É difícil, no mês de março, deixar de olhar para o passado que a ditadura cívico-militar deixou na historia argentina. Uma herança de mentira, medo, terror, infâmia, cumplicidade, traição. A mentira começa com a fachada que a ditadura adotou, dizendo que vinha salvar a Argentina do comunismo, da subversão, da esquerda. Não havia tal esquerda, comunismo, nem subversão, a não ser a criada pelo próprio regime, ao se infiltrar em grupos revolucionários e protagonizar atentados, assaltos, roubos. A OPS/OMS publicou um estudo chamado A saúde mental no mundo, em fins dos anos 1990, onde joga luz sobre as razões e a metodologia to terror de Estado usado não apenas na Argentina, mas também no Uruguay, Chile, etc.
A repressão na Argentina, como em outros países, assinala o estudo da OPS/OMS, visava muito mais a grande massa da população, que não tinha qualquer alinhamento político-ideológico, sindical, de militância, etc. A matança, sequestro, tortura e desaparição de pessoas — que era mostrada como a cara boa do regime, vieram salvar a Argentina da subversão comunista – inclui um vasto número de civis que apareciam como mortos por acaso ou por engano. Não houve engano nem acaso. A ditadura na Argentina, como nos demais países onde se implantou o terrorismo de Estado, objetivava cancelar qualquer atitude de protesto ou de autonomia frente à exploração capitalista. Criou-se tal estado de insegurança e confusão na população, que o regime conseguiu reinar sem oposição durante anos a fio.
O regime criou uma cisão na sociedade argentina, uma grande massa que o apoiava, por aquiescência ou por terror, e outra parcela da população que os temia mas não tinha como se opor ou resistir. Depois da queda da ditadura, no governo de Raúl Alfonsín, muitos militares foram julgados e condenados, embora o governo Menem os tenha indultado a muitos deles. Hoje, o cabeça maior da repressão e dos delitos de lesa humanidade, o general Jorge Rafael Videla, diz que faria tudo de novo, enquanto os processos contra outros participantes do genocídio, em várias províncias argentinas, se arrastam com uma morosidade que somente se explica pela cumplicidade de um aparato judicial inteiramente corrompido e cúmplice. O estudo da OPS/OMS citado, pergunta cómo poderão as populações submetidas ao terror de Estado, superarem as consequências da desmoralização.
A pergunta é pertinente. Passados tantos anos de um genocídio que não teve tribunais internacionais de justiça nem intervenção da ONU, para impedir ou deter o massacre em um país signatário de todos os tratados internacionais sobre Direitos Humanos, a pergunta que se faz é, também: que ordem internacional é esse? O dinheiro pode tudo. Tudo, não? Algumas coisas, muitas coisas. Mas não pode matar a sede de verdade e de justiça que se levantam como um clamor cada vez que, na Argentina, é recordado o sacrifício dos inocentes perpetrado pelo exército com as bênçãos da Igreja católica, enquanto milhares de cristãos e de cristãos eram trucidados sem piedade. A democracia tem muitos defeitos, mas a ditadura não tem virtude alguma, e a menos que se encare o futuro com coragem para punir o genocídio ocorrido na Argentina entre 1976 e 1983, haverá o risco de que uma atrocidade desse vulto, possa voltar a se repetir. É algo que a humanidade não pode se permitir.
