O Desastre é Cultural: Sobre o slogan da Samarco (Vale e BHP Billiton) e o conceito “do desenvolvimento ao envolvimento”. Por Evandro Vieira Ouriques

Terrível ironia. A mineradora Samarco, cujos donos são a Vale e a mineradora anglo-australiana BHP Billiton, responsáveis pelo trágico e sintomático rompimento das duas barragens em Mariana, tem como seu slogan, imagine, “Desenvolvimento com Envolvimento”: http://www.samarco.com.br/

Pois é: em 2010 eu levantei este conceito para o Simpósio Do Desenvolvimento ao Envolvimento: o Futuro das Políticas Públicas, das Redes e do Empreendedorismo Sustentáveis na América Latina e Caribe, que organizei e realizei em Santiago do amado Chile com o apoio do grande amigo e parceiro desde então, Carlos del Valle Rojas, Decano da Facultad de Educación, Ciencias y Humanidades, e dos queridos Alex Blanch (PUC-Chile), Sandra Korman (PUC-Rio) e Cristian Hauser (Universidade de Talca, Chile), no II Congreso Ciencias, Tecnologías y Culturas, na USACH: http://evouriques.wix.com/dodesenvolvimentoaoenvolvimento

A este Simpósio compareceram por exemplo grandes lideranças como Christina Carvalho Pinto (Diretora da Full Jazz), Rosa Alegria (que faz parte da lista das 143 mais importantes futuristas femininas do mundo: http://rossdawson.com/articles/list-of-the-worlds-top-female-futurists/#ixzz3m1POfP1x) e Christer Windeløv-Lidzélius (Diretor da pioneira Escola KaosPilot, Dinamarca, que ao completar 20 anos convidou os 20 pensadores que a inspiram a escreverem artigos para o seu livro comemorativo, eu honrado por estar entre eles: https://www.academia.edu/1650823/_Denmark_Feb_2012._Artigo_Cient%C3%ADfico_The_Management_of_the_Sustainable_Mind_for_a_New_Generation_of_Pshyco-Social_Change_Makers).

Neste Simpósio eu demonstrava que “é preciso pois que mudemos de fato e de forma profunda a nossa mentalidade, nosso território mental: escutar então nossas próprias agendas, nossos próprios marcos teóricos, nossa(o)s vizinha(o)s, nossa(o)s irmã(o)s e nossa(o)s parceira(o)s da AL e do Caribe” (…) [pois] de acordo com o segundo Relatório da CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (…), os fluxos de investimento estrangeiro direto-IED na América Latina e no Caribe deverão ter, este ano de 2010, um aumento entre 40% e 50%, após a retração no final de 2009 (…) [quando] a maioria destes IED são destinados à manufatura e continuam concentrados em atividades de intensidade tecnológica baixa e médio-baixa, enquanto os fluxos destinados a setores de alta tecnologia e projetos de pesquisa e desenvolvimento continuam escassos”.

Sabemos que parte significativa desta transferência de tecnologias é de alto impacto ambiental, como a mineração. Ou seja, mais de duas décadas depois que as sociedades da América Latina e do Caribe abriram-se aos fluxos de investimento estrangeiro direto, sublinha o referido Relatório, “a região continua com dificuldades para atrair investimentos de alta tecnologia e, assim, se inserir nos elos de maior valor agregado das cadeias globais de produção” (…).

E mais: um ano antes deste Simpósio, portanto em 2009, eu tinha escrito justamente o artigo Comunicação, Palavra e Políticas Públicas: a importância do conceito Envolvimento para a construção da Cidadania Sustentável, publicado pela Revista Z, do amado PACC: https://www.academia.edu/2262785/_Brasil_2008._Artigo_Cient%C3%ADfico_Comunica%C3%A7%C3%A3o_Palavra_e_Pol%C3%ADticas_P%C3%BAblicas_a_import%C3%A2ncia_do_conceito_Envolvimento_para_a_constru%C3%A7%C3%A3o_da_Cidadania_Sustent%C3%A1vel

Conclui este longo artigo lembrando “o que disse Carlos Drummond de Andrade no poema Mundo Grande, publicado aqui no Rio no livro Sentimento do Mundo em 1940, na época em que chegavam os poetas poloneses, refugiados de guerra. Afinal, pergunto eu, somos ou não somos também hoje refugiados de guerra, de guerras empilhadas em seus horrores que continuam a se multiplicar como se tal fosse a natureza humana?

“(…) Meus amigos foram às ilhas.

Ilhas perdem o homem.

Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.

Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode.

– Ó vida futura! Nós te criaremos.”

Sim, te criaremos, mas… como disse Mircea Eliade, apenas quando construirmos o “perfeito domínio de si mesmo, que é o primeiro passo para o domínio mágico do mundo” (…).

Mudar o mundo é envolver-se consigo mesmo, tenho a esperança de tê-lo mostrado aqui; é acentuar em si, com traços de positividade, a fala retórica e técnica. Como diz um antigo provérbio hindu, “quando eu não sei quem eu sou, eu sirvo avocê, quando eu sei quem eu sou, eu sou você”.

Envolver-se consigo, portanto, é responsabilizar-se por si, que é também não-dualisticamente o outro. É isto que nos ensina a crise socioambiental: a necessidade de eliminar as impregnações, os resíduos, as latências insustentáveis das palavras, estas que são, vimos com Maturana, “nodos de redes de coordenação de ações, não representantes abstratos de uma realidade independente de nosso quefazer”.

É, de fato, e afinal, possuir algo; ter algo. Escapar da captura pelo dualismo do Ter ou do Ser; e Ter a si. Ser, com Castoriadis, autônomo, ter,com Castoriadis, autonomia, que é sempre, uma criação coletiva, em rede, experiência psico-social. E aí, sim, “-Ó vida futura! Nós te criaremos”.

Lembro ainda que ainda em 2010 meu artigo O Conceito Envolvimento e o Caráter Político das Práticas Linguísticas foi publicado no livro Práticas Socioculturais e Discurso: Debates Transdisciplinares, organizado por Viviane de Melo Resende e Fábio Henrique Pereira pelo LabCom, da Universidade da Beira Interior, Portugal: https://www.academia.edu/2262837/_Portugal_2010._Artigo_Cient%C3%ADfico_O_conceito_envolvimento_e_o_car%C3%A1ter_pol%C3%ADtico_das_pr%C3%A1ticas_lingu%C3%ADsticas

Nele eu dizia: “A experiência de envolvimento é a própria experiência de comunicação (Amaral, 2006), ou seja, da comunicação como encontro (Peruzolo, 2006), da comunicação como rede, que, por sua vez, é a própria experiência do humano (Watzlawick, Bealvin & Jackson, 2002). O envolvimento, portanto, é a experiência da linguagem (Maturana apud Magro, 2001) –enquanto aquela que conforma a vida (Feres & Jardim, 2007)–, da língua, do diálogo (Bohm, 2005), das literaturas,da cultura. Ou seja, da experiência positivante a que se referem, por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (em especial o Direito à Comunicação), o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Carta da Terra. Nesse sentido, o presente artigo pertence a uma linha de investigação que entende, com Terry Eagleton, que

‘Com o deslanchar de uma nova narrativa global do capitalismo, junto com a guerra ao terror, pode muito bem ser que o estilo de pensamento conhecido como pós-modernismo esteja agora [2003] se aproximando de um fim. Foi, afinal, a teoria que nos assegurava que as grandes narrativas eram coisa do passado. Talvez sejamos capazes de vê-lo, em retrospectiva, como uma das pequenas narrativas que ele próprio tanto apreciava. Isso, no entanto, propõe à teoria cultural um novo desafio. Se for para se engajar numa ambiciosa história global, tem que ter recursos próprios adequados, tão profundos e abrangentes quanto a situação que defronta. Não se pode dar o luxo de continuar recontando as mesmas narrativas de classe,raça e gênero, por mais indispensáveis que sejam esses temas. Precisa testar sua força, romper com uma ortodoxia bastante opressiva e explorar novos tópicos, inclusive aqueles perante os quais tem mostrado até agora […] uma timidez excessiva’ (Eagleton, 2005, p.297).

É exatamente no sentido desta contribuição que, desde os anos 1960, persisto em que a questão central da teoria social é a fonte de referência que o indivíduo utiliza para a decisão comunicativa, uma vez que sua ação é definida pelos valores nos quais ele se referencia, consciente ou inconscientemente. Esta minha linha de investigação e ativismo social encontrou forte reação contrária, sobretudo durante os anos 1980 e 1990, talvez o ápice do pós-modernismo, e ainda encontra, por um lado porque a teoria cultural subestimou, negou ou abandonou as questões as quais me dedico, antes delas terem sido resolvidas, e, por outro lado por elas demandarem o exercício da responsabilidade pessoal sobre os próprios atos, vale dizer, a responsabilidade cidadã socioambiental em relação à sua prática lingüística, que se dá em seu território mental (Ouriques, 2009), o lugar do fluxo dos estados mentais (pensamentos, afetos e percepções).

É ainda Eagleton (2005, p. 144) quem mostra de forma cristalina:

‘Tem sido acanhada [a teoria cultural] com respeito à moralidade e à metafísica, embaraçada quando se trata de amor, biologia, religião e a revolução, grandemente silenciosa sobre o mal, reticente a respeito da morte e do sofrimento, dogmática sobre essenciais, universais e fundamentos, e superficial a respeito da verdade, objetividade e ação desinteressada. Por qualquer estimativa, essa é uma parcela da existência humana demasiado grande para ser frustada’.

Cidadania sustentável implica assim em envolvimento com amor, biologia, religião, mal, morte, sofrimento, verdade, objetividade, ação desinteressada e revolução. Implica obrigatoriamente que se enfrentem essas questões para que a experiência de liberdade seja a mesma da experiência da vinculação social, como mostrei em outro lugar (Ouriques, 2006b, p. 30-1). Não é à toa, portanto, que o resultado do abandono das questões acima citadas, no vácuo relativista da pós-modernidade, tragicamente sincrônico à totalização pelo capital gerada pela ascensão do pensamento neoliberal, é a imensa crise socioambiental que vivemos. Trata-se então da urgência de avançar a desconstrução e a construção de conceitos que permitam a ação em rede coordenada e não-capturada, ou seja, não-assujeitada. (…)

O envolvimento é decisivo para que sejam possíveis instituições sociais“ordenadas de tal forma que a auto-doação [o outro nome das políticas públicas sociais e da responsabilidade socioambiental , digo eu] seja recíproca e irrestrita” (Eagleton, 2005, p. 285), de maneira a que não seja necessário o sacrifício, “no sentido abominável de alguns terem de renunciar à própria felicidade para o bem dos outros’ (ibidem).

Como sabemos, na mentalidade positivista ainda dominante de desenvolvimento, que é uma decisão patriarcal, linear e de graves conseqüências psíquicas, culturais, econômicas, políticas e sociais, tendem a desaparecer todos os saberes que não sejam referentes a ela mesma,e, de base, todos os saberes não-dualistas, não-binários, na medida em que o Ocidente é, nas palavras de Marcio Tavares d’Amaral, uma máquina de fazer dois. De fragmentar, de des-envolver, ou seja, de eliminar envolvimento com o outro, com a alteridade.”

Não é à toa que criei em 2005 a metodologia Gestão da Mente, quando a Conferência Internacional do Instituto ETHOS solicitou-me responder porque o modelo Triple Bottom Line, o único modelo disponível no mundo desde 1992 e com o qual os três setores tentam instaurar ainda hoje Sustentabilidade e não conseguem…: https://www.academia.edu/2259966/_Brasil_2008._Artigo_Cient%C3%ADfico_Gest%C3%A3o_da_Mente_Sustent%C3%A1vel_o_Extended_Bottom_Line_o_Desenvolvimento_Socioambiental_como_Quest%C3%A3o_da_Consci%C3%AAncia_e_da_Comunica%C3%A7%C3%A3o

Foi justamente por ter solucionado esta questão, criando o Quarto e Último Bottom Line, a Gestão da Mente Sustentável, aplicando no campo da Sustentabilidade o resultado de meus trabalhos sobre a relação entre Mente e Ação, que recebi cinco anos mais tarde o Prêmio de Melhor Acadêmico do Mundo, do Reputation Institute, NY: https://www.academia.edu/9152249/Melhor_Acad%C3%AAmico_do_Mundo_Best_Scholar_of_The_World_Reputation_Institute_New_York_2010

É por essa e outras que a Psicopolítica da Teoria Social e sua metodologia, a Gestão da Mente, dedica-se integralmente à responsabilidade do sujeito em rede em relação ao fluxo de seus estados mentais, de maneira a superar o complexo de tradições presentes também na mentalidade hegemônica do Ocidente, como o fato de que depois de Platão os deuses politeístas foram incorporados ao desejo e ao corpo como inimigos do espírito, ou seja do pensamento (estabelecendo uma suposta irracionalidade dos desejos e desqualificando o pensamento, este que é o próprio do humano), o que permitiu Thomas Hobbes cristalizar a mentalidade do homem como ‘lobo do outro’ e assim legitimar a criação de Estados monopolizadores da força, uma vez que seríamos incapazes de dominar os estados mentais da ignorância, ódio e ganância.

Hoje vemos os movimentos sociais baterem quase sempre sem sucesso à porta do “Estado”, como se tal entidade metafísica existisse, enquanto o fascismo recrudesce de maneira sinistra no psiquismo e nas instituições. Pois a verdade é que o “Estado” é uma abstração. O que existe de fato são pessoas concretas -que estão convencidas de que são incapazes de se controlarem- ocupando em rede o que chamamos de “Estado”, o que chamamos de Corporação, e por aí afora. Sem qualquer envolvimento com a responsabilidade em relação aos seus estados mentais; e portanto com o resultado nefasto de suas ações no mundo, um mar de lama mental tóxica -um “desastre cultural” e não um “desastre ambiental” ou “desastre natural” (como demonstrei na 8a. Edição -2011/2- de meu Curso de Extensão e Disciplina na Escola de Comunicação da UFRJ, realização de convênio entre o NETCCON-Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Psicopolítica e Consciência e da ANDI-Comunicação e Direitos a partir, com a ajuda decisiva do amado Evandro Rocha, do caso da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro:  http://www.abraji.org.br/?id=90&id_noticia=1697). Exatamente o contrário do que dizem estar comprometidos.

Pois a palavra precisa ser viva. Não apenas um instrumento pragmático de convencimento, atos de fala abstraídos de sua verdade. Como sublinha intensamente o amado Jacques Poulain, Presidente da Cátedra UNESCO de Filosofia das Culturas e das Instituições: “Todo ato de fala é um ato teórico”. Que se tenha portanto plena atenção, como nos ensinam os irmãos e irmãs budistas; pois a plena atenção, ou seja, a análise de discurso rigorosa -real time- não apenas do que os “outros” falam e expressam multidimensionalmente; mas do que pensamos, nos afeta, afetamos e percebemos, uma vez que esta é a condição obrigatória para a correta compreensão do que se está usando como slogan de si; do que se está falando; do que se está lendo e vendo. Pois o que se está vendo é o desastre cultural de uma mentalidade milenar. Um desastre de irracionalidade(https://www.academia.edu/16484955/Da_Irracionalidade_%C3%A0_Descoloniza%C3%A7%C3%A3o_Mental_do_Conhecimento_e_do_Cientista_Programa_de_P%C3%B3s-Gradua%C3%A7%C3%A3o_em_Hist%C3%B3ria_das_Ci%C3%AAncias_e_T%C3%A9cnicas_e_Epistemologia-HCTE-UFRJ_) epistemológica, teórica, metodológica e vivencial. 

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