250 Anos da Morte de Sepé Tiaraju

Os Sete Povos Missioneiros: Das Fazendas Coletivas ao Latifúndio Pastoril Sul-Rio-Grandense

Por Mário Maestri, 2006 – atualizado em outubro de 2010

I. A Colonização Tupi-Guarani das Américas
Nos anos 1600, três grandes comunidades nativas dividiam-se os atuais territórios do Brasil Meridional. Na Serra e no Planalto, viviam povos de língua jê, especializados na caça, pesca e coleta florestal. Os campos abertos eram dominados pelos nativos pampianos, hábeis cavaleiros após a introdução do gado vacum e cavalar nessas regiões pelos europeus.

Os guaranis pertenciam à importante civilização tupi que colonizara boa parte da América do Sul, após dominarem a horticultura de floresta tropical e sub-tropical, na Amazônia Central, há mais de dois mil anos. Eles foram os últimos chegados ao atual Rio Grande do Sul.

As aldeias tupi-guaranis, com uns 150 habitantes, tinha de três a cinco residências coletivas. O chefe da aldeia e das moradias comunitárias possuía prestígio comunitário, mas nenhum poder de fato sobre a comunidade aldeã. A família celular independente era a unidade de produção e de consumo de base dessa micro-sociedade.

Cada três a cinco anos, as aldeias tupi-guaranis transferiam-se  de local, devido ao esgotamento da caça e da coleta e à degradação das condições higiênicas dos terrenos habitados e das regiões próximas. Comumente, as aldeias super-povoadas dividiam-se durante as transferências periódicas, dando origem a uma nova comunidade independente.

Minha aldeia, meu mundo
O mundo tupi-guarani esgotava-se nos quadros da comunidade aldeão, formada em geral por famílias aparentadas residindo nas moradias coletivas. As aldeias eram independentes, pois supriam as necessidades de subsistência dos moradores sem a necessidade de realizarem trocas econômicas inter-aldeãs.

Os aldeões dispunham comunitariamente dos territórios controlados pela aldeia, desconhecendo qualquer forma de apropriação privada da terra. Reinava grande solidariedade entre os produtores, sobretudo da mesma moradia coletiva. Alguns bens eram do domínio dos moradores da residência – amambaé. Armas, utensílios, ferramentas, etc. pertenciam aos aldeões, individualmente – abambaé.

A produção tupi-guarani assentava-se na divisão sexual do trabalho. O homem caçava, pescava, guerreava, participava da construção da moradia coletiva, abria as clareiras para as plantações, em geral associado aos companheiros de moradia, etc. A divisão sexual do trabalho tupi-guarani sobrecarregava as mulheres, responsáveis pela coleta, pelo transporte, pelo cuidado dos filhos, pelo preparo dos alimentos, etc. As mulheres eram responsáveis pelas plantações.

O produto-base da horticultura tupi-guarani era a mandioca brava, de alto poder calórico e escassa riqueza protéica. Os tupi-guaranis não criavam animais para o abate, de grande, pequeno e médio porte. Nos meses de escassez de caça e de coleta, careciam penosamente de proteínas, o que parece ter contribuído à prática do abate e consumo cerimonial dos inimigos.

Os tupi-guaranis partiram do Médio Amazonas para colonizar boa parte da América do Sul. O braço guarani avançou ocupando as florestas em galeria dos afluentes da margem direita do Amazonas – atuais Bolívia, Paraguai, Uruguai, sul do Brasil, etc. O braço tupinambá despontou na foz do Amazonas e ocupou, muito rapidamente, grande parte da então exuberante Mata Atlântica do litoral.

II. Missões – Um novo mundo guarani
Em 1494, em Tordesilhas, as coroas portuguesa e espanhola dividiram os mundos descobertos e a descobrir. Na América do Sul, nos territórios brasílicos, a coroa portuguesa enriqueceu-se distribuindo graciosamente sesmarias – pouco mais de treze mil hectares – aos homens bons com cabedais suficientes para povoá-las e explora-las com o braço americano e africano escravizado.

Os colonos espanhóis enricaram-se empregando, em forma direta e indireta, o trabalho americano nas fabulosas minas de prata dos Andes, em plantações, estâncias, etc. Privilegiados na partilha de Tordesilhas, faltavam-lhes entretanto capitais para ocupar e explorar diretamente as imensas regiões do continente que lhe couberam na exótica apropriação americana.

A administração real espanhola temia que os portugueses avançassem sobre os territórios não ocupados, aproximando-se das cobiças minas andinas, fontes de ingentes riquezas. As missões constituíram inteligente projeto de ocupação, de defesa e de incorporação de imensas regiões das Américas e vastas populações ao mundo colonial espanhol, praticamente sem investimentos.

A Coroa espanhola propunha que as comunidades nativas dispersas se reunissem em pueblos estáveis, sob a administração de jesuítas, franciscanos, dominicanos, etc. Os pueblos, misiones, etc. dependeriam diretamente do rei de Espanha, escapando portanto das pesadíssimas exigências em tributos e em trabalho dos insaciáveis proprietários coloniais.

Impasses e soluções
À exclusão dos povos andinos, não houve comunidade nativa que mantivesse os tupi-guaranis longe dos territórios florestais do litoral e das margens dos rios e das lagoas que conquistavam para assentar suas aldeias e roças horticultoras. A aldeia e as moradias comunitárias tupi-guaranis formavam coesas e poderosas equipes de produtores de alimentos e de guerreiros.

Por razões compreensíveis, os guaranis acolheram positivamente a opção missioneira. Após uma expansão territorial pluri-centenar vitoriosa, havia um século que as comunidades tupi-guaranis perdiam inexoravelmente as terras, a liberdade e a vida para a frente de expansão colonial ibérica.

O embate americano entre os nativos guaranis e os colonizadores ibéricos confrontava, por um lado, a comunidade doméstica nativa, ignorantes das diferenças de classe e da organização do Estado, estruturada em aldeias autárquicas e, por outro, Portugal e Espanha, Estados classistas, vanguardas do mercantilismo, inseridos na divisão mundial do trabalho.  Comumente a aldeia tupi-guarani isolada apoiava o europeu no combate à comunidade vizinha, sua inimiga tradicional.

Modo de produção missioneiro
A proposta das missões retirara  as comunidades tupi-guaranis da perplexidade e do desalento em que haviam sido lançadas pelas derrotas incessantes diante dos vorazes colonizadores ibéricos, ao garantir-lhes segurança relativa diante dos encomenderos espanhóis e dos escravizadores paulistas. Ela constituía uma via para a sobrevivência comunitária.

Sobretudo, as reduções asseguraram às comunidades americanas melhorias substanciais na alimentação, na moradia, no vestuário, na segurança, etc., ao ensejarem a transição da comunidade de produção guarani doméstico-aldeã pré-classista à sociedade missioneira, estatal, comunitária, baseada em uma mais elevada divisão do trabalho.

Hábeis horticultores, os guaranis aclimataram com facilidade as técnicas, as ferramentas e as plantas da agricultura européia. Incorporaram ao quotidiano produtivo as ferramentas de ferro, o arado simples, a tração animal, a adubação, a fruticultura. Com a crescente importância da agricultura, essas práticas,  monopólio feminino na sociedade guarani, tornaram-se tarefas masculinas, realizadas com o apoio feminino, nas Missões.

Tecer redes e faixas de algodão era tarefa feminina tupi-guarani. Liberadas parcialmente das obrigações horticultoras, as mulheres assumiram novas responsabilidades na fiação e na tecelagem do algodão e da lã, produzindo vestimentas e cobertores que facilitaram a ocupação de regiões golpeadas duramente pelos frios invernais, como o nordeste do atual Rio Grande do Sul.

Cerâmica e olarias
O conhecimento oleiro simples guarani desdobrou-se nas práticas ceramistas missioneiras que produziam os materiais com os quais se levantavam e telhavam os celeiros, os estábulos, os galões, as igrejas, as moradias, as oficinas, etc. Novas residências com diversos aposentos unifamiliares recebiam os habitantes das antigas moradias coletivas.

A divisão sexual e familiar do trabalho, apoiada na cooperação simples entre os produtores das residências coletivas e da aldeia, ampliou-se, originando práticas produtivas realizadas comumente por artífices especializados. As reduções possuíam de trinta a quarenta oficinas: ferraria; marcenaria; olaria; sapataria; tecelagem; tornearia, etc.

Os guaranis desconheciam completamente a criação animal. Em verdade, as Américas desconheciam o gado vacum, cavalar, muar, etc. Sobretudo, as missões introduziram-nos nas práticas pastoris vacuns, cavalares, caprinas, ovinas, etc., que forneciam com segurança e relativa fartura os recursos protéicos que as comunidades nativas tinham, em abundância, apenas episodicamente.

Realizada muitas vezes em ervais distantes, a extração-produção da erva-mate tinha grande importância para as missões. Diariamente, distribuía-se uma cuia de erva-mate por família missioneira. A erva entrava como equivalente nas trocas inter-missões e era exportada, em grandes carretas de duas rodas, para regiões, não raro, muito distantes – Buenos Aires, Santa-Fé, Chile, Peru, etc. A criação de mulas era igualmente uma outra importante fonte missioneira de recursos.

Contabilidade social
O missioneiro recebia pequena parcela da terra comunal  para sua exploração familiar. Porém, trabalhava comumente nas plantações comunitárias nas segundas e sábados. A produção agrícola e pastoril comunitária financiava a subsistência dos trabalhadores especializados [administradores, artífices, ervateiros, vaqueiros, etc.] ou improdutivos [velhos, doentes, etc.]

No contexto de técnicas e métodos novos e tradicionais, o desenvolvimento da produção missioneira comunitária [tupambaé]  e familiar [abambaé] permitiu divisão do trabalho e, conseqüentemente, produtividade social superiores às da comunidade guarani tradicional. O que ensejou o sustento de uma comunidade maior, com maior esperança de vida e segurança.

Grande parte do consumo familiar da comunidade missioneira era produzida pela própria família. A administração central de cada missão – cabildo –, monopólio dos caciques, organizava a equalização das trocas internas entre os agentes das diversas esferas produtivas. A contabilidade central substituía a mercantilização como meio de troca dos mais diversos produtos, que não se transformavam em mercadorias para serem consumidos, dominando seu valor de uso e não de troca.

A maior parte do produto excedente, liberada pela maior produtividade do trabalho, era reinvestida na comunidade, sob a forma de bens de produção, instalações, etc. O caráter progressista do novo modo de organização e de produção aumentava o prestígio dos seus vetores ideológicos — os jesuítas e o cristianismo – e a coesão social missioneira. Não devemos porém fantasiar sobre as condições gerais de existência nas missões guaranis, transformando-as como quase paraísos sobre a terra. Era muito dura e árdua a luta pela sobrevivência material nessa comunidade.

III. Das Missões do Tape aos Sete Povos
De 1610 a 1634, os jesuítas espanhóis fundaram as províncias guaraníticas do Paraguai: Itatim, Guairá e Uruguai. As missões do Tape faziam parte da província do Uruguai. Seus dezesseis pueblos localizavam-se no noroeste do Rio Grande do Sul atual, no Planalto e nos vales do Jacuí, Ibicuí e Ijuí.

Muito logo, as reduções do Tapes foram atacados por mamelucos paulistas, à procura de nativos para serem escravizados, devido à falta de braços africanos cativos, sobretudo desde a ocupação holandesa de importantes portos negreiros portugueses da costa da África. Nesse então, a casa real espanhola reinava igualmente sobre Portugal [Unificação Ibérica 1580 – 1640]. Nos fatos, despreocupava-se com os assaltos lusitanos às missões espanholas, pois eles alimentavam em braços os rendosos engenhos açucareiros das colônias do Brasil.

Talvez vinte mil missioneiros tenham sido arrastados para as capitanias portuguesas como cativos. Antes da viagem, matavam-se os caciques e os guerreiros mais combativos, para que não organizassem revoltas. Os velhos e as crianças eram executados ou abandonados, para que não atrasassem a marcha terrível. Essas terríveis operações foram e continuam sendo elogiadas por importantes setores historiográficos como responsáveis pela expansão das fronteiras brasileiras.

Em 25 de março 1641, expedição escravizadora de 3.400 homens – paulistas, mamelucos e tupis – foi completamente derrotada nas barrancas do rio M´Bororé, afluente do rio Uruguai, por quatro mil missioneiros portanto as armas tradicionais, arcabuzes e canhões de bambus gigantes, reforçados com couros de animais. Com o início da guerra de libertação de Portugal, em 1640, a Coroa espanhola permitira que os missioneiros se armassem contra os seus antigos súditos portugueses, agora inimigos figadais.

Vacarias missioneiras
Entretanto, em 1636-8, para protegerem-se das razias paulistas, os missioneiros do Tape transferiram-se para a margem direita do Uruguai, abandonando os atuais territórios do Rio Grande do Sul para se estabelecerem nas regiões da atual província argentina de Misiones e no sudoeste do Paraguai. Entretanto, a ocupação de parte dos territórios sulinos teria importante conseqüência na história posterior dessa região.

Em 1634, cada missão recebera umas cem cabeças de gado para formar rebanhos. Quando da retirada para a outra margem do rio, os animais foram deixados nas margens meridionais do Jacuí, para que se reproduzissem. Como as condições ambientais da região – pampa –  eram excelentes, as manadas de gado reproduziram-se exuberantemente e expandiram-se para o litoral, à busca de pastagens, alcançando o Atlântico e avançando para o sul, dando origem às vacarias da região – campos de gado selvagem. Essas manadas de gados enriqueceram-se igualmente com as infiltrações de gados desgarrados, chegados da outra banda do rio Uruguai.

Os vaqueiros missioneiros atravessavam periodicamente o rio Uruguai para levar rebanhos para as estâncias, extraídos das vacarias formadas entre o rio Jacuí e a lagoa dos Patos. As estâncias das missões eram imensas, ainda que menores, em relação às vacarias. Nelas, os gados eram reunidos periodicamente em rodeios, ainda que em forma muito extensiva. As invernadas eram pequenas estâncias, próximas às missões, de onde os gados eram retirados para o consumo. Sobretudo os acidentes geográficos e valas com plantações de espinheiros e outras barreiras mantinham os gados nas estâncias. Posteiros missioneiros controlavam as passagens por onde os gados escapavam.

Povoados pelos gados selvagens, os campos do atual Rio Grande do Sul formavam uma enorme hacienda, trilhada continuamente pelos vaqueiros missioneiros à busca dos animais. Após a organização das estâncias, as vacarias do Mar, nas pastagens que iam da margem direita do rio Camaquã até o rio Negro, no atual Uruguai, eram mantidas como uma espécie de reserva estratégica, de onde se extraíam animais, quando necessário.

Sacramento – os portugueses no Prata
Durante a Unificação Ibérica [1580-1640], os lusitanos desenvolveram rentável atividade comercial na bacia do Prata, contrabandeando trabalhadores escravizados, produtos da costa do Brasil e manufaturados, sobretudo, ingleses, em Buenos Aires, sobretudo pela prata. As autoridades espanholas fechavam os olhos para essa atividade, pois dava-se no interior do império espanhol. Em 1640, com o início da guerra de independência lusitana, o mercado platino fechou-se inexoravelmente aos comerciantes lusitanos, em boa parte cristão-novos de judeus.

Com a crise do comércio açucareiro, determinada pela difusão da plantação dos canaviais pelas grandes potências européias no Caribe, a coroa lusitana procurou novos negócios, enquanto promovia a procura das minas. Entre eles, promoveu a ocupação do norte de suas possessões americanas. No sul da América, em janeiro de 1680, os lusitanos fundaram a colônia do Santíssimo Sacramento, na  deserta margem oriental do Prata, diante de Buenos Aires, em territórios pertencentes à Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas. A feitoria almejava sobretudo prosseguir o rendoso comércio interrompido quarenta anos antes. Entretanto, uma nova atividade garantiria igualmente o sucesso econômico da cidadela – a caça dos animais vacuns bravios das vacarias pelo então crescentemente valorizado couro.

A coroa espanhola respondeu à intrusão lusitana cercando, atacando e conquistando, em agosto, a cidadela, com a ajuda de mil milicianos missioneiros. No ano seguinte, Sacramento foi devolvida pelos espanhóis aos lusitanos, que a obtiveram em cerradas negociações diplomáticas. De então a 1777, a Colônia tornaria-se o grande pomo da discórdia entre as coroas ibéricas no sul da América.

Sete Povos das Missões
Diante da nova situação, a administração espanhola ordenou que os missioneiros atravessassem novamente o rio Uruguai para fundar, desde 1682, novas reduções no noroeste dos atuais territórios sulinos. Os Sete Povos da Banda Oriental do rio Uruguai foram formados pela fundação sucessiva das reduções de São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São João Batista, Santo Ângelo.

A nova ocupação estendeu o controle, mais ou menos legal e efetivo, dos Sete Povos sobre grande parte dos atuais territórios sul-rio-grandenses e uruguaios. No Planalto, os gados missioneiros ocuparam os campos abertos e os ervateiros missioneiros exploraram parte das matas da região. Nos pampas, já em 1683, os vaqueiros de São Miguel chegaram até a região da atual cidade de Bagé, próxima da fronteira atual com o Uruguai, de onde se retiraram devido à oposição dos nativos locais.

Com administração própria, os Sete Povos permitiam melhor gestão dos recursos pastoris, agrícolas, ervateiros, etc. da região e uma melhor proteção desse flanco do Vice-Reinado do Peru, ameaçado por Sacramento. Entretanto, cada missão possuía suas terras, seus gados, suas estâncias e administrava-se independentemente. Produzindo em geral os mesmos produtos, eram muito limitadas as trocas e, portanto, a inter-dependência dos Sete Povos.

No início do século 18, os trinta povos das Missões Ocidentais e Orientais do rio Uruguai possuíam uns 150 mil habitantes. A população dos Sete Povos seria de 30 mil missioneiros, sobretudo guaranis, ainda que ali vivessem parcialidades de outras origens nacionais – charruas, minuanos, etc. Uma população considerável. Na época, Portugal apenas ultrapassaria um milhão e meio de habitantes.

Missão cumprida
As Missões protegiam essas regiões da expansão lusitana, participando ativamente dos ataques aos portugueses, o que as debilitava fortemente, já que os milicianos missioneiros eram, nos fatos, roceiros, vaqueiros, artífices, etc., que tinham que abandonar suas funções para ir à guerra. As milícias missioneiras protegiam também as povoações espanholas dos ataques de nativos ´selvagens´. Eram verdadeiras guarda pretoriana contra eventuais insubordinações das elites criollas às autoridades coloniais.

As Missões incorporavam também economicamente esses vastos territórios da América do Sul ao espaço colonial hispânico, pois exportavam diversos produtos – erva-mate, mulas, couros etc. – para pagar os impostos de capitação, devido à coroa, e adquirir o que não podiam ou não queriam produzir na região.

O crescente esgotamento da produção mineradora andina e o desenvolvimento da importância da bacia do Prata para as trocas comerciais e as comunicações selaram a sorte dos Sete Povos.  O crescente desenvolvimento semi-autônomo de fato de uma verdadeira nação guarani-missioneira desagradava mais e mais as classes dominantes crioulas, que cobiçavam as terras e sobretudo a mão de obra missioneira.

IV. O Tratado de Madrid e a Guerra Guaranítica
Em janeiro de 1750, em Madri, as coroas ibéricas pactuaram solução pacífica global das desavenças territoriais americanas. Para a América Meridional, acordou-se trocar a colônia de Sacramento, lusitana, pelos territórios dos Sete Povos, espanhóis. O tratado garantia à Coroa espanhola o domínio pleno do estuário do Prata às custas das populações missioneiras, expropriadas de suas vilas, moradias, oficinas, igrejas, terras, fazendas, rebanhos e ervais.

O Tratado ordenava: “Das povoações ou aldeias que cede sua Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai, sairão os missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os índios para os aldear em outras terras de Espanha […]; entregar-se-ão as povoações à Coroa de Portugal, com todas as suas casas, igrejas e edifícios e a propriedade e posse do terreno […].”

Os missioneiros deviam abandonar as terras natais e localizaram-se, a mais de seiscentos quilômetros, no setentrião da então semi-deserta Banda dos Charruas [Uruguai]. Como a transferência era decisão que os ibéricos não esperavam que os missioneiros obedecessem de livre-vontade, em 1751, tratado secreto acertou o uso conjunto da força militar luso-espanhol contra a previsível resistência missioneira.

Para ocupar as Missões, a Coroa portuguesa mandou vir camponeses sem ou com pouca terra das ilhas dos Açores e da Madeira. Os casais assentados receberiam 272 hectares de terra, ferramentas, sementes, dinheiro, etc., tudo gratuitamente. Até 1754, três mil ilhotas associaram-se aos 1.500 povoadores da região, num salto qualitativa da população luso-brasileira local. Esperava-se que os camponeses garantissem a posse daqueles territórios e produzissem braços e meios de subsistência para as tropas coloniais.

Guerra guaranítica
O general-de-batalha Gomes Freire de Andrade, comissário português da expedição demarcadora, ao chegar ao Rio Grande, concedeu sesmarias no Chauí, em Viamão, em Cima da Serra, no Vale do rio dos Sinos, no Jacuí, no Caí, no rio das Antas, na Vacaria dos Pinhais, procurando incentivar a ocupação latifundiária sesmeira dos territórios sulinos pelos luso-brasileiros.

Em setembro de 1752, a expedição luso-espanhola – astrônomos, diplomatas, engenheiros, geógrafos, militares, etc., – encontrava-se em Castilhos Grande e, em inícios de outubro, assentava o primeiro marco divisório. Porém, muito logo, seria barrada por tropas missioneiras comandadas por José Tiaraju – Sepé –, alferes real de São Miguel, na coxilha de São Sebastião, no atual município de Bagé, já em territórios missioneiros.  As tropas gerais missioneiras encontravam-se sob o comando de Nicolau Neenguiru, corregedor de Concepción, na margem ocidental do Uruguai.

Em 23 de fevereiro de 1754, uns trezentos missioneiros atacaram por quatro horas a apenas fundada tranqueira de Rio Pardo, fronteira oeste luso-brasileira, no vale do Jacuí. Teriam morrido 22 atacantes e de três a quatorze defensores. Em 28 de abril, tropas unificadas dos Sete Povos assaltaram, novamente, com pouquíssima decisão, o forte de Rio Pardo, que reforçara suas defesas.  Nos inícios dos combates morreu Alexandro Mbaruari, comandante militar de São Miguel, chefe geral das tropas missioneiras.

Em 1574, um poderoso exército português, com mais de mil homens em armas, partiu de Rio Grande, no litoral, para Rio Pardo, onde chega em agosto. As tropas espanholas também chegam à região. Porém, devido ao forte inverno e à resistência missioneira, em novembro de 1754, os exércitos ibéricos retiram-se da região, após pactuarem armistícios separados com os representantes dos pueblos que, nos fatos,  ampliavam as terras sob controle lusitano.

Finalmente, em 16 de janeiro de 1756, um exército hispano-português de 2.600 homens, poderosamente armado e artilhado, reuniu-se nas cabeceiras do rio Negro, nos atuais territórios uruguaios, de onde partiu para as Missões. Ao entrar em terras missioneiras, as tropas ibéricas sofreram diversas emboscadas. Porém, em inícios de fevereiro, caía em combate Sepé Tiaraju, comandante das tropas de São Miguel.

A morte de Sepé
Em 7 de fevereiro, os missioneiros armam mais uma emboscada às tropas ibéricas, ao deixarem, como isca, uma ponta de gado à vista dos invasores, sedentos em animais, para a alimentação da importante tropa. Cavaleiros missioneiros atacaram céleres e lancearam mortalmente dois peões portugueses que haviam cruzado o arroio Guacacay  para reunir, abater e carnear os animais.

Talvez prevenidos contra a tática, utilizada anteriormente pelos missioneiros, às  cinco e meia da tarde, o comandante Andonaégui enviou trezentos soldados espanhóis e portugueses, em dois esquadrões, em perseguição dos setenta a oitenta cavaleiros missioneiros, reunidos próximos a um capão.

Na perseguição, a montaria de Sepé Tiaraju teria tropeçado em um desnível do terreno, lançando o cavaleiro ferido ao solo.  Aproveitando a oportunidade, um peão português quebrou uma lança contra o chefe militar missioneiro. No combate, os espanhóis tiveram dois mortos e os missioneiros, oito.

A documentação é divergente e imprecisa sobre os acontecimentos posteriores. Possivelmente capturado e identificado, devido ao livro de orações e cartas que levava consigo, Sepé teria sido torturado por seus algozes – “queimado com pólvora ainda quando aspirando” e martirizado “de outras maneiras”.

A seguir, Sepé teria sido justiçado com um tiro de pistola, pelo próprio governador de Montevidéu, talvez para conquistar a honra da morte de um chefe missioneiro. O corpo de Sepé, decapitado, teria sido recuperado pelas tropas missioneiras, para enterramento de fortuna. Acredita-se que o chefe missioneiro morreu lutando em algum ponto da cidade de São Gabriel.

A grande derrota
As razões da derrota missioneira foram sobretudo políticas. Os jesuítas tentaram impedir diplomaticamente e, a seguir, retardar, a implementação do tratado, esperando sua anulação. Nos fatos, após poucos anos, o Tratado seria efetivamente denunciados.  Assim, terminaram dividindo-se quanto à implementação das ordens emanadas pela Coroa espanhola.

Os superiores da Companhia de Jesus apoiaram o abandono das Missões, entregando, em maio de 1753, os Sete Povos às autoridades civis e religiosas de Buenos Aires. Entretanto, alguns jesuítas permaneceram, até o fim, nas missões, em contato com os caciques missioneiros, apesar de jamais se terem juntado abertamente à resistência.

Com a defecção jesuítica, a oposição encontrou-se nas mãos dos administradores dos Sete Povos que se dividiram igualmente sobre  o caminho a seguir. Eles mantiveram sempre a esperança de negociar a manutenção dos Sete Povos, procurando preservar ciosamente as relações com Espanha. Durante todos os combates, as tropas missioneiras mantiveram ação militar essencialmente defensiva.

Apesar de possuírem uma enorme homogeneidade de civilização, os Trinta Povos jamais constituíram entidade coerida por laços sociais, econômicos e políticos necessários. Nos fatos, constituíam verdadeiras autarquias, mantendo frágeis laços essenciais entre si.  A desorganização dos Sete Povos foi também uma ação ibérica contra a tendência, jamais realizada, de formação de uma nação guarani-missioneira no sul da América. Ensaio talvez retomado quando da chamada Guerra do Paraguai.

O Fim da República
Os povos da margem direita do rio Uruguai parecem não ter compreendido que também eram atingidos pelo Tratado de Madri, que se referia explicitamente às Missões da margem esquerda do rio. Sobretudo diante da defecção e neutralização do comando jesuítico unificado, jamais participaram efetivamente da resistência militar, que se restringiu às milícias dos Sete Povos. Repetiram assim o comportamento das comunidades aldeãs tupi-guaranis, de resultados igualmente desastrosos.

Vivendo a mesma autonomia sócio-econômica, os Sete Povos jamais unificaram e centralizaram ferreamente a resistência ao avanço ibérico, procurando comumente pactuar acordos em separado e fazer frente aos invasores apenas quando penetraram em suas terras. Jamais houve, nos fatos, a consciência plena de uma civilização guarani-missioneira reunindo os Trinta Povos, por além de uma língua, uma cultura, uma tradição e uma identidade comum.

Em 10 de fevereiro, em Caaibaté, 1.800 missioneiros, armados de lanças, arcos e flechas e peças de artilharia de bambu forradas de couro tentaram abrir negociações e impedir o avanço dos ibéricos que contavam com mais de 3.700 combatentes experientes, com poderosas armas individuais e artilharia.

Apesar das oposições históricas, as tropas dos Sete Povos teriam recebido o apoio de guerreiros charruas, minuanos, guenoas e outras comunidades nativas regionais, segundo parece chamados ao desconhecimento dos jesuítas.

Rejeitando o pedido de negociação, os canhões portugueses e espanhóis abriram fogo em forma coordenada, desorganizando as desmotivadas milícias missioneiras. A seguir, iniciou-se o massacre de talvez mil guaranis, perseguidos e executados.  Em 16 de maio de 1756, após pequenos confrontos, as tropas ibéricas entravam em São Miguel. A República dos Sete Povos fora derrotada. Ao menos, aparentemente.

V. A Consolidação do Latifúndio Pastoril Sulino

Missões – a primeira agonia
Em 1757, devido à demora do prosseguimento da demarcação e à não evacuação dos moradores dos Sete Povos, as tropas lusitanas, longe de suas linhas de defesa, recuaram para Rio Pardo, transferindo alguns milhares de missioneiros para Rio Pardo, Cachoeira do Sul e Gravataí, onde formaram aldeias de índios, o que causou um primeiro despovoamento nas Missões.

Assim, os portugueses debilitavam as forças militares hispânicas e minoravam  a   carestia de trabalhadores nas fazendas, plantações e vilas lusitanas. A seguir, os missioneiros foram obrigados a adotar a língua e nomes portugueses, dissolvendo-se na população subalternizada do Rio Grande do Sul. Essa enorme contribuição ao povoamento original do Rio Grande é menosprezada pela historiografia tradicional.

Derrotados, missioneiros migraram para a outra margem do rio Uruguai, para a Banda Oriental, para Entre Rios, etc. onde se agaucharam e se empregaram com peões, nas estâncias, como changadores, contrabandistas, corambreros, etc. Missioneiros incorporaram-se igualmente aos toldos charruas e minuanos do pampa uruguaio. Entretanto, importantes quantidades de guaranis mantiveram-se nos Sete Povos.

Em 12 de fevereiro de 1761, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de Madrid, de 1750, mantendo as condições anteriores, ou seja, Sacramento, em mãos portuguesas, e as Missões, sob domínio espanhol, e administração militar. Finalmente, os jesuítas foram expulsos das colônias hispano-americanos, seis anos mais tarde, em 1767.

Perda e Restauração
O confronto da França, em união com a Espanha, com a Inglaterra e, conseqüentemente, Portugal, seu pequeno e tradicional aliado, ensejou a chamada Guerra dos Sete Anos – 1756 a 1763 –, que envolveu diversos outros beligerantes.  Em outubro de 1762, tropas espanholas e missioneiras apoderaram-se da Colônia de Sacramento e, em abril de 1763, da vila de Rio Grande, obrigando aos luso-brasileiros a recuarem para os Campos de Viamão, para o Estreito, para o vale do rio Jacuí, até Rio Pardo.

Apenas em 1776, a vila e o porto de Rio Grande e as terras do interior rio-grandense seriam retomadas, por poderoso exército lusitano de sete mil homens, o talvez mais poderoso até então organizado pela coroa portuguesa nas Américas. Em resposta, os espanhóis ocuparam a ilha de Santa Catarina e Sacramento.

Em inícios de 1777, a morte de dom José I, e a entronização de sua filha, dona Maria I, permitiu a deposição do poderoso marquês do Pombal e a volta ao poder da grande aristocracia fundiária portuguesa. Em outubro de 1777, o Tratado Santo Ildefonso reconhecia a soberania espanhola sobre a colônia do Sacramento e sobre as Missões, em troca de Santa Catarina, em um tratado em tudo lesivo aos interesses da coroa lusitana.

Trigos, couros e mulas
Até 1780, a produção luso-rio-grandense centrava-se sobretudo no abate de bovinos pelo couro, na triticultura açoriana, na pequena agricultura de gêneros de subsistência, no envio de tropas sobretudo de mulas para Sorocaba, a grande feira sulina daqueles animais, em São Paulo, através da rota tropeira que levava os animais pelo noroeste do Rio Grande do Sul – Santo Antônio da Patrulha, Vacaria, etc. De Sorocaba, os animais eram vendidos para São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, etc.

Os trigais rio-grandense haviam sido plantados pelos colonos açorianos nas proximidades da lagoa dos Patos, ao longo do rio Jacuí e Taquari, nas cercanias de Rio Pardo, em geral com o apoio de trabalhadores cativos. Boa parte da produção triticultora era comercializada e embarcada no porto de Porto Alegre e exportada para o Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e, até mesmo, Portugal.

A ferrugem (1811), as dificuldades dos transportes, a rusticidade da produção, o alto preço relativo dos cativos, a inadequação da produção a produção escravista e, sobretudo, a concorrência do trigo estadunidense, após liberalização do comércio, em 1808, por dom João, sem preocupação com a defesa da produção artesanal, pequeno-mercantil, etc. do Brasil, levaram a que o trigo sulino fosse alijado dos mercados regional, `nacional` e mundial.

A decadência da mineração no Brasil Central, nos anos 1770, fez retrair o mercado muar para o transporte, arrefecendo a criação sulina, até ser relançada pelas necessidades da produção cafeicultura do Rio de Janeiro, a partir dos anos 1830. Nesse período, a economia mercantil sulina foi sustentada pela importante expansão da produção charqueadora, a partir de 1780.

A ocupação da Campanha
Inicialmente, a economia pastoril rio-grandense exportava couros para o mercado internacional e produzia carne apenas para o limitado mercado regional, em geral através do abate do gado selvagem – estâncias chimarrãs. A ocupação da Campanha por fazendas criatórias recebeu poderoso impulso com a instalação da indústria charqueadora, que valorizava os animais, ao permitir a conservação e o transporte de suas carnes através da salgação.

As grandes secas de 1777-8 e 1791-2, no nordeste do Brasil,  dizimaram os gados que alimentavam a produção de carne-de-sol sobretudo do Ceará e do Piauí, que abastecia tradicionalmente a colônia naquele produto, uma das bases da alimentação das populações escravizadas e de poucos recursos.

Com a expulsão dos espanhóis de Rio Grande, em 1776, charqueadas surgiram nas margens das lagoas, no rio Jacuí, em torno de Porto Alegre e sobretudo nas margens do arroio Pelotas. Desde então, as necessidades das capitanias do Brasil passaram a ser satisfeitas pelas charqueadas sulinas, que exploravam duramente a mão-de-obra escravizada. No mesmo período, formaram-se os saladeros orientais, sobretudo nas proximidades de Montevidéu.

Os numerosos oficiais trazidos para a reconquista de Rio Grande, em 1776, receberam ou apoderaram-se de sesmarias, valorizadas agora pela necessidade crescente de gado das charqueadas. Em pouco tempo, as terras acessíveis do pampa esgotavam-se. Em 1785, poucos anos após o início da produção sistemática de charque, 64,22 % das 841 propriedades sulinas recenseadas tinham mais de 1.000 hectares.

As estâncias de rodeio que surgiram voltadas à produção de animais para as charqueadas eram relativamente menores e exigiam um número maior de trabalhadores, ainda que reduzido, em relação às fazendas agrícolas do resto da colônia. As necessidades crescentes de mão-de-obra da produção pastoril foram satisfeitas em boa parte por trabalhadores escravizados, introduzidos na ciência da criação animal – cativos campeiros. Trabalhadores livres, detentores de boa parte de seus meios de produção – cavalo, arreios, boleadeiras, etc. –, os gaúchos resistiam ao arrolamento permanente como peões nas estâncias, dedicando-se comumente à caça ao gado selvagem, ao contrabando, etc.

O fim das Missões
Diminuídos poderosamente em sua população e territórios, sob a administração corrupta de prepostos espanhóis, os Sete Povos conheceram inexorável decadência, após a Guerra Guaranítica. Em 1801, aproveitando as hostilidades entre Espanha e Portugal, devido à guerra napoleônica, tropas irregulares luso-brasileiras apoderaram-se dos Sete Povos, apoiados por guarani-missioneiros, com falsas esperanças na ordem lusitana. A nova administração militar lusitana aprofundou os desmandos do governo espanhol.

O início da privatização dos territórios missioneiros ocorreria poucos anos mais tarde. Em 1808, dom João impulsionou  a ocupação dos sertões do Brasil. Nesse processo, mandou “descobrir, povoar e cultivar os campos de Guarapuava” [Paraná], que se encontravam “infestados [sic] de gentios”. Pretendia-se abrir estrada direta entre a feira de Sorocaba e as Missões, agora sob poder português, para facilitar e potenciar o comércio muar.

Em 1809-1810, um destacamento militar demarcou caminho entre Curitiba e os campos de Guarapuava, fundando a seguir o forte de Atalaia, freqüentemente atacado pelas comunidades nativas coroadas da região, que se esforçavam para defender seus territórios nacionais. Nos anos seguintes, criadores estabeleceram propriedades, nessas regiões, sempre mais ao sul, em direção à fronteira com o Rio Grande do Sul.

Em 1816, uma expedição partiu para estabelecer contato direto com as Missões, através dos campos de Guarapuava. O nativo Jongong, que orientou a expedição, temendo a belicosidade coroada nas margens do rio Uruguai, tomou o caminho do leste e dos Campos de Palmas, descobriu os Campos Novos, atravessou o rio Pelotas, chegou ao Campo do Meio, no nordeste do Rio Grande do Sul, de onde prosseguiu para São Borja.

A Expropriação Final
A expedição falhara na abertura de caminho direto entre a feira de Sorocaba e as Missões, mas redescobrira o caminho, através do Planalto Médio, ligando os Campos de Vacaria a Santo Ângelo, utilizado nos séculos anteriores, pelos nativos e pelos tropeiros e ervateiros missioneiros. A rota ficou conhecida como Caminho Novo das Missões.

A abertura do caminho entre os Campos de Vacaria e as Missões acelerou a ocupação da região e o início da substituição das antigas estâncias missioneiras por latifúndios pastoris ao longo da nova estrada, onde surgiram, a seguir, as povoações de Cruz Alta, Passo Fundo, Campo do Meio, Lagoa Vermelha, etc.

Desde 1816, o cabildo dos povos missioneiros e administradores luso-brasileiros vendiam, a preços mínimos, ou concederam, gratuitamente, terras missioneiras e terrenos não designados, ensejando que militares, tropeiros e criadores, chegados de São Paulo, Curitiba, Lages e Laguna, organizassem fazendas pastoris nas antigas estâncias guaraníticas. Entretanto, eram ainda significativas as populações missioneiras da região e as terras que ocupavam.

Golpe definitivo

O golpe definitivo seria dado, em 1828, quando da guerra de Independência contra o Império da Banda Oriental. Após ocupar e saquear as Missões, novamente com o apoio de parcialidades missioneiras, o caudilho oriental Fructuoso Rivera convenceu o que sobrava da população dos Sete Povos a acompanhá-lo com talvez quatrocentas mil cabaças de gado, para estabelecerem-se no noroeste do atual Uruguai. Muito logo, esses migrantes seriam reprimidos, massacrados, escravizados plena e parcialmente, devido às exigências sobretudo dos criadores rio-grandenses, estabelecidos no norte da Banda Oriental.

Segundo Nicolau Dreys, que escrevia na metade da década de 1830, a população missioneira caíra de vinte mil missioneiros, em 1801, para oito mil, em 1814. Em seu “Relatório ao Conselho Geral” de dezembro de 1830, o presidente da província sulina, o pernambucano Caetano Lopes Gama, visconde de Maranguape [1795-1864], escrevia: “Os Sete Povos […] estão quase extintos. Santo Ângelo, São João, São Luiz e São Nicolau não têm um só índio. São Borja, São Lourenço e São Miguel, apenas 38.”

Com os anos, à expropriação das terras das fazendas coletivas guarani-missioneiras, transformadas em latifúndios comumente explorados ao menos parcialmente com a mão de obra escravizada, seguiu-se a própria expropriação da memória. Os ex-missioneiros, agora, quando muito, gaúchos vagos e peões pobres, sequer recordavam-se dos tempos gloriosos em que senhoreavam solidários as imensas e frutíferas estâncias comunitárias dos Sete Povos Missioneiros.

Principais autores consultados:

  • BECKER, Ítala Irene Basile. O índio kaingáng no Rio Grande do Sul. São Leopoldo: E.UNISINOS,1995.
  • BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos guaranis. Porto Alegre: Sulina; Caxias do Sul: UCS, EST, 1978.
  • DALCIN, Ignácio. Em busca de uma terra sem males. Porto Alegre: Palmarinca, EST, 1993
  • FONSECA, Ari Veríssimo da. Tropeiros de mula: a ocupação do espaço; a dilatação das fronteiras. 2 ed. Passo Fundo: Berthier,
  • GUTIERREZ, Ester. Negros, charqueadas e olarias. Um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: UFPEL, 1993.
  • KERN, Arno A. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
  • KERN, Arno A. Utopias e missões jesuíticas. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1994.
  • LUGONM Clovis. A República “comunista” cristã dos guaranis: 1610-1768. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. L 105
  • MABILDE, Pierre F. A. Booth. Apontamentos sobre os indígenas selvagens da nação coroado dos matos da província do Rio Grande do Sul: 1836-1866. São Paulo: IBrasa; Brasília: INL, Pró-memória, 1983.
  • MAESTRI, M. (Org.) O negro e o gaúcho: estâncias e fazendas no Rio Grande do Sul, Uruguai e Brasil. Passo Fundo: UPF Editora, 2008. [Malungo, 14.]
  • MAESTRI, Mário & BRAZIL, M.C. [Org.]. Peões, vaqueiros & Cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora/CNPq, 2009. Tomo 1.
  • MAESTRI, Mário & ESSELIN, P. & QUEVEDO, J. [Org.] Peões, vaqueiros & Cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora/CNPq, 2009. Tomo 3.
  • MAESTRI, Mário & LIMA, Solimar O. [Org.] Peões, vaqueiros & Cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora/CNPq, 2009. Tomo 2.
  • MAESTRI, Mário. Breve história do Rio Grande do Sul: da pré-história aos dias atuais. Passo Fundo: EdiUPF, 2010. [no prelo]
  • MONTEIRO, Jonathas da Costa Rego. A colônia do Sacramento. 1680-1777. Porto Alegre: Globo, 1937. volume I e II.
  • NEUMANN, Eduardo. O trabalho guarani missioneiro no rio da Prata colonial: 1640-175O. Porto Alegre: Marins Livreiro, 1996.
  • PORTO, Aurélio. História das missões orientais do Uruguai. Porto Alegre: Selbach, 1954. Parte I e II.
  • RODERJAN, Roselys Vellozo. Raízes e pioneiros do Planalto Médio. Carazinho: Prefeitura Municipal de Carazinho/UPF/Diário da Manhã, 1991.
  • SANTOS, Lucila Maria Sgarbi et al. Bom Jesus: e o tropeirismo no Brasil Meridional. Porto Alegre: EST, 1995.
  • SEVERAL, Rejane da Silveira. A guerra guaranítica. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1995.
  • TOURON, Lucía Sala de; TORRE, Nelson de la; ELOY, Rosa A.; RODRIGUEZ, Julio C. Despues de Artigas (1820-1836). Montevideo: Pueblos Unidos, 1972.

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Mário Maestri, 57, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net

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