Vandana Shiva e Fred Magdoff defendem a agroecologia como saída à crise ambiental

mesa vandanaO meio ambiente tem sido um dos principais temas em debates promovidos pelo campo popular e progressista no cenário mundial. Na tarde de anteontem (22/06) no I Festival Internacional da Utopia, em Maricá (RJ) os ativistas ambientais Fred Mgdoff, dos Estados Unidos, e a indiana Vandana Shiva falaram sobre os principais problemas que envolvem o tema. Ambos criticaram o modelo de produção agrícola em grande escala e defenderam a agroecologia como prioridade para um desenvolvimento sustentável e alternativo ao modelo hegemônico.
De acordo com Fred Magdoff, acadêmico norteamericano autor de diversos livros, o sistema capitalista tem como prioridade produzir e obter lucro enquanto as questões sociais e ambientais são consideradas externalidades. Por isso é importante discutir o que produzir e de que forma, já que o modelo tem por natureza o incessante crescimento embora não resolva os problemas da pobreza, complementou.
“As mudanças climáticas é uma das maiores batalhas contra o meio ambiente, mas temos muito mais como as poluições da água, do ar e dos organismos vivos. Uma das explicações mais comuns sobre esse problema é que existe muita gente no mundo, mas vemos que o problema é que há poucas pessoas ricas consumindo demais”, disse.
O estudioso deu como exemplo os grandes monocultivos de soja e milho no Brasil e Estados Unidos como fatores de forte impacto ambiental em relação ao atual modelo de produção. Isso faz sentido para a economia capitalista, mas é totalmente ilógico do ponto de vista ecológico e social. Por isto, atentou o ativista, é preciso pensar quais oportunidades temos de mudar as coisas nesse momento para tornar a sociedade mais justa e saudável ecologicamente.
“É um círculo vicioso. Não há justiça social sem uma sociedade saudável com o meio ambiente preservado. É preciso outro modelo social, cultural e político para gerar e manter a prosperidade desses ecosissitemas de forma suficiente para todos. No capitalismo não há dinheiro e produção suficiente, precisamos definir de forma democrática esses limites e pensar nas necessidades básicas de todos”, afirmou.
O aprofundamento da democracia, segundo Magdoff, se dá a nível local com pequenos grupos tomando decisões e fornecendo informações objetivas para o desenvolvimento. “Precisamos pensar o processo produtivo junto aos trabalhadores para regular de maneira consciente a relação dos seres humanos com a natureza e manter o ambiente limpo, saudável e plenamente funcionando. Realizar esforços de educação para estimular as qualidades humanas, não o egoísmo, o individualismo e outros aspectos do capitalismo. Podemos produzir muitas colheitas com a agroecologia, por exemplo, com uma alimentação saudável e limpa para a população com o esforço das comunidades”, concluiu.
vandanaEstamos vivendo momentos distópicos e a realização de eventos como o Festival para pensarmos juntos outras formas de desenvolvimento é necessária, destacou a ativista indiana Vandana Shiva. Ela fez uma crítica contundente ao colonialismo, lembrando a espoliação dos europeus nas Américas, na Ásia e na África, e seus respectivos impactos ambientais. Ao se referir à crise no Brasil, ela afirmou que a democracia no mundo inteiro tem sido subvertida e é uma crise geral das instituições.
“Mas nada pode ser desmoralizado nessa distopia atual, os direitos das pessoas, a vida do planeta, questões ambientais, a crise hídrica como na Índia que é a pior da nossa história. Essa agricultora que destrói o solo, e só produz commodities”, alertou.
Muitas das guerras das últimas décadas, segundo ela, embora apresentem questões religiosas pela mídia internacional têm a revolução verde como pano de fundo na medida em que muitas das armas utilizadas têm substâncias dos fertilizantes e agrotóxicos modernos.
“Passaram a usar uma tecnologia chamada verde para acabar com a revolução vermelha. Centenas de crianças ainda nascem com deficiências e doenças espalhadas. De um lado os químicos criaram coisas para matar pessoas, e os fertilizantes para criar explosivos. São bombas com substâncias de fertilizantes, e todos os pesticidas estão relacionados aos gases que mataram judeus em campos de concentração. Não importa a família da substância, sua base está na guerra. Então, na nossa utopia temos que nos livrar dessas substâncias”, defendeu.
Vandana também é a favor das sementes livres como um bem comum, e criticou o monopólio da Monsanto que as modifica geneticamente e detém suas propriedades. Milhares de agricultores foram forçados a se matar por conta da pressão e o preço das sementes em seu país, disse. “Querem criminalizar práticas saudáveis, mas não vão conseguir interromper todo esse processo sustentável de economia criado por Gandhi. Quando iniciamos o movimento de salvar as sementes desobedecemos às leis, mas não conseguimos criar nenhuma e estão criminalizando. É preciso defender a verdade da vida humana, organizar assembleias para essa questão e usar as cortes. São criadas super pestes, as ervas daninhas são cada vez mais poderosas, então tudo isso leva a um sistema cada vez pior”, alertou.
Conhecida por seu combate aos transgênicos, Vandana também criticou as monoculturas que devastam os territórios e não alimentam a população. Para ela, é preciso romper com a insanidade colonizadora, patriarca e dos combustíveis fósseis que impera há mais de 200 anos para potencializar a agroecologia como alternativa ao modelo dominante.
“Existe a fome, e países estão produzindo com subsídios altos e nos mandando um alimento com nível de proteína muito menor. As pessoas estão sendo privadas de mais de um bilhão de toneladas de plantas vegetais, e os solos são devastados e roubados com monoculturas de pouca duração. Assim como a devastação das florestas e da água com esse modelo de energias fósseis. Disseminamos a agroecologia em fazendas na índia, medimos a nutrição por acres e produziram tanto que podia alimentar o país inteiro. Fizemos nossos próprios custos da agroecologia e vimos que quando os agricultores tomam o controle das suas sementes e exploram o mercado produzem e têm uma alimentação melhor. O colonizador não é a utopia”, concluiu a ativista.

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