Por Gedeon José de Oliveira*
Ao revisitarmos os livros teológicos de José Comblin, precisamente a Teologia da Missão publicado em 1973, nos espanta e nos encanta pela atualidade do seu pensamento, assim como sua conexão ao pensamento eclesiológico do Papa Francisco.
De certo, uma temática tão complexa e mutante como a missão, não pode ser exaurida numa única perspectiva nem limitada por um único autor. O presente texto é um resumo, cujo objetivo é introduzir o debate em torno da VI semana teológica Pe. José Comblin: Povo de Deus desinstalado por um mundo sem fronteiras: afinidades entre as posições do Papa Francisco e do Pe. José Comblin. Entre o pensamento de Comblin e o Papa Francisco, abordaremos o aspecto “migratório” como um fenômeno no mundo atual.
A teologia, (Tehos-logos) da missão no pensamento de José Comblin, refere-se aos fundamentos. De certo, em Comblin, a teologia é um símbolo conceitual, da qual excede toda lógica e questiona a realidade histórica da Igreja no espaço e no tempo. Sendo assim, A teologia da missão conecta a realidade atual com seu ideal, demarcando o território da práxis do missionário, ampliando para a experiência da utopia. Daí seu caráter pastoral. A missão ancorada em Jesus Cristo, não pode ser encerrada na lógica da instituição Católica, nem restringir-se aos aparatos formais que legitima a instituição católica socialmente. A teologia pastoral atravessa a ordem que a legitima tanto pela instituição quanto pela sociedade. Contudo, diz Comblin: Há momento em que se torna necessário explicitar o vivido, examiná-lo de modo crítico e sintetizá-lo em conceitos científicos. A igreja precisa interpretar o que está acontecendo na missão vivida concretamente, o significado e o alcance real das novidades.
Deste modo, trataremos de três eixos que consideramos importante para refletir a missão no pensamento de Comblin: a missão de Jesus; a pedagogia e a dialética paulina. Trata-se de uma síntese teológica muito rica que nos provoca a pensar a atualidade da eclesiologia. Para tanto, Comblin faz três perguntas que deve orientar sua teologia. Qual a função da Igreja? Para que ser cristão? Tem sentido formar igreja? Qual a finalidade, quais são as metas, os critérios da atuação da Igreja?
Mediantes tais questionamentos, Comblin afirma, que o único ponto de partida credível para pensar a missão, é o evento Jesus Cristo. Pois a vida de Jesus, o seu ser, a continuação dessa vida é sua missão. O conhecer de Jesus e dos discípulos é o conhecer experimentado na missão. Ver, e conhecer realmente a Deus e as coisas de Deus é um dom dado apenas a quem está colocado dentro da perspectiva da missão. A Missão de Jesus é o ponto de partida.
A MISSÃO DE JESUS CRISTO.
Quando Jesus fala de si mesmo, designa-se como um “enviado”. Eu “vim para…” “o meu Pai me enviou para…” “eu fui enviado para…” A personalidade de Jesus é essa: a sua missão, o fato de estar identificado com essa missão. Para ele, a missão significa muito mais que uma função, uma profissão, uma tarefa; a missão é o que envolve e ocupa a totalidade dele mesmo. A palavra me enviou, aparecem 40 vezes nos evangelhos sinóticos. “eu conheço o Pai, porque procedo dele e foi ele que me enviou” (Jo.7,28s). “Assim como tu me enviaste ao mundo, assim eu também vos envio” (Jo 17,18). Trata-se do movimento entre o Pai e Jesus e entre Jesus e seus discípulos. Nisso se manifestou o amor de Deus por nós, que ele enviou o seu próprio Filho único ao mundo para que vivêssemos por ele. (1Jo 4,9).
No Apocalipse o dinamismo entre Pai e filho, Filho e discípulo aparecem de forma descritiva, o movimento entre o céu e a terra. Não mostra Jesus sentado num trono como rei, nem imobilizado na atitude hierática de objeto de culto. A palavra “vir” é de tal modo fundamental na teologia de São João que substitui o verbo ser na definição de Deus, ou pelo menos completa o ser. “aquele que era, que é e que vem” é o novo nome divino (Apc 1, 4.8; 4,8). No novo testamento, portanto, o “vir” recebe aquela universalidade, aquela máxima compreensão onde o vir envolve a totalidade do mistério cristão. Deste modo o “vir” tem seu destinatário: eu vim para os pecadores, vim para que tivessem vida, como luz do mundo, ovelhas perdidas, fazei discípulos meus todos os povos, ide e pregai o evangelho, eis que envio como ovelhas no meio de lobos etc. “enviar” “ir” e “vir” designam a situação dos Apóstolos assim como designa a situação de Jesus e a interpelação aos homens no meio do seu universo humano.
Jesus veio para dirigir sua palavra a Pedro, João, André, e a todos os Pedros, Joões, Antonios ou Severinos da história. A missão dos apóstolos não é repetição da missão de Cristo: ela fica dentro da missão de Cristo como instrumento que Cristo pode usar na sua interpelação aos homens. De qualquer modo, a norma, o significado e o próprio conteúdo da missão dos cristãos é a própria missão de Jesus. A participação na missão de Jesus qualifica todos os atos apostólicos.
A salvação cumpre-se no momento em que a pessoa se encontra com Jesus. “Vai a tua fé te salvou” diz Jesus. Trata-se do despertar para da liberdade para o amor, provocado pelo Espírito e pela interpelação de Jesus.
A missão não é a transmissão de um sistema religioso, nem a integração das pessoas num sistema religioso. A missão tem por objetivo comunicar a todos a mensagem de Jesus, o anúncio de uma libertação, a maior alegria do mundo.
A PEDAGOGIA DA MISSÃO.
São Paulo revela na Epistola aos Gálatas o que ele entende como princípio da história do povo de Deus: a pedagogia (Gál 3, 24s). há na manifestação do reino de Deus dois níveis ou modos sucessivos: o modo da pedagogia e o modo da libertação. Não devemos tomar o termo “pedagogia” no sentido comum das ciências modernas. O pedagogo usa de argumentos, a força física, a pressão moral ou psicológica, os estímulos sensíveis para corrigir e ensinar bons costumes. O elemento característico da pedagogia é a falta de liberdade e um relacionamento desigual.
Para são Paulo, todo o antigo testamento, a história do povo de Israel era uma pedagogia: um sistema de coação e de pressão baseada no argumento de autoridade e no temor a Deus.1 O sistema judaico consiste numa lei, isto é num sistema de doutrinas obrigatórias, de ritos, preceitos e instituições obrigatórias. A obediência era a virtude fundamental a qual todas as virtudes se reduziam e da quais todas derivam o seu valor. Os israelitas alcançavam a salvação pela submissão à lei.
Em relação a essa pedagogia, São Paulo destaca com vigor a novidade de Jesus Cristo. Jesus liberta os homens do sistema judaico, proclama o advento do amor do Pai e ao Pai, o fim da repressão religiosa e da pedagogia. A salvação do homem procede agora da caridade que Espirito infunde nos corações em todos os povos da terra, e não da obediência a um sistema de leis, dogmas, ritos, preceitos e instituições.
No cristianismo a pessoa não entra por força, por pressão física, moral ou social. Ninguém se torna discípulo de Jesus por geração física, nem por educação familiar, nem por pressão do ambiente: o homem entra no caminho de Jesus Cristo pela fé que é livre adesão do indivíduo. O discípulo segue o evangelho por amor e submissão ao Espírito, não por submissão às autoridades ou instituições humanas. Daí procede o método da missão. A comunicação da mensagem de Jesus Cristo não usa o prestígio da cultura, do poder ou da riqueza, não desperta nem cobiça de bens materiais ou culturais, nem forças do inconsciente, da angustia, do desejo de segurança, nem a pressão de fatores afetivos ou emotivos. A comunicação faz-se abertamente sem subterfúgio por contato entre duas pessoas, duas inteligências, duas liberdades.
A DIALÉTICA.
Na Epístola aos romanos e aos Efésios, São Paulo propõe uma teoria geral da historia mais ampla do que esquema da pedagogia e da sucessão das etapas, ainda que os dois primeiros princípios se articulem perfeitamente com ela.
Na teoria paulina jogam três termos: paganismo (as nações), judaísmo (Israel) e cristianismo (Cristo). Paulo elabora uma visão sintética das relações entre a história narrada pela bíblia judaica e a nova história aberta por Cristo. A maneira como se relacionam entre si os termos constitui a representação cristã da história. O ponto de partida do processo histórico de salvação é o conjunto dos povos do mundo – as nações com todas as suas civilizações. A descrição em Rom 1 é assombrosa: os pagãos vivem no pecado. Sabemos, contudo, por outros textos, que nem tudo é pecado, que a corrupção não é total. Se fosse total, não seria possível uma salvação. De qualquer modo a salvação não procede dos povos pagãos: eles são objeto da salvação. O seu movimento deve ser provocado por um estímulo que vem da parte de fora. Frente ao paganismo o povo de israel constitui um polo negativo. Israel se define-se pela oposição aos demais povos. Israel não admite comunicação, e rejeita todo contato cultural, até o ponto de condenar qualquer relacionamento social. Desde Abraão até os Macabeus a vocação de Israel é a separação. O Deus de Israel se define pela exclusão dos outros. “Sou Deus e não há um outro” . todas as leis têm por fim assegurar o isolamento completo do povo de Israel.
Na dialética de São Paulo, Israel não constitui modelo de salvação para os homens, mas apenas a denuncias o mal do mundo e a anunciar uma salvação futura. O seu conteúdo é promessa: ser um povo que vive da promessa. Neste ponto, Paulo faz que apareça um elemento positivo na lei de Israel. Está não é apenas pedagogia, negação da liberdade; ela é também preservação do pecado dos pagãos. Graças à lei, os israelitas podem salvar a sua vocação profética e permanecer incontaminados, pelo menos de modo suficiente para proclamar a sua mensagem, pois, além disso, eles também pecam (Rom 2). A lei recebe sentido positivo na sua própria negatividade, isto é, na sua oposição ao pecado dos pagãos.
Assim, chegamos a conclusão que Jesus Cristo faz a reconciliação entre pagãos e judeus. Porem a reconciliação de que se trata não consiste numa conciliação termos antagônicos por meio de concessão mutua. A reconciliação cristã é a criação de um terceiro termo capaz de assumir de modo mais perfeito todos os valores positivos de ambos os termos anteriores sem se deixar atingir pelos caracteres negativos. Não se trata de abandonar as culturas e as civilizações que criaram, Cristo não nega o valor de tudo que os pagãos e israelitas criaram, a única coisa que devem sacrificar é o pecado. Cristo abandona totalmente a atitude separatista de Israel. Já não há diferença entre judeus e pagãos. A reconciliação entre os povos se dá pela força do Espirito Santo que é capaz de transformar tanto os Judeus como os pagãos.
A missão propriamente dita é obra da reconciliação: saída ao encontro dos povos do mundo para uma reunião universal. Os missionários procedem de uma comunidade mais ou menos fechada, ultrapassam as fronteiras para enfrentarem o risco de um encontro ainda desconhecido. A sua meta é a unidade superior entre Igreja antiga da qual saíram e as Igrejas novas que devem nascer da sua palavra no meio do mundo.
O mais importante é a organização pastoral ou missionária, precisamos saber em que época estamos e quais são os sinais dos tempos.
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* Bacharel e Mestre em Teologia pelo Centro Universitário Assunção (Unifai)-SP. Licenciado em Filosofia pela Universidade Vale dos Rios Sinos (UNISINOS) RS. Aluno do Curso de Educação do Campo (UFPB). Membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia Política na UFPB, especificamente Filosofia da Libertação em Enrique Dussel, Coordenado pelo Prof Antonio Rufino
