
Eu fiz há uns anos um mestrado em que eu desconfiava que o mercado de mídia estava mudando (ou mesmo colapsando, tal como se apresentava), que talvez a internet pudesse ser uma nova “era” (em termos de comunicação, claro), mas sobretudo que a crise era combinada: era da ordem da economia e da ordem do conteúdo, este último aspecto relacionado ao fato de que o cidadão-consumidor estava metendo mais seu nariz onde não era chamado.
Chamei atenção, ainda, para a ladainha neoliberal que alardeava que:
1. As informações estariam na ponta dos dedos de todo mundo.
2. A “inteligência coletiva” faria todos crescerem (profissionalmente, economicamente, socialmente, culturalmente).
3. Você precisaria “inovar” para crescer no mercado, sobretudo no campo das tecnologias da informação e da comunicação (TICs).
O que aconteceu foi justamente o contrário, como havia desconfiado, após atenta observação na pesquisa (e me atendo a apenas estes três pontos):
1. As informações continuam sendo direcionadas, e cada vez mais, a partir de ferramentas que atingem quase que plenamente seu público-alvo.
2. A “inteligência coletiva” que vendiam é, nas mãos de grandes corporações, o golpe da pirâmide do lucro (mas, claro, há rotas de fuga em andamento também). Além disso, estamos observando profundas dúvidas sobre o quanto estamos culturalmente ou socialmente mais tolerantes, e é notável que muitas das nossas sociedades estão com problemas quanto a isso.
3. Uns poucos “inovadores” conseguiram uma fatia esfarelada do mercado, enquanto o resto está nas mãos de tubarões cada vez mais poderosos, sobretudo os que detêm a tecnologia e tornam todos os demais dependentes.
E o tão alardeado “eu”? Ganhou mesmo poder? Claro que não. Ganhou o “você”. A diferença é que o “você” é todo mundo, o que parece um tanto quanto desesperador pra quem vive das grandes narrativas.
Há quem diga que os jornais “não entenderam” o recado. Discordo. Os seus donos entenderam perfeitamente no que estão metidos. Eles estão apenas fingindo que nada está acontecendo até que tenham uma ideia melhor do que atirar todos os funcionários e as máquinas ao mar. Mas, claro, se nada surgir até o barco afundar, partimos pro plano A. Sem grandes traumas.
O infográfico e uma breve explicação estão em http://bit.ly/1LbssWD; a dissertação: http://bit.ly/1N8N6d1
A dica do infográfico é do excelente Coleguinhas, do meu bom amigo (e sempre atento) Ivson Alves. Acompanhar este último meio é uma boa para quem se interessa pelo tema.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/
