Uma radiografia das carceragens da delegacia civil no Rio

Cine Clube num dos coletivos da 37ª DP, em Duque de Caxias. Foto: Arquivo Kalil.
Cine Clube num dos coletivos da 59ª DP, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Foto: Arquivo Kalil.

Funcionam hoje 17 delegacias com carceragens da Polícia Interestadual do Rio de Janeiro (Polinter), até 1999 todas mantinham presos em suas instalações. Nesse período o Projeto Delegacia Legal entrou em vigor, e aos poucos as carceragens foram fechadas e outras delegacias abertas com novos equipamentos e procedimentos. O governador do Rio, Sérgio Cabral, declarou publicamente que até o final do primeiro semestre de 2011 todas as carceragens da polícia civil serão extintas. Segundo as informações da página da Secretaria de Obras Públicas do estado, em 7 anos o governo construiu 11 casas de custódia, com capacidade para 6.084 vagas.
O delegado Orlando Zaccone, responsável pelo controle dos presos das carceragens da Polinter desde março de 2009, afirma que em média são presos por dia em torno de 70 pessoas e 300 são transferidos ou soltos por semana; a maioria por infrações relacionadas com drogas. Conforme as delegacias legais são criadas, modernas e sem carceragem, as antigas vão se tornando base da Polinter. E uma Coordenadoria de Controle dos Presos está monitorando o processo, através de parcerias com a defensoria pública e outras entidades. Estão ocorrendo mutirões, de modo a agilizar as documentações para o alvará dos presos que já eram para estar em liberdade ou serem transferidos às casas de custódia, que são tuteladas pela Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). A relação com os detentos também mudou, há mais diálogo e aproximação. Toda sexta-feira a Seap abre vagas para os presos da Polinter, mas não resolve a superlotação nas delegacias.
Só para se ter uma ideia, numa casa de Custódia para você abrigar 500 presos o terreno tem de ter 10.000m², pois não é só onde o preso vai dormir: tem o espaço do estudo, da refeição, da visita, da assistência jurídica, do banho de sol, etc. Tudo isso está previsto em lei, mas nada é possível numa carceragem de polícia por falta de espaço. Existem hoje (levantamento oficial da Polinter no dia 1º de março) 3.464 criminosos presos, dentre eles apenas 285 mulheres. Todos estão discriminados em 6 segmentos, alguns deles facções criminosas: Comando Vermelho (CV), Amigos do Amigos (ADA), Terceiro Comando (TCP), Seguro, Faxina, Pensão Alimentícia.
Na base do Grajaú, zona norte do Rio, está sendo testada uma nova experiência. Uma das mudanças que foram feitas, além do limite de 150 presos na carceragem, é de estarem prendendo de acordo com uma classificação por crimes. Vão chamar de crimes contra o patrimônio público e sem violência – furto, apropriação indébita, estelionato, receptação, etc. A expectativa é de se criar uma diferenciação entre crimes cometidos com violência e sem violência. Estão realizando um trabalho junto com a defensoria pública, fazendo com que os presos possam responder em liberdade a partir da Polinter, sem precisar passar pelo sistema penitenciário. A Polinter está começando a criar espaços com novas classificações, mas ainda não tem uma solução para a inserção dos presos na hora da transferência para as Casas de Custódia.
A igreja é a instituição mais que mais presta serviço nas carceragens, com orações quase todos os dias. Foto: Arquivo Kalil.
A igreja é a instituição que mais presta serviços, por meio de orações todos os dias, nas carceragens do Rio de Janeiro. Foto: Arquivo Kalil.

“A divisão de facção dentro da Polinter é um reflexo da divisão de facção dentro do sistema. A Seap diz para a gente quantas vagas ela tem, e as vagas que são abertas por ela são feitas em cima desse perfil, então não adianta eu não querer classificar por facção. Eu acho que isso foi uma comodidade do estado, no sentido de ter maiores facilidades para administrar os presos. Gera problemas, porque você vai acabar colocando em perfil de facção preso que não está nesse perfil, que eu diria que é a maioria. É necessário ter divisão por facção, não há dúvida, mas somente para aqueles que estão realmente vinculados às facções. Porque essa divisão não foi feita dentro do estado, foi feita pelo mercado”, explica Orlando Zaccone.
De acordo com Cesar Rubens Monteiro, secretário da Seap, a distinção dos presos ao ingressarem nas carceragens visa à manutenção do bom convívio e segurança dos detentos. Mas ele pondera que há estabelecimentos que acautelam presos de todas as facções.
“Qualquer preso em qualquer ambiente você vai sempre fazer uma seleção da forma que seja a convivência mais segura. Você divide torcida de time de futebol, pessoas que têm determinado segmento de crença, então isso é uma convivência que você tem de buscar que ela seja mais harmoniosa possível. Tem comunidades que já estão identificadas, não há como você fazer uma ruptura imediata disso. Mas temos unidades que têm todo tipo de facções. O Brasil adota um regime de maior segurança para aquele que está acautelado, se você sabe que uma pessoa corre mais risco num determinado grau de exposição você tem que adotar isso”,  afirma Monteiro, responsável pela Secretaria de Administração Penitenciária.
A reportagem visitou um coletivo de Comando Vermelho, outro de Terceiro Comando (que foi fechado posteriormente, e a conversa foi tão breve a ponto de não ter possibilidade de realizar uma descrição) e um Seguro, além do feminino, e fará o relato dos seus respectivos funcionamentos. Tudo muda rápido e permanentemente nas cadeias da Polinter, portanto o que segue é apenas uma espécie de radiografia.
A CARCERAGEM MASCULINA NAS DELEGACIAS
Cada delegacia tem sua peculiaridade, que implica nos procedimentos internos. O Fazendo Media visitou algumas vezes quatro delegacias, buscando entender como elas funcionam por dentro por meio dos depoimentos dos presos, funcionários e a cúpula. Acompanhamos Rafael Kalil [veja o seu trabalho], músico que trabalha com projetos sociais nas carceragens desde 2006 e intermediou o contato com os presos. Atualmente ele exibe filmes num projetor para os presos.
Questionado sobre o perfil dos presos, o delegado titular da Polinter, Orlando Zaccone, defende que é impossível processar, condenar e julgar todos que praticam crimes, até porque não teria espaço nas cadeias. Então o sistema trabalha com uma seletividade, que acaba atingindo diretamente as classes populares. Isso se dá pela vulnerabilidade do crime, quanto mais tosco e menos sofisticado mais fácil de identificá-lo, afirmou. É mais fácil, exemplificou Zaccone, prender um garoto com certa quantidade de drogas e rotulá-lo como traficante a alcançar a base econômica desse negócio indo até a lavagem de dinheiro. Esse é o perfil das pessoas envolvidas no relato a seguir, baseado na linguagem que elas usam para se comunicar.
Coletivo de Comando Vermelho
A 59ª DP, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, foi a primeira carceragem visitada. Depois de passar pela sala da cúpula da delegacia, em frente à cela da “pensão” (presos por não pagarem pensão alimentícia) vem a “tranca” (porta das grades) central, controlada pelo “faxina” (preso que trabalha de funcionário, por boa conduta e confiança, sob redução de pena – 3 dias de trabalho, menos 1 da sentença, fim de semana não conta). Colada na cantina, ela abre caminho para duas “galerias” (espaço onde ficam as celas): o “convívio” (dentro das galerias, onde os presos ficam), de cada lado tem 10 celas, 5 embaixo e 5 em cima, com um vão central na parte inferior de ambas. Cada cela tem um “boi” (buraco no chão, o sanitário), e a tv, ventilador, rádio, ficam por conta dos presos, afora o ventilador central, no “hall” (espaço depois da “tranca”, que divide os andares), que fica aberto para as celas. Água, só da pia, o único serviço do estado é a alimentação que chega duas vezes ao dia: 11h e 17h, o resto se compra na cantina ou consome-se o que a “visita” levar.
Corredor que da acesso às celas na galeria da facção Comando Vermelho, na 59ª DP, em Duque de Caxias. Foto: Arquivo Kalil.
Corredor que da acesso às celas na galeria da facção Comando Vermelho, na 59ª DP, em Duque de Caxias. Foto: Arquivo Kalil.

No primeiro contato da reportagem, no lado esquerdo ficava o “coletivo” (organização do convívio) da facção comando vermelho, no direito embaixo o terceiro comando e em cima o seguro (onde ficam os neutros, estupradores, homossexuais, matadores, presos expulsos por alguma “vacilação” no convívio, milicianos, etc…). Só pude entrar depois de prévia autorização do representante do coletivo ao passar minha “visão” (propósito) da visita. Quando voltamos na semana seguinte, não havia mais terceiro comando, o espaço recebeu mais presos de comando vermelho. De acordo com o levantamento da Polinter de 1º de março, existem 337 presos na unidade.
Eles se organizam com um comitê central, cada cela tem seu representante, e o representante geral do coletivo dá a ordem depois de se reunir com os representantes das celas. Tudo é acatado, sem questionamento. A relação com o faxina e a cúpula é de desconfiança, espécie de inimigo, qualquer aproximação do preso ele “vai ser cobrado” (sanções por desacatar a norma) no coletivo. Três ficam no “hall”, intermediando com os “faxinas” as entradas e saídas de mantimentos. As tarefas de higiene são distribuídas pela cúpula. A maioria dorme em redes, com prioridade aos mais velhos, distribuídas por todos os lugares: o “forrô” (rede enrolada, fica como uma almofada durante o dia) é pessoal. O silêncio é total quando o auto-falante comunica algo: “lili” (liberdade, o alvará), transferência de presos, horário de visita. Os presos que saem de liberdade, deixam as suas coisas para os “mais caidinhos” (pessoas que não têm família, sem nenhum dinheiro, muitos deles “cracudos” – viciados em crack). Ao escurecer, na hora do “confere” (os faxinas dão uma geral, fiscalizando as celas), eles cantam a sua oração, com os lemas do comando vermelho, que é padrão em todas as cadeias que tem essa organização.
Os presos, para quebrar o ambiente de ócio, podem jogar futebol aos domingos. O jogo rola no vão entre as celas, três na linha pra cada time, dois tempos de 4 minutos para todos jogarem; teve um campeonato recentemente, os times foram divididos por “área” (região onde o preso mora ou tem afinidade), assim é como eles se identificam. Na comunicação interna, para se dirigir a alguém, falam alto: “e o fulano, heim?”. O ping pong é a novidade, a mesa é armada duas vezes na semana, durante poucas horas. Tirando essas iniciativas duramente conquistadas, algumas por influência do Kalil, há o carteado e xadrez para passar o tempo, além do cine-clube uma vez por semana. Qualquer tentativa de fuga destrói a confiança, perdem todas as conquistas.
As igrejas vão todos os dias, durante várias horas, pregar a palavra de Deus. Todas são católicas ou evangélicas, nenhuma africana. Em respeito, os presos vestem as camisas quando chegam os pastores. É frequente a sessão de descarrego, fazem fila. As visitas dos familiares e amigos têm dia e horário certo, distintas por cela e facção. Todas são revistadas juntas numa cela aberta, antes de encontrarem os presos. A visita íntima é feita no “parlatório” (quartinho para esse fim). Os “faxinas” dormem numa sala separada, ou no “parlatório”, e também trabalham na cantina, limpeza ou administração. Tudo muda constante e rapidamente, qualquer projeto tem de ser planejado a curto prazo. Kalil está começando a gravar o cd de Alexandre Braga, preso que está potencializando suas idéias através do rap, tem a expectativa de uma ONG holandesa viabilizar a iniciativa.
Superlotação, inalubridade e mortes na Polinter em Neves. Foto: www.marcelofreixo.com.br
Superlotação, insalubridade e mortes na Polinter em Neves. Foto: http://www.marcelofreixo.com.br

Em Neves, na 73º DP, no município de São Gonçalo, o buraco é mais embaixo. Na delegacia tem dois “coletivos”, um de comando vermelho, que visitamos, e outro de seguro. O mesmo regime dos coletivos, e a mesma engrenagem da delegacia: cúpula ordenando, e “faxinas” articulando com os representantes. Neves está respondendo a uma representação na Corte Interamericana de Direitos Humanos, acionada por uma defensora pública carioca, por causa de violações aos direitos humanos no local. O principal problema é a superlotação: a capacidade é de no máximo 350 pessoas, e tem quase o dobro de presos na cadeia, 656.
O clima é pesado, cheiro horrível, ar denso, o calor infernal, dezenas de presos numa cela que não tem 10m². Volta e meia tem um passando mal, a temperatura chegou a 55º no “convívio” neste verão. Foram instalados dois ar-condicionados, parece que não existem, não dá vazão. O “hall” antes era fechado, não tem vão central, a tranca das celas agora fica aberta dando um pouco mais de espaço aos presos na galeria. É tão apertado e quente, que eles estão dormindo na sala das visitas, deitam juntos no chão de “valete” (alternando, um com pé na direção da cabeça do outro). Foi nesse lugar que passamos o filme Che Guevara, para quatro celas, surpreendente: mesmo legendado, a maioria dos presos ficou em silêncio olhando atentamente. Kalil disse que há muito tempo não conseguia isso. Antes de instalar o projetor, a “visão” foi passada e o representante deu o chamado de ordem para todos respeitarem a exibição.
“A situação de Neves é muito ruim porque a estrutura física do prédio é uma das piores que nós temos na polícia, lá era um estábulo que foi transformado em local para guardar pessoas. Não tem espaço para banho de sol, falta luz, falta ar. Por conta dessa representação a gente conseguiu, junto à Secretaria de Segurança, licitar uma obra para tentar criar um local de banho de sol dos presos. É o mínimo que você pode vislumbrar em termos de obrigação do estado para manter uma pessoa presa”, destacou Zaccone.
Coletivo de Seguro
A 64ª DP, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, é uma delegacia modelo no Rio de Janeiro, afirmaram alguns policiais e presos. Dentre as carceragens visitadas, é notável essa diferenciação. Os presos não sofrem nenhuma discriminação por facção ou crime, são todos neutros, juntos nas mesmas celas, por isso chamam de Seguro os coletivos. Vai de estuprador e homossexual ao traficante, passando pelos milicianos e os que “pulam”(pedem para sair do coletivo de facção).
Antes de descer para o convívio, Mario Mello, chefe da custódia, apresentou os projetos na delegacia. Em novembro iniciou o ABC da Carceragem, projeto proposto por três “faxinas” inquietos com o ócio a que todos estavam relegados. A proposta foi acatada pela cúpula da DP, que conseguiu apoio da secretaria de educação do município no fornecimento de um professor (de pré-vestibular) e do governo federal (Projeto Brasil Alfabetizando) com os livros didáticos. É a primeira delegacia no Rio que tem um projeto de alfabetização. Estão inscritos, por iniciativa própria, 60 dos 460 presos, outros estão na lista de espera. As aulas são separadas em 3 turnos, com 2 horas de aula: português, matemática, literatura e poesia.
“Eu só vou tocando e eles desenvolvem, acho que é muito válido esse tipo de trabalho. O interesse, os sonhos, tem alunos já dizendo que vão procurar escola lá fora, é o ponta pé para eles tomarem o gosto”, destacou Célio Rosa dos Santos, professor responsável. Ana Lucia Ribeiro, subchefe da 64ª DP, falou sobre a dificuldade em arrumar professor que se disponha a entrar numa delegacia para dar aulas e lembrou que há encaminhamentos de alunos para colégios quando eles “ganham a liberdade”.
Nesse mesmo projeto há atividades esportivas. Mandaram fazer dois gols (1,80m x 2m), usados para jogar futebol no vão central (5m x 4m) de cada uma das duas galerias. Colocam dois na linha e um no gol, às vezes tem campeonato entre as galerias: “ritmo frenético”, comentou um faxina. Há auxílio médico toda sexta-feira, com apoio da Secretaria Municipal de Saúde: fazem exames de sangue, tem odontologia e clínica geral, alguns atendem familiares dos presos também. Os católicos e evangélicos vão três vezes por semana orar com os presos.
A biblioteca (Professor Darcy Ribeiro) tem uma quantidade razoável de livros, alguns presos lêem. Ana colocou três computadores na biblioteca, a idéia é ampliar e viabilizar para alguns presos a fim de terem noções básicas de informática. Todo o material descrito foi arrumado pelo “caixinha” (dinheiro) que os coletivos coletam toda terça-feira no rateio, junto com a delegacia através da cúpula e suas parcerias.
Falta a legenda ainda. Foto: Arquivo Kalil.
52ª DP, em Nova Iguaçú, Baixada Fluminense. Foto: Arquivo Kalil.

Essa estrutura fica em cima, junto à sala da administração. Na parte de baixo vem as galerias, uma de cada lado, com a cantina e sala de visitas no meio. São 10 celas na 64ª DP, cinco de cada lado, numa média de 110 pessoas em cada. Uma das celas é muito maior que as outras, pela estrutura da delegacia, onde ficam os representantes e suas “contenções” (auxiliares). Não tem cheiro de cadeia, rabiscos na parede, e o chão é todo azulejado. Fabrício Oliveira (33), representante de uma das galerias, foi apresentado pelo chefe da carceragem e relatou o funcionamento interno: a relação entre a cúpula e o representante é aparentemente boa, sem intermediação do “faxina”. O diálogo é permanente, disseram ambas as partes.
Há um freezer central usado, que foi comprado em prestações com o “caixinha” (rateio dos presos). Duvidando de que a água era gratuita, o representante esclareceu: “Meus amigos (chamado de ordem para os demais), alguém aqui paga água? Não”, responderam vários presos do coletivo. Em todas as celas há ar condicionado, televisão, dvd, chuveiro elétrico, nalgumas até geladeira: por ser maior, na cela dos representantes tem 3 ar condicionados (R$ 200,00 cada), ventilador, 3 Tv’s, uma delas de 29’’, etc. Desconfiado com tanta diferença em relação às outras cadeias, o máximo que soube foi boatos de que o dinheiro para tudo isso também vem do poder dos milicianos, além do “caixinha” e parcerias da cúpula. Todos dormem em redes, presas próximo ao teto das celas. Os artigos mais recorrentes, disse o representante, são 155 (furto) e 314 (estupro). Não há nenhum preconceito ou tratamento diferenciado no coletivo, todos são tratados com respeito. As “pagas” (tarefas) são distribuídas pelos representantes, segundo a disposição de cada.
É tudo limpo, as celas são lavadas duas vezes ao dia. Quando chega alguém, o primeiro passo é tomar banho com protex, sabonete que combate doenças de pele, para não contaminar os presos. Cada cela tem seu representante, liderança natural que se dá no dia-a-dia, e o representante geral da galeria é indicação do chefe da custódia. Mario Mello, disse que escolhe pelo biótipo, forma de falar, e boa conduta. A disciplina é uma exigência, como a utilização do “bate” (cinzeiro) para higiene, o “medita na família” (silêncio) quando “cai o balão” (apaga a luz à meia noite). Não pode ocorrer agressões físicas no convívio, dentre outras regras. Ninguém tenta fugir nem promove motim, essa é a chave dessas “regalias” que os presos conquistaram. Fabrício disse que já houve dia em que entrou furadeira nas celas para realizar obras, e não teve problemas, tal o grau de confiança estabelecido.
“Aqui se diferencia de outras delegacias porque não tem facção, preza pela higiene, e nós fazemos bom uso do dinheiro arrecadado. Essa é uma questão de gestão, tudo o que o coletivo aprova e nos é passado pelos representantes é atendido. Só pede para sair daqui o cara que nunca foi preso,” afirmou Mario Mello, que tomou a frente da 64ª DP no ano passado.
CARCERAGEM FEMININA
Uma das atividades musicais na 73ª DP, carceragem feminina em Mesquita, na Baixada Fluminense. Foto: Arquivo Kalil.
Uma das atividades musicais na 53ª DP, carceragem feminina em Mesquita, na Baixada Fluminense. Foto: Arquivo Kalil.

Visitamos a 53ª DP, em Mesquita, na Baixada Fluminense, a mais cheia do Rio de Janeiro, que por ser feminina tem as suas singularidades. As mulheres não se dividem por facção, é um coletivo só, sem cela. Muda constantemente, numa média de 150 presas, espalhadas no convívio. Dormem todas no chão, amontoadas. O estado não fornece nada, além da marmita tudo é doação dos familiares ou de igrejas (remédio, absorventes, pasta de dente, sabonete,etc.), afirmou a delegada Fátima Cristina dos Santos. Tudo o que os visitantes levam, recebe o “pente fino” (fiscalização), mas nada fica unitilizável.
A comida chega às 10h e 16h, e depois de uma hora fica fria e azeda, disseram as presas. Muitas bebem a água da bica, tudo é pago na cadeia: “aqui só não é pago o alvará”, afirmou uma delas. A delegada está com projetos para ampliar os serviços, quer instalar numa sala que já está pronta uma assessoria jurídica e estimular as presas às atividades: pintura, mexer com flores, bordado e dar mais recursos ao artesanato como um todo. A idéia é expor tudo numa feira, no quintal da delegacia, que está ocioso e até agora não foi permitido utilizá-lo. Não usam por causa, em grande parte, dos moradores no redor da DP: o lucro, pretende reverter para os projetos das presas.
A organização se dá pela “monitora”, eleita coletivamente. As “faxinas” circulam pela delegacia, só não passam da “tranca” para a rua. Fora o vídeo que Kalil passa uma vez por semana, só o artesanato e o carteado quebram o ócio do “convívio”. E as igrejas, todos os dias, por uma hora, cada uma faz o seu culto. A monitora distribui as tarefas, como limpeza, segundo as habilidades e força de vontade de cada uma das detentas.
Mônica Granete (35), atual monitora, foi quem colocou o trabalho de renda na delegacia. Ela manda vir através da visita os panos, rateia o material, e coloca algumas meninas para trabalhar: apenas 10 mulheres fazem renda, num total de 150 na época. Cada uma recebe do que produz, o lucro é pequeno, tirando o da monitora, pois não têm aonde vender a mercadoria. Todas aprenderam sozinhas, poucas estão dispostas a ensinar às demais para não perderem o privilégio, a maioria se virou para quebrar a rotina: “a pior coisa da cadeia é que eles botam 150 mulheres sentadas o dia inteiro, ou o culto toda hora, é só orar. Tá todo mundo ansiosa, essa rotina que enjoa a gente”, disse Ângela Melo (52), uma das presas.
Poucas mulheres recebem visitas, ao contrário dos homens ficam esquecidas. E não tem visita íntima na 53ª DP. Segundo Fátima Cristina dos Santos, responsável pela 53ª DP, “o que eu mais senti quando fui trabalhar com o feminino é que as mulheres entram mais no tráfico, por causa de namorado ou marido, quando estão juntas ou levando a droga para os presídios. Ficam abandonadas, às vezes têm familiares, e todo preso é carente mas a mulher é mais. Elas necessitam de atenção, ameniza o sofrimento delas”, destacou.
“O problema da feminina é que a mulher precisa ter determinados cuidados que o homem não precisa, então a carceragem da polícia civil acaba sendo para as mulheres um pouco pior por falta dessas condições físicas e estruturais que existem”, afirma Orlando Zacone.
De acordo com uma das coordenadoras do Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher (CEDOICOM), Neusa das Dores Pereira, a tendência mundial é de aumento do encarceramento feminino.
“No Rio são em sua maioria negras, pobres, jovens, mães, com baixa escolaridade, envolvidas com o comércio de drogas, e não têm acesso a exames nem atendimento ginecológico ou de pré natal, além da inexistência de berçários nas instalações”, observou Neusa.
Algumas têm filhos, quase não os vêem. Uma jovem contou que tem um filho de 5 meses, um de 3 anos e outro de 5, não tem contato com a família há meses. Em alguns casos, as crianças ficam sob tutela do estado.  As “kikitas” (doenças – venéreas, micose, sarna, furúnculo…), é outro problema, além da menstruação que precisa de um tratamento diferenciado do masculino. A grande maioria está presa por furto ou tráfico de drogas, todas economicamente desfavorecidas.
O Delegado Orlando Zacone levou o juiz Marcos Augusto, do Fórum de Nova Iguaçu, para fazer uma fiscalização e ver as condições das presas em Mesquita. A delegacia foi interditada, ficou estabelecido que só pode ficar encarceradas 100 presas no local, onde chegou a ter 170. No dia 05 de março foram transferidas 30 presas para a cadeia de Magé, também na Baixada Fluminense, que foi reaberta. Outras foram encaminhadas para casas de custódia ou “ganharam liberdade”.
Kalil, além dos filmes, já realizou atividades musicais como funk e pagode. As presas adoram, dançam, muda o astral do ambiente. Em geral, o filme logo é tirado, elas mesmas escolhem o que preferem. No natal de 2009, uma banda animou a carceragem, as visitas levaram presentes. Passadas as festas, voltaram para a angústia de serem esquecidas pela sociedade sem nenhuma possibilidade de se reabilitarem.

9 comentários sobre “Uma radiografia das carceragens da delegacia civil no Rio”

  1. Pingback: Tweets that mention :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » Uma radiografia das carceragens da delegacia civil no Rio -- Topsy.com

  2. É preciso acabar com as carceragens de delegacia e reformar o sistema penitenciário afim de oferecer meios e ferramentas para que todos tenham opções para progredirem como seres humanos e cidadão melhores e mais conscientes do seu papel e importancia na sociedade

  3. Devemos evitar que nossos pares´possam ir para a cadeia, prevenindo o crime atraves da boa formação familiar, educacional e religiosa. Não devemos esquecer àqueles que fracassaram em sua formação por causas multiplas, não os deixando então entregues à própria sorte de suas mentes já mal formadas. Trabalhemos com inteligência sua recuperação. Trabalho para eles como fator de dignidade. Liberem os policiais civis para seus serviços de investigação e deixem os agentes prisionais em melhores condiçoes de exercerem sua dificil labuta. Obg.

  4. Qual será o destino do fundo penitenciario??
    Comida podre, café estragado, pão dormido, e etc..
    Qual será a intenção do Estado?? reconstituir, ou regredir??

  5. A triste situação dos piores presídios do Rio de Janeiro. Criminosos amontoados, doentes e amedrontados vivem a violência da vida no cárcere. Infelizmente eu tive a oportunidade de apreciar de perto esse Estado de calamidade.
    • O sistema Penitenciário no RJ, é realmente uma vergonha, com toda certeza irei apresentar denúncias à OEA e ONU, contra a Secretária de Administração Penitenciaria do Estado do Rio de Janeiro.

  6. e uma vergonha as carceragem de todo o rio de janeiro.sao criminosos,mais sao ser humanos.como tem vitimas presos por erro da policia, delegados e advogados mal informados.dormem no chao com bichos,um buraco pra suas necessidades.em fim o governo tem que ver isso.nem todos sao criminosos,pagando por coisas que nao fez. e a midia inventam assuntos que nem sabem e vao botando nos jornais sem entrevistar o suspeito,acusado e o inoscente..sao uns mentirosos atraz de promoçoes,as custas do sofrimento dos outros,principalmente quem nao deve.sou contra a pena de morte no brasil,muitos inoscentes iam pagar por crimes que nao cometeram.a policia quer se mostrar pra dizer que e o cara,eles sao piores que os bandidos. bandido e bandido e todos sabem disso.a policia ninguem sabe.sao bandidos fantasiados de policia pra dizer que e policia.sao uns cambadas de desgraçados.delegadas e delegados tambem.sao todos iguais.odeio a policia,por mim e por muita gente podem morrer todos.

  7. poe uma ong com professores nas cadeias,onde os presos podem aprender artes,ler, escrever,aprender um pouco de cada coisa.ao inves de maltratar, ensina as coisas boas.a cadeia no brasil e uma desgraça,ao inves de melhorar os presos pioram.sao tratados como uns bichos.pelo menos camas deveria ter nas prisoes em mage,vila isabel em todas as prisoes.tem gente que fica preso por ter roubado um pao, um saco de arroz.bandidos mesmo estao em brasilia,nos altos condominios de luxo.o governo ta se linchando,eles querem e dinheiro e o resto que se danem.se preocupam com ganancia deles..chegam as delegacias de vila izabel,mage feminino,e outras,nao esquecendo de bangu.voces verao a tristexa que sao.entrevistam todos os presos e ouçam suas historias, as verdadeitas historias.nem todos sao criminosos.tem muito inoscente,vao la e compreovem

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