
Esta história, um pouco hilária, porém, trágica, Lara Lu me contou quando fazíamos faculdade. Demorei a acreditar que pudesse ter ocorrido algo assim com minha amiga, ainda adolescente. Pois não é que havia acontecido mesmo! Só acreditei porque a própria Lara me assegurou ser tudo verdade. Vejam só o que me contou…
“Início dos anos setenta. Preparava-se o desfile cívico de 7 de setembro. Eu me sentia tão feliz, tão alegre com aquele traje verde e amarelo e, na minha santa ingenuidade, não entendi quando o professor de educação física, responsável pelo nosso pelotão, repreendeu-me na frente de todos e em plena rua, alegando que eu deveria cantar igual a todo mundo. Ainda me lembro, como se fosse hoje, da música e da história do coração:
– “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul, anil.
Eu te amo, meu Brasil, eu te amo.
Ninguém segura a juventude do Brasil”
Tudo começou quando inventei de adaptar o canto, com algumas inovações, trocando as cores e dizendo que o meu coração era vermelho. Nunca imaginei que isto daria tanta confusão!
– “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!
Meu coração é vermelho, e cor de brasa é o Brasil…”
Nem cheguei a concluir os versos, menina! E que confusão danada que foi! Eu não entendia de jeito nenhum por que o professor ficara tão nervoso. Recordo até hoje aquele grito e aquela repreensão, ele chegando perto de mim e esbravejando:
– Ei, mocinha, o que é você está cantando aí?
– Ah! …O quê?
– O que você estava cantando aí, heim? …
– Eu cantei “Eu te amo, meu Brasil”. Por quê? Não pode?
– Não se faça de sonsa! E o que você cantou depois? … Eu ouvi, todo mundo aqui ouviu, suas colegas ouviram. Você está maluca, em pleno 7 de setembro, a gente preparando o pelotão para o desfile cívico aqui no meio da rua e você cantando isso aí? Você quer acabar com a gente? Quer arrasar o colégio é? – é que havia prêmio para o colégio que fizesse o mais bonito desfile.
– Ô, professor, e não pode cantar Eu te amo, meu Brasil?
– Pode sim, não pode é cantar a outra parte!
– Que parte?
– Essa aí, do coração vermelho…
– Mas o coração da gente não é vermelho, professor?
– Psiu! Pelo amor de Deus, fique calada! Até calada você está errada!
E falando bem baixinho no meu ouvido:
– É, é vermelho sim, mas você não pode dizer isso aqui, ouviu? Você tem que cantar igual a todo mundo: Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil.
– Cantar, eu canto, mas, na verdade, meu coração é vermelho, e o de todo mundo também é! O seu não é, professor?
– Retire-se do pelotão, você está suspensa e será chamada à diretoria, menina atrevida!
Saí dali envergonhada, confusa, pensativa… Eita! E agora? O que diria a meus pais, que haviam feito o maior sacrifício para comprar aquela roupa verde-amarela, diferente do habitual uniforme escolar? Sempre fora considerada uma excelente aluna, ótimas notas, bom comportamento. Não! Suspensão, não era bom nem pensar!
Fim de semana tenso, agoniado; finalmente, chega a segunda-feira: primeira, segunda, terceira aula, tudo tranquilo. Intervalo. Ai que bom! Esqueceram de mim, esqueceram de tudo, graças a Deus! Quarta aula começa, coração na mão, quando entra a secretária e convoca:
– Aluna Clara Lúcia, comparecer urgentemente à diretoria.
Gelo total. Medo. Olhares. Suspense. O que aconteceu?…
E na diretoria:
– Clara Lúcia, o que foi que deu em você? Que rebeldia foi essa? Você, que sempre foi tão estudiosa e comportada, é até presidente do Centro Cívico! Tumultuando o desfile, colocando o professor e o colégio em maus lençóis! Não nos resta alternativa, a não ser uma suspensão para que sirva de exemplo e ninguém mais tenha a ousadia de falar nesta escola o que você falou em plena rua!
– Só porque eu disse que meu coração é …
– Silêncio! Nunca mais fale essa palavra, quer dizer, essa cor.
– Mas, Dona Célia, com todo respeito, o coração é …
– É, mas não pode dizer!
Saí cabisbaixa. Acho que essa raiva da diretora é porque o colégio não conseguiu o prêmio. Só pode ser! Eu não acredito que seja por causa dessa confusão de coração vermelho.
Recordo que houve muito choro em casa. Minha mãe não aceitava de maneira nenhuma aquela suspensão, afinal, eu era uma aluna estudiosa e dedicada. Não! Não era possível uma coisa daquelas. Era preciso ir ao colégio, urgentemente. E assim minha mãe o fez.
– Pode entrar, Dona Maria da Luz. A diretora já está lhe esperando.
– Bom dia, Dona Daluz! O que deseja?
– Desejo saber por que minha filha foi suspensa. O que foi que ela fez?
– Ela não lhe disse?
– Falou num tal de coração vermelho. Não entendi nada!
– Psiu! Por favor, fale baixo, Dona Daluz, os tempos estão difíceis! Por favor entenda, tivemos que cortar o mal pela raiz, para que os outros alunos não saíssem por aí fazendo, aliás, dizendo a mesma coisa. O que sua filha falou, ou melhor, cantou, não pode cantar, não pode falar.
Mamãe diz baixinho:
– Que o coração é vermelho?
– Sim. E se eu fosse a senhora, que também é professora, não andaria por aí falando isso não!
– Mas, meu Deus, que absurdo, por que isso agora? Quer dizer que se pode falar até em sangue azul, mas em coração vermelho não se pode falar, é isso mesmo que entendi?
– É isso mesmo, Dona Daluz! Nestes tempos, não! Entende?
E agora? Mamãe também saía dali sem entender nada e preocupada com o que diria ao meu pai, afinal de contas, ele tinha o direito de saber por que a filha tinha sido suspensa. À noite, em casa, foi difícil para mamãe explicar a papai o motivo da minha suspensão.
– Daluz, que negócio é esse? Não poder dizer que o coração é vermelho? Que maluquice é essa?
– Psiu! Cala essa boca, José! As paredes têm ouvido! Isso é perigoso! Não brinque com isso não!
– Mas o coração não é vermelho mesmo, ora bolas?
– É, mas não se pode dizer, entendeu? Nunca mais fale nisso aqui, ouviu?
No dia seguinte, quando papai saía para o trabalho:
– Pai, Larinha já tava inventando aquelas histórias dela, dizendo pra gente que foi suspensa porque falou que o coração era vermelho. Que mentira, né, pai? Onde já se viu não poder dizer que o coração é vermelho? E tem outra cor de coração?
– Cala essa boca, menino, pelo amor de Deus, ou você apanha agora mesmo, está me entendendo?
– Não tô entendendo nada. Ô pai, mas o coração da gente não é vermelho mesmo não?
– Claro que é, mas não se pode falar nisso, ouviu? E não me pergunte por quê! Eu também não estou entendendo nada, nadica de nada!
Tempos difíceis, meu Deus! A verdade é que somente uns dez anos mais tarde, após entrar na universidade e ler obras consideradas proibidas para aquela época, Lara pôde, finalmente, entender por que não se podia falar em “coração vermelho”. Perplexidade, indignação, revolta, choro, pois a essas alturas o país já estava bastante encharcado de muito sangue e muita lágrima. A vida, jogada debaixo de um tapete auriverde estrelado, ia se avermelhando cada vez mais… Tempos de dor, anos difíceis.
Hoje, compreendemos melhor aquele “vermelho da confusão” que, na verdade, não era o problema; o maior problema era, e ainda é outro: o “vermelho dá confusão!”. O mais incrível de tudo isso é que, mesmo agora, após trinta anos e em pleno século vinte e um, continua surpreendente, inacreditável – e muito assustador – falar nesse tal de “coração vermelho”; pior ainda – e bem mais perigoso – é admitir e declarar que se tem um. Alguém aí se arrisca? Quem?…
Pery-Açu
Bananeiras-PB: setembro de 2013
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
