Homilia do Papa Francisco na missa de canonização da Madre Tereza de Calcutá

images“Quem poderá saber a vontade do Senhor?” – Esta pergunta do Livro da Sabedoria, que escutamos, na primeira Leitura, apresenta nossa vida como um mistério, cuja chave de interpretação não está em posse nossa. Os protagonistas da história são sempre dois: de um lado, Deus; e do outro, os homens. O nosso dever é o de perceber o chamado de Deus, e, depois, acolher Sua vontade. Mas, para acolhê-la sem hesitação, perguntemo-nos: qual é a vontade de Deus?

Na mesma passagem do Livro da Sabedoria, encontramos a resposta: “Os homens foram instruídos naquilo que Lhe agrada.” Para verificarmos o que agrada a Deus, devemos perguntar e compreender o que Lhe agrada. Muitas vezes, os profetas anunciam o que agrada ao Senhor. Em suas mensagens, encontramos uma admirável síntese na expressão: “Eu quero misericórdia, e não sacrifício.” Agrada a Deus oda obra de misericórdia, porque no irmão que ajudamos podemos reconhecer o rosto de Deus, que ninguém pode ver. Todas as vezes que nos debruçamos sobre as necessidades dos irmãos, estamos dando de comer e de beber a Jesus: vestimos, apoiamos, visitamos o Filho de Deus. Em suma, tocamos a carde de Cristo. Somos, portanto, chamados a traduzirmos, na vida concreta, o que invocamos na oração e professamos na fé.

Não existe alternativa à caridade. Quando muitos se põem a serviço dos irmãos, ainda que não o saibam, são aqueles que amam a Deus. A vida cristã, no entanto, não é uma simples ajuda que se presta, em momento de necessidade. Se assim fosse, já seria, por certo, um belo sentimento de solidariedade humana, que suscita um benefício imediato. Mas, seria estéril, porque sem raízes. Diferentemente deste, o compromisso que o Senhor pede, é o da vocação à caridade, por força da qual todo discípulo de Cristo põe ao Seu serviço sua própria vida, para crescer no amor.

Escutamos, no Evangelho, que uma numerosa mulidão andava com Jesus. Hoje, aquela numerosa multidão é representada por um vasto mundo de voluntariado, aqui reunido, por ocasião do Jubileu da Misericórida. Vocês são aquela multidão que seguia o Mestre, tornando visível Seu amor concreto por toda pessoa. Aqui, repito as palavras do Apóstolo Paulo: “Tua caridade foi para mim motivo de grande alegria e consolação, porque o coração dos que crêem está confortado pela tua obra.” Quantos são os corações confortados pelos voluntários! Quantas mãos eles sustentam! Quantas lágrimas eles enxugam! Quano amor testemunhado, no serviço escondido, humilde e desinteressado! É esse humilde serviço que dá voz à fé… que dá voz à fé! Expressa a misericórdia do Pai, que se faz próximo de quantos se acham em necessidade.

O seguimento de Jesus é um compromisso sério e, ao mesmo tempo, alegre. Requer radicalidade e coragem, para reconhecermos o divinoMestre no mais pobre e descartado da vida. É colocar-nos ao Seu serviço. Por isto, os voluntários que servem aos últimos e aos necessitados, não esperam para si nenhum agradecimento e nenhuma gratificação, mas a tudo isto renunciam, porque descobriram o verdadeiro amor. E cada um de nós pode dizer: assim como o Senhor veio ao meu encontro, e se inclinou sobre mim, no momeno de necessidade, assim também eu vou ao enconro dEle, e me inclino ante os que perderam a fé, ou ante os que vivem como se Deus não exisisse, sobre os jovens sem valores ou ideal, ante as famílias em crise, ante os doentes, os encarcerados, os refugiados e os imigrantes, os fragilizados e indefesos de corpo e espírito, ante os menores abandonados a si mesmos, assim como os anciãos. Lá onde hourve uma mão a pedir ajuda, aí deve esar nossa presença ou a presença da Igreja, a socorrer a dar esperança. E digo isto, tendo viva a memória da mão estendida do Senhor sobre mim, quando estava na terra.

Madre Tereza, ao longo de sua existência, foi sempre uma generosa dispenseira da misericórdia divina, tornando-se disponível para com todos, por meio do acolhimento e da defesa da vida humana – aquela abandonada e aquela descartada. Empenhou-se na defesa da vida, proclamando que os não-nascidos são ainda mais frágeis, mais pequeninos, mais necessitados. Inclinou-se ante as pessoas mais vulneráveis, abandonadas à morte, à beira da estrada, nelas reconhecendo a dignidade que Deus lhes havia dado. Fez os poderosos da terra ouvirem sua voz, para que reconhecessem sua culpa diane do crime da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia para ela era o sal que dava sabor a toda sua obra, e a luz que dissipava as trevas de todos quantos já não tinham lágrimas, lágrimas para chorarem sua pobreza e seu sofrimento.

Sua missão, nas periferias das cidades e nas periferias existenciais, permanece em nossos dias como um eloquente testemunho da proximidade de Deus nos pobres e entre os pobres. Hoje, proclamo esta emblemática figura de mulher e de consagrada a todo o mundo do voluntariado: que ela seja o seu modelo de sanidade!

Acho que talvez vamos ter um pouco de dificuldade para chamá-la de Santa Tereza. A sanidade dela nos é tão próxima, tão terna e tão fecunda, que espontaneamente vamos continuar dizendo: Madre Tereza.

Que esta incansável obreira da misericórdia nos ajude a compreender sempre mais que o nosso único critério de ação é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia e de qualquer vínculo, amor sobre todos derramado, sem distinção de língua, de cultura, de raça ou de religião. Madre Tereza gostava de dizer: “Talvez eu não fale a mesma língua, mas posso sorrir.”Que nós possamos levar em nosso coração o seu sorriso, e o demos a quantos encontramos, em nosso caminho, especialmente aos que sofrem. Assim, abriremos horizontes de alegria e de esperança a tanta gente descrente e e e necessitada de compreensão e ternura.

https://www.youtube.com/watch?v=jOdAKpAmndc
(Do minuto 55:02 ao minuto 1:06:52)
Trad.: AJFC

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