Violência perto de nós

A notícia do jornal foi lacônica: jovem de dezoito anos assassinado a tiros. Não foi o único homicídio em João Pessoa naquele dia, houve outros quatro.

Só que eu conhecia o jovem de dezoito anos. Compartilhei com ele o Evangelho, o recebi em minha casa e o encaminhei a uma igreja. Bom menino, doce e meigo, mas infelizmente tinha se envolvido com drogas.

No Brasil morrem cerca de 40.000 pessoas assassinadas por ano. A maioria são jovens moradores em grandes centros urbanos, vítimas de uma violência perversa e inconseqüente. Morrem em brigas, acerto de contas, balas perdidas e confrontos com a polícia.

A gente sabe disso, mas fica assustada quando acontece perto da gente. E se pergunta o que está acontecendo.
Deus já não é relevante, e quando aparece na religião tudo dele é acomodado para não ferir a sensibilidade dos adeptos. Não se fala de pecado, de arrependimento, de juízo, de mandamentos e de valores e crenças absolutas. Tudo é diluído para manter o projeto religioso, muitas vezes comandado por estelionatários e adúlteros travestidos de pastores.

Na sociedade civil vemos uma deterioração da família, o casamento já não é mais para toda vida, e as paixões iniciais não resistem ao teste da vida real no quotidiano. Filhos crescem sem os pais, a escola não forma cidadãos. Tudo tem seu preço, tudo está à venda, o valor pessoal está nos símbolos de consumo e de status. A competição é feroz, pois construímos um mundo onde não cabem todos e muitos serão excluídos. O poder público dá mau exemplo, na corrupção e na impunidade.

O cenário internacional também não ajuda. Vivemos uma crise econômica resultante da ganância perniciosa de alguns. A perspectiva é de recessão e desemprego.
Neste cenário nossos jovens perdem-se sem valores, sem esperança, sem ideais. Abrimos os jornais e vemos o noticiário da TV e decididamente as notícias não são boas.
Cheguei arrasado no cemitério. Fui um dos primeiros e o menino estava só na capela, arrumado e florido do jeito que foi possível, pois recebera muitos tiros inclusive no rosto.

Sentei-me ao seu lado. Respirei fundo. Eu sabia que teria que falar algo na hora do sepultamente e fiquei ali orando e vendo as pessoas chegarem. Sua mãe que esteve sempre ao seu lado, seu pai que veio de longe. Alguns amigos, gente jovem estudantes, alguns adultos amigos de seus pais que olhavam assustados para outros jovens, de bermudão camisa colorida, gorro enterrado na cabeça.
Chegou a hora de falar. Outro pastor disse algumas palavras antes de mim. E eu ali pensando que eu vou dizer. Respirei fundo e orei.

E comecei a falar do meu coração a partir da minha própria perplexidade. Dirigi-me especialmente aos pais.
Sim, vamos invocar a Deus porque sem ele não dá para enfrentar esta barra. Mas afinal onde está Deus numa hora destas? Lembrei-me que face à morte Deus chora. Cristo chorou quando seu amigo Lázaro morreu. E chorou no Getsanami angustiado frente a sua própria morte. Lembrei de Deus o Pai e seu coração dilacerado, sem intervir na hora do assassinato de seu filho de trinta anos. Sim, Deus sofre com nossas mortes, se importa e chora. Há lágrimas de lamento e luto no céu.

Quando cheguei naquela capela um sentimento de derrota tomou conta do meu coração. Perdemos, eu disse ao outro pastor. O inimigo ganhou desta vez. Senti uma leve brisa acaricia o meu rosto e diante da sacralidade daquele momento, percebi que Jesus Cristo estava entre nós. E estava. Ele escolheu morrer a nossa morte, se identificar conosco na dor, na tortura e morrer uma morte cruel nas mãos de uma liderança religiosa corrupta e forças militares de ocupação perversas.

Ao morrer ele retorna a vida e ressuscita no terceiro dia. Naquela hora no domingo Deus dá sua resposta definitiva: o mal, a morte, o pecado e o demônio não têm a última palavra. A última palavra é dele, a vida triunfa sobre a morte!

Lembrei-me que aquele menino tinha ouvido o Evangelho e dava sinais de mudança em sua vida. E que certamente o Senhor teria misericórdia dele e o ressuscitará no último dia para vida eterna com ele.

Fechamos o caixão e fomos em procissão seguindo um carro funerário até o local do sepultamento. Naquele momento fui renovando minha esperança.

Sepultamos o menino. E eu voltei para casa sentindo dores no corpo como se tivesse levado uma surra. E no fundo do meu coração fazendo um voto de continuar lutando pelo respeito à vida, envolvendo-me em ações que minimizem o mal e promovam os valores do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

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