
Levados a um arquipélago distante por navegadores no período colonial brasileiro, os animais sobreviveram durante séculos em isolamento e sem fontes de água doce perene; agora, a ciência estuda suas adaptações.
Anne Silva / Revista Forum, 06/01/2026 / Atualizado: 06/01/2026
Por mais de 200 anos, um rebanho isolado de cabras viveu na Ilha de Santa Bárbara, no Arquipélago de Abrolhos, ecossistema insular a cerca de 65 km do município baiano de Caravelas com apenas cerca de 1,5 km de extensão.
As cabras não são naturais dali. Foram levadas ao arquipélago no período colonial, segundo o Governo da Bahia, quando navegadores europeus introduziam espécies em ilhas remotas a fim de servir como fonte de subsistência durante suas viagens pelo litoral.
O curioso sobre as cabras de Santa Bárbara, no entanto, é que, além de sobreviverem durante séculos em completo isolamento, elas também não tinham acesso a qualquer fonte de água doce perene na ilha, como corpos d’água, lençóis freáticos ou rios.
Santa Bárbara, uma ilha oceânica sem fontes de água doce, é conhecida como uma espécie de “cerrado insular”. A vegetação é adaptada ao ambiente semiárido e escasso em água: a ilha é composta, majoritariamente, por suculentas, gramíneas e cactos.
No início de 2025, em uma operação coordenada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que recebeu apoio da Marinha do Brasil, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), 21 cabras do rebanho da ilha foram capturadas e levadas para análises no campo da Uesb, em Itapetinga, no sudoeste da Bahia.
A ideia era estudar as condições biológicas dos animais, a fim de entender sua adaptação ao ambiente da ilha e à vida sem contato com fontes hídricas perenes.
Para Ronaldo Vasconcelos, um dos pesquisadores que coordenou os esforços, do Departamento de Zootecnia da Uesb, os animais “devem ter, na sua genética, um componente que lhes permitiu essa sobrevivência. Esperamos que isso seja confirmado pela ciência”.
Esses potenciais marcadores genéticos podem revelar genes ou combinações de genes associados à eficiência no uso de água, resistência ao estresse hídrico e potencial reprodutivo em climas áridos, e podem ser relevantes para auxiliar na criação de caprinos em regiões semiáridas do Brasil, como o sertão nordestino, onde a cabra é uma importante fonte de alimento e renda, afirma o Governo da Bahia.
As instituições devem ampliar o rebanho em ambiente controlado, armazenar seu material biológico em bancos genéticos e, se comprovado seu potencial de resistência, usar sua genética para programas de melhoramento de rebanhos.
Segundo o ICMBio, além disso, a retirada dos animais segue um Plano de Manejo para a ilha instituído em 2023, cujo objetivo é promover a recuperação natural dos habitats insulares e reforçar a resiliência e o equilíbrio ecológico dessas áreas sensíveis.
