20 anos de curso pré vestibular comunitário na Mangueira

Alunos do curso que encenaram a peça que relatou a história do projeto, no Centro Cultural Cartola, na comunidade da Mangueira. Foto: Arquivo AMV.

No último sábado (14) a Associação Mangueira Vestibulares (AMV) comemorou no Centro Cultural Cartola, no pé da comunidade, os 20 anos do curso pré-vestibular realizado na região. A fundação do projeto data do dia 13 de agosto de 1990, dia do aniversário de Fidel Castro, revolucionário ex-presidente de Cuba. A atividade contou com a presença de professores, alunos e parceiros da iniciativa, trazendo a sua história por meio de uma apresentação teatral, além de poesias e o jongo dançado pelas alunas.
O pré vestibular comunitário AMV foi um dos primeiros em todo o Brasil, hoje deve existir cerca de 100 projetos como esse espalhados pelo Rio, segundo os professores mais antigos. O pré vestibular comunitário foi idealizado por dois professores do Colégio Estadual Professor Ernesto Faria, utilizando um antigo auditório da instituição, que fica próxima à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Nivaldo dos Santos, morador da Morro da Mangueira que era professor de Matemática do colégio, e Carlos Alberto Nascimento, o “Carlão de Física”, no início divergiram em relação à gestão do projeto: o grupo que ficou foi o que manteve a gestão com a participação de todos, garantida até hoje, em assembléia com direito à voz e voto. À época direcionado para os alunos do colégio e aos moradores da Mangueira, o curso surgiu tendo como principais objetivos o ingresso dos alunos nas universidades públicas e a formação de lideranças comunitárias.
Segundo o relato de professores, no segundo ano do curso a Fundação Ford financiava o projeto, passando o dinheiro para um setor da Uerj, mas na renovação do contrato quis participar das discussões sobre as diretrizes da empreitada e foi descartado o apoio. Desde então o trabalho foi tocado voluntariamente, na militância, apenas com algumas contribuições de custo. Devido à falta de estrutura e atritos com a direção do colégio, graças ao convite de William Silva dos Santos, ex-aluno do AMV, o projeto a partir de 2002 passou a ter uma sede na Mangueira Comunidade em Atividade (MCA). Santos preside o estabelecimento, que fica perto à estação de trem da Mangueira onde são realizadas reuniões da comunidade, eventos e um tratamento de Alcoólicos Anônimos (AA).
A avó contando para a neta a história da AMV. Foto: AMV.

“Se no colégio a nossa participação era totalmente gratuita, embora tenhamos reformado parte da sala de aula, colocado quatro ventiladores, conseguido algumas carteiras, na Mangueira Comunidade em Atividade (MCA) colaboramos com R$ 100,00 mensais. Entregamos na forma de mercadorias para manutenção do prédio, lâmpadas, vassouras, desinfetantes, etc”, explica Marcos Faxina, um dos professores da AMV.
Depois de um entendimento interno, os alunos passaram a pagar R$ 10,00 por mês para a manutenção, xerox e etc. Mas os professores não ganham nada, só alguns que estão necessitando ganham a passagem. De acordo com professores mais antigos, os alunos são em sua maioria pobres e negros, moradores da Mangueira, poucos passaram pela rede privada de ensino, outros são de outras regiões, e pelas dificuldades no vestibular têm mais entrada em licenciatura na área de humanas.
O professor mais antigo no projeto, Leon Diniz, que dá aula há mais de 18 anos no AMV, afirma que com o ProUni o número de alunos diminuiu para 35 por ano, chegando ao final do curso aproximadamente 15 estudantes. Mas Diniz afirma que o pré vestibular da Mangueira tem seu diferencial, e já colocou mais de 150 alunos nas universidades públicas.
“Eu dou aula na Maré em pré vestibular comunitário, no Vive (Vila Isabel Vestibulares) [criado por um ex-aluno do AMV], na entrada do Morro dos Macacos, e em escola particular, no Ceat (Centro Educacional Anísio Teixeira). O que é muito legal na Mangueira é que hoje cerca de 80% dos professores são ex-alunos. É um processo em que poucos pré-vestibulares acontece, o aluno passa, se forma e volta para o curso”, afirma o professor de geografia.
No telão uma reprodução de um dos jornais feitos durante o curso da AMV, cuja sua história foi contada na peça teatral. Foto: Arquivo AMV.

Atualmente há mais de 20 professores no AMV divididos por equipes. O curso ocorre todos os dias das 19h às 22h, e realiza atividades extra classe para complementar o ensino: há 10 anos tem o “Domingo é dia de cinema”, no Cine Odeon; ocorrem visitas a acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST); visitas a museus, centros históricos, feiras culturais, etc, por exemplo. Desde a fundação do AMV são realizadas atividades em parceria com outros movimentos políticos, companhias de teatro, cinema e instituições, para o melhor andamento do projeto. O AMV já teve o grupo Mulheres de Atitude, para debater questões étnicas e de gênero que, apesar de extinto, ainda tem influência nas discussões do curso.
Na apresentação teatral realizada durante a festa, a avó conta para a sua neta a história do AMV, fazendo uma retrospectiva a partir do ano “Dois mil e X”. Começa com um jornal tendo em sua manchete de capa “Sociedade brasileira comemora o fim do último latifúndio”, além de citações de fim do racismo, homofobia e machismo. Na história é contado que havia um jornal feito no AMV, danças afro, cigana e jongo, exposição e concurso de poesias, etc. Os próprios alunos interpretaram as cenas, que em certo momento destacam em alto som “ocupar,resistir, produzir”. Ao final foi lembrado que há 20 anos o AMV luta pela igualdade.
Três cursos foram criados por ex-alunos do AMV, destes o Nova Brasília Vestibulares e a Associação Triagem Vestibulares (Atreve) fundados na década de 90 não existem mais. O Vila Isabel Vestibulares (VIVE), fundado em 1989 por Carlos Mãozinha, em uma instituição pública para deficientes (Funlar) localizada no Morro dos Macacos, até hoje atende estudantes. Um dos alunos do curso VIVE, Luis Asser, de 34 anos, destacou a importância dessas iniciativas.
“É um pré vestibular que está dentro da comunidade, eu vejo com bons olhos. Vejo pessoas transformando o seu modo de ver dando uma concepção crítica. Vale muito o projeto, e o governo quer acabar com isso. Tem que ter mais gente entrando na universidade, negros, pobres, nordestinos, ser um espaço aberto a todos”, destacou o aluno.
As alunas dançando jongo durante a festa com o professor Marcos Faxina, que já foi um dos coordenadores do curso. Foto: Arquivo AMV.

Leon Diniz acredita que “o curso existe porque as escolas públicas e particulares são horríveis. Brincamos que o nosso grande desejo é que a gente não precise mais da gente mesmo, uma autofagia. São duas coisas difíceis, uma é a entrada pra a faculdade e a outra é a entrada com qualidade para lutar por um mundo melhor, por uma faculdade melhor. Muita gente sai porque veem quais são os nossos princípios: somos contra a homofobia, contra o racismo, isso muitas vezes bate de frente com as igrejas, e tem muita gente de igreja, por exemplo. Algumas pessoas se assustam, mas a galera que fica eu acho que fica um ser humano melhor”, conclui o professor.
Veja um trecho do documento que define a linha que a AMV segue desde a fundação de seu projeto:
“Um movimento social, político, apartidário, de esquerda, que luta por uma educação pública, gratuita, transformadora, interdisciplinar, de qualidade e não mercadológica, que se foca principalmente na luta pelo acesso à Universidade Pública por jovens e adultos historicamente excluídos, trabalhando continuamente a conscientização política, visando elevar o nível de criticidade de todos, buscando, para tanto, diversos espaços de construção do conhecimento para seus militantes dentro e fora do movimento”.

11 comentários sobre “20 anos de curso pré vestibular comunitário na Mangueira”

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  2. Olá Eduardo, sou Jorge ex-aluno e atualmente professor de História Geral e da África no AMV. Parabéns pela reportagem, sintetizou bem este significativo momento de existência da nossa AMV.
    Kagiso= Paz em Sotho, uma das lingua da África do Sul.

  3. Camada Eduardo, reentero meus agradecimento junto aos companheiros da AMV. Você relator momentos e vivencias mais que significativas na minha vida e de muitos que por passaram e muitos, como vem relatado pelo um dos nossos querido educardor Leon, continuam a fortalecer essa corrente de ensinamento e partilhamento de informação.
    Aos meus Querid@s, valeu mesmo por fazerem parte da minha vida!!!

  4. Parabéns a todos. Adoraria ter estado com vcs nessa comemoraçao. Ah! eu sou a màe dos filhos do já falecido Prof. Nivaldo J. Costa. O MV esteve em seu coraçao a té o fim.

  5. Sílvia,
    Já havia lido a matéria (Eduardo realmente fez uma bela reportagem), e ao ler novamente vi sua mensagem.
    Seria um prazer muito grande tê-la na festa, mas será ainda um grande prazer conhecê-la.
    Quando puder, apareça lá na AMV.
    E Eduardo, este convite é extensivo a você também.
    Quando puder, apareça para nos revermos.
    Aliás, a tod@s que queiram conhecer nosso projeto.
    Abraços Bolivarianos (Grande Jota Jota!)
    Marcos.

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