanos estendessem seu senhorio. O jesuíta não propunha a colonização com «povoadores pobres». Que viessem homens com cabedais suficientes para comprarem cativos. No seu plano, os nativos que se opunham aos colonos seriam «senhoreados» e «repartidos» entre os portugueses ou obrigados a viverem sob as ordens dos jesuítas, «quietos sem se mudarem para outra parte». Optava pela ocupação colonial do litoral a ferro e fogo e pela cristianização do americano pela escravidão e força.

A proposta de Manuel da Nóbrega seria aplicada implacavelmente por Mem de Sá, o terceiro governador-geral do Brasil [1558-72], que nos primeiros anos de sua governança impôs sem dó a pax lusitana às comunidades do litoral. O jesuíta José de Anchieta registraria a gratidão imorredoura dos soldados de Loyola ao governador em longo poema laudatório, Feitos de Mem de Sá, sobre as batalhas do herói na sua saga sangrenta contra americanos e franceses. De gestis Mendi de Saa constitui registro paradoxal da desqualificação do americano para que se impusesse sem travas a ordem colonial no Brasil.

  • A seguir: José de Anchieta: o apóstolo da Colonização

(*) Mário Maestri, 59, é professor do Curso e do Programa de Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri@via-rs.com.br

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