Hare baba

Não sou a pessoa mais indicada para criticar a novela Hare Baba, mesmo porque não costumo assisti-la – em breve uma pessoa mais competente vai escrever um artigo, aqui no FM, a respeito. Mesmo assim, quero fazer alguns comentários a partir de trechos do capítulo de hoje, segunda-feira, 10 de agosto, que fui obrigado a assistir por força das circunstâncias.
1) A novela estimula golpes e traições. Quer dizer, essas novelas sempre estimularam os valores mais deletérios na vida em sociedade, mas parece que há um salto qualitativo em Hare Baba, posto que foi montada uma “central” de golpes, comandada por Ivone e seu “companheiro”, aquele que usa um óculos amarelo ridículo. Esses atuam no setor empresarial. Na classe operária, ou a que se pretende identificar com tal público, a deusa é Norminha, cujo estilo de vida teria virado mania entre as mulheres do Rio, segundo matéria do Globo Online-Extra, já comentada aqui.
2) Hare Baba infantiliza. Exemplo: enquanto Maia contava a história da invenção da gravidez de Súria (é isso?), as cenas vinham comprovando que ela, Maia, dizia a verdade. No entanto, Marido não acreditava. Lembrei de quando era criança, bem criança, e assistia a um daqueles teatrinhos que o moço bomzinho não enxerga o malvado maquinando atrás dele. Daí as crianças ficavam desesperadas, tentando alertá-lo para o perigo.
3) A novela macula os hábitos e costumes indianos. Não tem isso de ficar falando o tempo todo “hare baba”, ou de passar o dia inteiro dançando. Pra piorar, criaram todo um estereótipo da família indiana, gente atrasada, apegada a tradições, machista ao extremo.
4) A Lapa não é assim! Pagodinho intimista rolando num canto de rua? O mais parecido com isso é o Beco do Rato, que não tem – graças a Deus – um terço da purpurina mostrada na novela. Nessas novelas tudo é muito certinho, muito arrumadinho, muito maquiadinho. Essa dificuldade de retratar a realidade decorre da distância da realidade.
5) Os diálogos são sempre carregados. Não existe uma conversa amena. Ou se tem muito ódio, ou muita alegria, ou muita loucura, ou muito qualquer coisa. Essa hipersensibilização acaba anestesiando os sentidos.
6) Os personagens são simplórios. Não há preocupação em desenvolvê-los, creio que para manter inativas as sinapses dos telespectadores.
Enfim, é com esse tipo de coisa que a emissora de maior audiência do país ocupa metade da grade de programação entre meio dia e meia noite.

13 comentários sobre “Hare baba”

  1. Marcelo, obrigada!!! Adoro críticas a novelas, sou uma leitora compulsiva de críticas a novelas. Valeu mesmo! Tudo o que você disse, além de perfeito, vale não só para esta, como para qualquer outra novela. Só mudam as moscas. Perfeito, direto ao ponto, legal demais. Lavou a alma. Detalhe: eu NUNCA assisti a um capítulo dessa coisa, mas já tinha CERTEZA de tudo isso! Não falha nunca. A fórmula é sempre a mesma, porque o intuito é sempre o mesmo. E te digo uma coisa: não há esperança alguma de mudança para o Brasil enquanto o povo não parar de ver novela! E tv em geral.
    Parabéns! Abração.

  2. Marcelo, adorei a matéria! Abaixo a manipulação da massa populacional, através destas novelas. O povo precisa de informação de qualidade para que possa entender a realidade em que vive!

  3. Inteligente comentário, Cibele! Mas verdade seja dita: nada disso vai mudar tão cedo (se é que vai mudar algum dia). Um fato no mínimo curioso e que eu ainda não vi comentado por aqui é o seguinte: boa parte (não todos, bem entendido) dos atores e atrizes mais consagrados da Globobagens militou ativamente no PT na época em que o Lula ainda assustava a chamada burguesia nacional de Miami. Tenho idade suficiente para me lembrar muito bem de tudo isso (48). Vários desses atores e atrizes apareciam nas campanhas eleitorais do PT cantarolando LULA-LÁ! e repetindo o bordão “sem medo de ser feliz”. Aliás, não tive a curiosidade (ainda) de procurar essas imagens na rede, mas é muito provável que elas estejam por aí. Alguns desses atores estão atuando na “novelenga” em questão. Na época eu pensava: como será a convivência desse pessoal com o DR. ROBERTO? Bem, o fato é que 20 anos se passaram, o DR. ROBERTO já se foi (quase centenário), a Globo continua firme e forte, os atores do LULA-LÁ 20 anos mais velhos e…e daí? Pelo jeito, todos desistiram de mudar alguma coisa. Viram que não tem conserto mesmo.

  4. Só mais algumas coisinhas: Marcelo, não concordo que “essa dificuldade de retratar a realidade decorre da distância da realidade”. É claro que os autores/diretores de todo essa SUBCULTURA DE MASSAS sabem muito bem como é a tal realidade. Mas quem disse que o público quer vê-la? Até porque a maioria da população vive uma “vidinha de merda” (mesmo a parcela da classe média um pouco mais abastada). Se a maioria quisesse ver a realidade tal como ela é (ou quase isso) o Cinema Novo teria feito o maior sucesso, Graciliano Ramos venderia muito mais que Paulo Coelho e por aí vai. E mais um pouco: para milhões de pessoas REALIDADE é o que mostra o JN, JORNALISTAS são William Bonner e Fátima Bernardes. Lutar contra tudo isso? Só para quem tem VOCAÇÃO PARA MÁRTIR!

  5. Miguel, obrigada, mas não estou acreditando que o povo vá mudar seus hábitos “globais”, não é bem isso. A coisa é bem complexa, sei que não podemos fazer muita coisa. Porém, realmente não suporto a programação da TV. É muito ruim. Novelas são muito ruins, passam dos limites. Todas, de todas as TVs, pois copiam o modelo que dá certo. Ou seja, tudo o que é mais rasteiro. Concordo com você, o povo realmente quer ver isso. Não sou daquelas pessoas que acham que o povo é santo. Ele se adapta, se acomoda também. Muitas vezes, as pessoas (até eu) param na frente da TV apenas para descansar, para não pensar em nada mesmo, o que é legítimo e saudável. No meu caso, assisto, no máximo, algum programinha de meia hora, na Cultura ou MTV, só pra não pensar mesmo. E nem levo a sério, esqueço depois de ver. O problema é a TV pautar a vida das pessoas, e também o tipo de tv que existe no Brasil. É aí que você vê o abandono cultural, a falta, a ausência, entende? Isso é o que dói, não conhecem para poder escolher. Nunca ouviram falar em coisas que não aparecem na TV. Quem disse que não há coisas populares, simples, e que ninguém conhece, porque não estão na TV? É aí que está o problema. Eu conheço e escuto tantos artistas populares dos quais ninguém nunca ouviu falar…
    No entanto, entendi que o Marcelo quis dizer que a TV está distante da realidade no sentido do poder, quem produz está distante do que é produzido, ou seja, o dono de uma fábrica de biscoitos baratos não vai comer o que produz, e sim um leve e caríssimo quitute de sua doceria predileta. O chefe que paga pirão ao empregado, mas come moqueca.
    Talvez não tenha jeito mesmo. Eu também não tenho vocação para mártir. Não é o caso. O caso é se manter são. Acreditar, ter convicções, são coisas imprescindíveis para se manter vivo e digno.
    Abraços.

  6. Cibele, eu é que agradeço pela sua paciência em aturar um cara meio amargo como eu. Acho que estou mesmo ficando velho, sabe como é, velho e ranzinza. Mas o que fazer se a vida é isso? No fundo continuo um sonhador, o problema é que a vida, como disse Marilene Felinto (de quem já fui mais fã, diga-se) NÃO É POLITICAMENTE CORRETA. São muitas coisas que vão cansando, até porque nossa vida é, infelizmente, muito curta (pelo menos essa vida aqui, se ela continua em outras dimensões são outros quinhentos). Com tantas obrigações, tantas necessidades e um tempo que parece absurdamente mais curto o que podemos fazer? Acho que é por tudo isso que centenas de milhões de pessoas preferem ACREDITAR NA VINDA DO MESSIAS. É muito mais cômodo e dispensa longos exercícios mentais. Gostei muito da analogia que você fez entre o dono da fábrica de biscoitos baratos e os “proprietários” dos MEIOS DE DEFORMAÇÃO DE MASSAS. É isso aí! Realmente é duro ver tanta alienação e boçalidade, gente que nunca leu (ou viu) nada minimamente sério sobre a Índia e que agora “acha” que sabe tudo sobre aquela cultura milenar. Ou como você mesma disse, gente que não conhece tantas coisas interessantes e inteligentes que ESTÃO FORA DO LIXO TELEVISIVO. Saudações anarco-espiritualistas.

  7. Olá Miguel! Gostaria de destacar que no capítulo do dia 8 de agosto, em diálogo travado entre Indra e sua mãe, o rapaz comenta da sua desconfiança com relação à origem do personagem Raul. A frase sai exatamente assim: “Ele é educado demais pra ter nascido filho de catador de papel”. Modestamente, deixo o link da postagem que fiz com texto e vídeo em meu blog. O link é este: http://interpretacoesdeumsujeito.blogspot.com/2009/08/tv-globo-ele-e-educado-demais-pra-ser.html
    Um abraço!

  8. André, depois que eu ouvi um estudante do 4° ANO DE HISTÓRIA de uma UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ dizer que “índio é vagabundo”…Esperar o que da TVLIXÃO? Parece que PENSAR anda cada vez mais raro. Ou estarei enganado? Só mais uma coisinha: voltando ao “fabricante de biscoitos baratos” citado pela Cibele, a própria Globo de vez em quando produz iguarias mais finas (as minisséries em geral), mas estas só são vistas quase que exclusivamente pelas classes mais abastadas e mesmo assim algumas chegaram a ficar abaixo da audiência esperada. “Os Maias”, por exemplo, baseada na grande obra do português Eça de Queiróz não teve a audiência esperada pela emissora. Parece que foi considerada “monótona”, “muito parada” por uma parte do público. E as próprias telenovelas já foram melhores, ou menos piores. É, PENSAR DÁ MUITO TRABALHO MESMO! Um abraço!

  9. André, você nem citou as propagandas absurdamente explícitas que os empresários inserem na novela. Do nada vê-se o jabaculê que nada tem a ver com a trama (?)…
    Por isto e outras porcariadas na TV, me tornei um contumaz jogador de videogame.

  10. Grande Marcelo,
    é bom que de vez em quando vc dá uma espiada [com o nariz tapado, é claro] nas merdas produzidas pela globo, que ainda lidera o lixao da tv brasileira, prá nos contar depois, da forma crítica que tao bem vc faz.
    Eu nao tenho esta coragem, mas seu sacrifício vale a pena, já que assim podemos constatar o ‘modus operandi’ vigente, em termos de subjetividades produzidas para ludibriar os trabalhadores/as brasileiros/as.
    Mas ao contrário do Miguel, acho que esta luta vale a pena sim, com certeza.
    Prova disso sao os avanços na qualidade de vida dos povos de Venezuela, Bolívia e Equador, que nao desistiram da luta pelo socialismo.
    * Como alternativa ao nosso lixao televisivo, segue algumas dicas de tv saudável e inteligente para quem tem uma banda larga disponível:
    http://www.telesurtv.net/noticias/canal/senalenvivo.php
    http://www.vtv.gov.ve/envivo.html
    A telesur é a multiestatal bolivariana e a VTV é a estatal venezuelana.
    “é o mió que tá teno” prá ver ao vivo
    e de quebra se aprende espanhol!
    abs,

  11. Marcelo, querido! Também admiro sua coragem de ver esse lixo de novela e escrever tão sábias impressões. Não tenho estômago. Um dia desses , em algum lugar vi um pedacinho e tive um verdadeiro acesso de riso, porque a ignorância de quem dirige ou escreve isso, ou cenografa, é de uma insensatez surreal, vulgarmente burra.
    bjs

  12. Pessoal do FM, o horário chamado nobre só exibe novelas, na tv aberta. Sei que elas dão emprego para muitos atores e atrizes, mas é difícil aguentar esse padrão globo de produção, quando tudo é estereotipado. Na época em que morei nos EU, as novelas lá eram programas da tarde, de segunda a sexta, cada semana uma nova trama, com os mesmos personagens. Lembro-me que minha diarista assistia a uma “soap-opera”, que era exibida às 3 da tarde e se passava em um hospital. O filme “Tootsie” mostrou bem os bastidores das novelas americanas. As nossas novelas, infelizmente, tem um cenário primoroso (adoro ver as casas de familias pobres(?), espaçosas, móveis que nenhum vizinho emprestaria…) mas o conteúdo, que diferença: grande parte dos personagens só pensam em dinheiro ou naquilo! É melhor ficar lendo blogs como voces, o Conversa Afiada e muitos outros.

  13. Acredito que a novela Caminho da Indias, assim como tantas outras da Globo, e também de outras emissoras faz caricaturas de péssimo gosto por sinal da “realidade” que retratam. Sim os indianos são ridicularizados nessa trama, com certeza! Mas nós brasileiros também, como os personagens cheios de falcatruas, com o jovem rebelde sem causa, com a mulata que vai ao samba rebolar, entre tantos outros. Mas o mais triste é ver que na grande maioria da população esse espelho pintado pela nossa TV não é enchergado. A novela é só uma programação aqui citada, pois se entrarmos no mérito ainda apareceram programas como o Pânico na TV ( que realmente me causa pânico), Domingão do Faustão, Caldeirão do Huck, e por ai vai.

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