20 anos sem mudanças

Há exatos 20 anos, o jornalista Caco Barcelos ganhava o Prêmio Jabuti, na categoria Reportagem, pelo livro “Rota 66, a história da polícia que mata”.

A obra é fruto do trabalho de anos de investigação do repórter, que, com base em casos de “criminosos” mortos pela Polícia Militar do estado de São Paulo registrados a partir de 1972, concluiu que, entre as milhares de vítimas, a maior parte era inocente ou havia praticado furtos, muito embora a polícia alardeasse, a cada morte, que havia eliminado um criminoso “de alta periculosidade”.

No livro – que tem como ponto de partida o assassinato de um grupo de jovens de classe média de São Paulo, em 1975, resultante de uma ação supostamente equivocada de uma unidade das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) –, Barcelos mostra que as vítimas eram mortas mesmo sem apresentar qualquer tipo de reação: em quase todos os casos, estavam desarmadas e foram executadas à queima roupa, pelas costas ou fuziladas pelos policiais.

No entanto, nos boletins de ocorrência pesquisados pelo autor do livro, a versão dos policiais era sempre diferente. Nos autos, constava que as vítimas – as quais, mesmo já mortas, eram removidas do local do crime pelos policiais e deixadas nos hospitais a fim de dificultar as investigações – haviam sido alvejadas após terem iniciado o tiroteio, configurando o tradicional caso de resistência seguida de morte.

Duas décadas depois, o que se vê é que a PM paulista (apenas um exemplo do que acontece no restante do país) continua usando táticas semelhantes, avalizadas, claro, pelas autoridades, que fazem vistas grossas à criminosa atuação dos agentes públicos de segurança (!), cientes de que a população de classe média costuma bater palma para esse tipo de operação – afinal, são geralmente pretos, pardos e pobres das periferias os alvos dos policiais.

No último domingo (20/1), o programa Fantástico, da Rede Globo, veiculou reportagem sobre investigações que atestam que policiais de São Paulo montaram farsas para encobrir a execução de dois jovens inocentes, na periferia paulista. Mais uma vez, a versão dos policiais dá conta de que as vítimas é que atiraram primeiro. Mais uma vez, os PMs alteraram a cena do crime e chegaram até a fazer uma encenação para enganar o comando da corporação.

Resta saber se, mais uma vez, o processo será arquivado ou redundará na absolvição dos policiais, como aconteceu em quase todos os casos analisados por Caco Barcelos.

A reportagem do Fantástico pode ser acessada neste link.

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