2 de julho: o imenso palco dos movimentos sociais da Bahia

Condenação aos critérios anti-populares dos preparativos para a Copa de 2014 foi uma das dezenas de campanhas que arrastaram milhares de pessoas pelas ruas de Salvador. Foto: Jadson Oliveira.

Reivindicações, protestos e campanhas as mais variadas. Tem de tudo, ou quase tudo, na grande manifestação de rua que constitui a festa do 2 de Julho, a data cívica em que os baianos comemoram a independência da Bahia, ou melhor, a consolidação da independência do Brasil – 2 de julho de 1823 (mais informações abaixo). Da Lapinha ao Terreiro de Jesus, passando pelo Pelourinho, no centro da cidade, são mais ou menos três horas – das 9 da manhã ao meio-dia – de um desfile que reúne milhares de pessoas e dezenas de movimentos sociais/populares, temperado com muita alegria, muito colorido e muita música.
É um imenso palco por onde passam políticos, sindicalistas, militantes de causas as mais diversas, jovens escolares, integrantes das belas e ruidosas fanfarras e curtidores dos mais variados matizes. A variedade e irreverência das manifestações podiam ser notadas logo no Largo da Soledade, na Lapinha, antes mesmo de se iniciar o desfile: ao pé da estátua de Maria Quitéria, heroína das batalhas travadas contra as tropas portuguesas, uma jovem exibia o sugestivo cartaz: “Só faço por $ e quando quero”. E logo juntinho duas faixas, uma defendendo a descriminalização do aborto e outra reclamando: “Obama, liberte os 5 heróis cubanos”, referência aos cubanos que denunciaram a preparação de atos terroristas contra seu país e foram presos e condenados como terroristas pela Justiça dos Estados Unidos.
A figura do caboclo no cortejo simboliza a participação popular na guerra para expulsar as tropas portuguesas. Foto: Jadson Oliveira.

Isso é só uma pequena mostra do que se podia ver no sábado, no 2 de Julho deste ano, da Lapinha ao Terreiro de Jesus: cobrança sobre o assassinato do sindicalista Paulo Colombiano (era diretor do Sindicato dos Rodoviários) e sua esposa, há um ano sem qualquer elucidação; professores da rede estadual cobrando do governador Jaques Wagner o pagamento de diferenças salariais originadas da URV quando da adoção do Plano Real (1994); professores das universidades estaduais criticando duramente o mesmo governante petista também por questões salariais.
E mais: a defesa de um Comitê Popular da Copa, para proclamar que a Copa do Mundo de 2014 é preparada só levando em conta os interesses de corporações empresariais, de “popular” mesmo somente a expulsão de pobres de suas moradias e, claro, a torcida da nossa Seleção; um “não” à Usina de Belo Monte e um “sim” ao Comitê Baiano pela Verdade, na luta pela aprovação da Comissão Nacional da Verdade para passar a limpo os crimes de lesa humanidade da ditadura brasileira (1964-1985); e houve, como todos os anos, os blocos dos partidos políticos, que são mais incrementados nos anos eleitorais (o do PT, capitaneado pelo ex-governador Waldir Pires, e o do PCdoB marcaram forte presença); e etc, etc, como disse, é apenas uma pequena mostra, porque do contrário a matéria viraria um relatório.
Uma data cívica baiana ou brasileira?

O ex-governador Waldir Pires (ao seu lado o deputado Emiliano José) liderou o grupo de militantes do PT. Foto: Jadson Oliveira.

Esta é a parte que poderíamos chamar de popular. Na parte mais oficial, logo antes do desfile, no Largo da Lapinha, houve o hasteamento de bandeiras com a participação do governador, do prefeito de Salvador, João Henrique (alvo também de muitas críticas durante o cortejo) e do presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo. Após o desfile, no início da tarde, há uma cerimônia na frente da Câmara de Vereadores, na Praça Municipal. E a partir das 3 horas da tarde, o desfile é retomado – já sem a maciça presença popular – rumo ao Campo Grande, para onde são conduzidas, finalmente, as duas carroças que ostentam as figuras do caboclo e da cabocla.
Tais figuras representam o detalhe mais genuíno da luta dos baianos, sob a chefia do general francês Labatut, para expulsar os portugueses depois do chamado Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, que vem a ser a data consagrada oficialmente como da independência do Brasil. O caboclo e a cabocla simbolizam a participação das camadas pobres, incluindo escravos, indígenas e vaqueiros, na guerra contra os portugueses.
Os indígenas, assim como escravos, caboclos e vaqueiros, formaram entre os soldados que expulsaram as tropas colonizadoras. Foto: Jadson Oliveira.

Foi talvez a única ocasião em que o povo pobre brasileiro pegou em armas para lutar contra o opressor e resultou vitorioso. Em outras lutas marcadamente populares – como a Guerra de Canudos na Bahia (1896-1897), liderada pelo beato Antônio Conselheiro, a Revolta dos Malês (1835), também na Bahia, as rebeliões dos escravos fugidos, a exemplo da de Zumbi dos Palmares – os rebeldes em armas foram literalmente exterminados. (Claro que depois do triunfo contra os portugueses os “caboclos” voltaram ao seu lugar, ou seja, voltaram à marginalização, e os escravos voltaram a ser escravos).
Essa tal consolidação da independência na Bahia, 10 meses após o suposto grito de Independência ou Morte, atribuído ao então príncipe Dom Pedro, pelo que me consta, só é conhecida pelos baianos. No resto do país, o 2 de Julho termina ficando na memória nacional como mais uma manifestação da folclórica inclinação dos baianos para a festança. Para ilustrar: a hoje senadora Lídice da Mata (PSB-BA) – por sinal sempre presente na festa, como no sábado último – era deputada federal quando o nome do aeroporto de Salvador foi mudado de “2 de Julho” para “Luis Eduardo Magalhães”. Consta que ela teria comentado sobre a dificuldade de argumentar contra a mudança de nome, porque os ilustres congressistas seus colegas simplesmente desconheciam de que se tratava esse tal “2 de Julho”.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está na Bahia. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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