Verdade e conveniência

“A unanimidade comporta uma parcela de entusiasmo, uma de conveniência e uma de desinformação”.

A frase acima é de Carlos Drummond de Andrade, que, em toda sua genialidade, foi capaz de chamar atenção, de modo sucinto e contundente, para uma questão para lá de complexa: a produção de verdades.

Trata-se de um tema particularmente espinhoso não só por envolver uma discussão abstrata, que problematiza algo que está longe de ser uma pauta assídua em mesas de bar e afins, mas por ser perigosamente provocativo. Afinal, questionar verdades significa mexer com respeitados e adorados arcabouços do saber que, há milênios, servem de referência para a humanidade, como a tradição, a religião e a ciência.

Se “entusiasmo” e “desinformação” são aspectos aparentemente mais tangíveis no âmbito dessa discussão – pois é consenso que a coletividade afeta a libido humana e a ignorância repele qualquer tipo de avaliação mais profunda por parte de um indivíduo –, a questão da “conveniência” como elemento balizador de verdades parece se situar num nível um pouco mais difuso.

Para começo de conversa, trata-se de um aspecto altamente subjetivo, pois o que é bom para uns, pode não o ser para outros. Em segundo lugar, é muito difícil uma pessoa admitir que acredita em algo simplesmente porque isso lhe beneficia de alguma forma ou a mantém em uma zona de conforto, seja porque não quer dar o braço a torcer ou, o que é mais provável, porque isso sequer se situa em seu plano consciente.

Hipóteses à parte, o fato é que nosso mundo é, em grande parte, construído sobre e sob verdades convenientes (o que não quer dizer que vivamos em um mundo da fantasia. Nossa realidade nada mais é que um grande conjunto de representações baseadas em estímulos naturais filtrados por nossos sentidos. Portanto, há de haver, sim, algum nexo com o que é física e quimicamente “real”).

Um exemplo banal a respeito desse assunto pode ser extraído do resultado de um estudo publicado esta semana em uma revista científica. A pesquisa concluiu que o hábito de beber mata mais que o de fumar, ao constatar que os homens alcoólicos que participaram do experimento apresentaram taxa de mortalidade quase duas vezes maior que os fumantes, ao passo que as mulheres alcoólicas, um índice 4,6 vezes superior que as fumantes.

Qual o porquê de tal resultado ter estampado tantas páginas de jornais?

O destaque certamente decorre do fato de que, embora o hábito de fumar seja cada vez mais defenestrado pela sociedade – vale lembrar que, além das recentes restrições a fumantes em determinados espaços públicos, o estímulo ao consumo por meio de propagandas foi proibido há tempos no Brasil, e, há alguns anos, as fabricantes de cigarros são obrigadas a manter nas embalagens de seu produto fotos e textos descrevendo os efeitos negativos da droga -, o uso do álcool continua sendo amplamente estimulado em comerciais que alvejam principalmente o público jovem, além de muito bem aceito em praticamente todos os círculos sociais.

Isso não obstante todos os evidentes e corriqueiros problemas do alcoolismo, que, não raro, leva não apenas o usuário à morte ao destruir seu organismo, como, indiretamente, pessoas que jamais ingeriram tal substância, tais quais vítimas de acidentes causados por motoristas bêbados.

Isso sem contar o incalculável prejuízo causado a um sem número de famílias que já foram arrasadas devido ao uso abusivo de álcool por parte de um pai ou mãe. Quantas crianças já não foram criadas em ambientes familiares degradantes em função desse problema? Os exemplos são muitos e já bastante conhecidos pela sociedade.

Ora, não poderiam estas pessoas ser categorizadas como alcoólatras passivos, em alusão ao fumante passivo, que já motivou tantas restrições ao cigarro?

A favor do álcool, porém, contam fatores como a tradição, dado que a substância é utilizada há centenas de anos pela humanidade – inclusive em rituais religiosos – e, principalmente, seu efeito altamente socializador.  Aspecto este que move não só a própria indústria de bebidas, como a de entretenimento, um dos pilares centrais de nosso sistema capitalista: festas, festivais, shows, boates e espetáculos de todos os tipos não seriam, para muita gente, o mesmo sem o consumo de cerveja e destilados.  É realmente difícil (e desconfortável) imaginar um coquetel da alta sociedade sem finíssimas bebidas ou uma festa de réveillon sem champagne…

Por outro lado, drogas menos glamourosas, como o cigarro, que deixa as pessoas mal cheirosas e com os dentes e bigodes amarelados, e a maconha, que não oferece nenhum grande estímulo socializador ou consumista, são prontamente discriminados pela sociedade.

Qual a real motivação para essa diferença no tratamento de tais entorpecentes? Seriam razões científicas, históricas, ideológicas?  Preconceito ou ignorância?

Verdade ou mentira, para o bem ou para o mal, a motivação é, no final das contas, apenas uma: conveniência.

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