
O projeto da Marinha do Brasil em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) transformará a Base de Fuzileiros Navais da Ilha das Flores, situada na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em um museu a céu aberto dedicado à memória da imigração, que receberá o nome de Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores.
A Ilha foi por quase um século (1877-1966) uma hospedaria de imigrantes que chegavam ao porto do Rio de Janeiro. Segundo o historiador responsável pelo projeto, Henrique Mendonça, a ideia é contar o período que contemplou os 100 anos de atividades na Ilha.“Nosso objetivo é pensar a imigração a partir do ponto de vista do Rio de janeiro. O modelo de exposição do museu terá como foco este período, abordando o seu espaço físico através de uma linha do tempo”, ressalta Henrique.
Mas a Ilha também abriga um passado sombrio e ainda pouco conhecido, comandado pela Marinha entre os anos 60 e 70, ao manter presos políticos naquele local praticando bárbaras torturas. Ao ser questionado sobre este fato, o historiador afirmou que este não é o foco do projeto, mas que o Cento de Memória contemplará informações sobre os períodos prisionais dentro da Ilha. “As dependências prisionais na Ilha das Flores eram postas por decreto”, afirmou.
A Ilha também serviu como presídio durante a Revolução Constitucionalista de 1932, o Levante de 1935 e durante a Segunda Guerra Mundial. A historiadora Maria Fernanda Magalhães Scelza, que tem trabalhos de pesquisa de graduação e mestrado sobre a memória e identidade de ex-presos políticos da Ilha das Flores durante o regime militar de 64, alegou que existem indícios de tortura na Ilha durante a Segunda Guerra Mundial por conta da existência de um campo de concentração. “Naquele contexto histórico, como poderia existir um campo de concentração sem que tivesse tortura?”, questiona Maria Fernanda.
Ilha das Flores: Centro de Tortura da Marinha antes do DOI-CODI
Após o Golpe de 1964 a Ilha funcionou como um centro de tortura da Marinha coordenado pelo comandante Clemente José Monteiro Filho, segundo muitos relatos um dos maiores torturadores da Ilha. A historiadora Maria Fernanda relatou que as torturas e as prisões funcionaram até o início dos anos 1970, sendo transferidas para o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), localizado na Barão de Mesquita, na Tijuca, Rio de Janeiro. Este órgão de tortura, centralizado pelo Exército, tinha um caráter mais truculento do que o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Outra pessoa que também confirmou este fato foi o economista Luiz Carlos de Souza Santos, preso na Ilha das Flores no dia 7 maio de 1969, encaminhado pelo Centro de Informações da Marinha (CENIMAR). “O DOI-CODI trouxe para os torturados a dificuldade de não conhecerem seus torturadores. Enquanto nós, presos pelo DOPS, conhecíamos todas as pessoas que nos torturaram”, disse Luiz.

Ao falar sobre as ações da repressão, Luiz explicou que a mudança no procedimento da tortura se deu após o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. O caso começou quando a Marinha noticiou para os grandes veículos de comunicação, entre os meses de julho e agosto de 1969, o extermínio do MR-8, organização política de resistência à ditadura militar na época. Mas, em setembro de 1969, o sequestro do embaixador Elbrick com a carta que exigiu a libertação dos 15 presos políticos foi assinada como MR-8 /ALN trouxe à tona a falsa informação de extermínio do grupo. “Isso deu um nó na cabeça da repressão, e foi com esse intuito mesmo, pelo fato da Marinha ter veiculado que o MR-8 estava dizimado. A partir deste dia ficou evidente que as forças armadas estavam perdidas, pois eles até este momento não se comunicavam. Depois disto a tortura ficou por conta do DOI-CODI e alguns presos foram saindo da Ilha, que continuou um depósito de presos políticos”, relatou Luiz.
Maria Fernanda também confirma a falta de comunicação entre as forças armadas.“Tiveram entrevistados meus (ex-presos políticos) que respondiam processos pela Marinha, Exército e a Aeronáutica por diferentes ações”, concluiu.
Como era a prisão na Ilha das Flores?
O procedimento prisional da Ilha das Flores durante o regime militar comandado pela Marinha utilizava métodos truculentos. Segundo a historiadora, o sujeito capturado pela repressão passava pelo CENIMAR para ser fichado, onde já existia um critério de divisão do preso. Um deles era a solitária, uma prisão sem registro, onde o sujeito era colocado para a sociedade civil como desaparecido, o que permitia à Marinha torturar por tempo indeterminado até que sua prisão fosse oficializada. A solitária servia também para que os presos oficiais (registrados pela forças armadas), que tinham acesso a visitas de familiares (conhecidos como presos comunicáveis) não soubessem da existência de pessoas que eram barbaramente torturadas. “Através dos familiares os presos comunicáveis denunciavam o que acontecia dentro da Ilha, principalmente para a imprensa internacional. Porém, apesar de ser mais difícil pelo fato de receberem visitas, os presos comunicáveis ainda recebiam torturas”, concluiu Maria Fernanda.
A tortura
Apesar do ambiente bucólico, a Ponta dos Oitis era o local onde havia a prática de tortura. O nome foi dado por causa da existência de muitas árvores de Oitis na ponta geográfica da ilha. Era uma casinha onde bárbaras torturas aconteciam.
Luiz Carlos relatou que a partir do dia 26 de maio de 1969 os militares montaram um esquema de tortura na Ilha com o apoio da Polícia Federal e o DOPS, além de um conhecido Comandante Oficial de Marinha, chamado João Alfredo Magalhães (codinome Mike). Mike, junto com o inspetor do DOPS, Solimar Adilson Aragão, o Comandante Clemente José Monteiro Filho e os agentes da Polícia Federal do Paraná, montaram um centro de tortura. Neste local apareceram depois outros presos que não eram ligados diretamente ao grupo do sequestro do embaixador americano, como a AP – Ação Popular. Humberto Trigueiros, também preso na Ilha em 1969, confirma a mesma versão “Eu vi pessoas que estavam presas na Ilha das Flores por motivos sem fundamento. Não se pode formar um Centro de Memória da Imigração sem que se resgate essa parte da nossa história”, concluiu.
Os militares se escondiam com nomes falsos
Após o fim da Ditadura Militar e com a abertura parcial de arquivos, Luiz teve acesso a informações sobre os seus torturadores e denunciou um deles, o Mike. Através da Auditoria da Marinha, Mike constava como João Alfredo Poeck. Mas, na verdade, Poerk era um outro militar da Marinha. Ao descobrir mais detalhes sobre o seu torturador, Luiz observou que este nome foi uma estratégia usada pelo próprio Mike, a fim de esconder sua identidade. “Em um encontro com o jornalista Álvaro Caldas, ao conhecer pessoalmente o Poerk, vi que ele não era o meu torturador. Expliquei ao verdadeiro Poerk o motivo de minha denúncia, que era o nome que tinha chegado até mim pela auditoria de Marinha. Depois disso chegamos facilmente ao João Alfredo Magalhães”, disse Luiz.
Arquivos fechados ocultam o Direito à Memória e à Verdade

“Como falar da memória de um espaço prisional feita por ex-presos políticos sem que se tenha uma ideia do que seja este espaço? O máximo que consegui foram fotos da hospedaria dos imigrantes”, alegou Maria Fernanda, que afirmou ter muita dificuldade de encontrar documentos e ter acesso à Ilha. Outra situação que oculta a história da Ilha é o fato dos arquivos do CENIMAR ainda permanecerem fechados, fazendo com que as únicas fontes documentais para a realização de sua pesquisa sejam as fotos do Serviço de Documentação da Marinha. O trabalho de monografia da historiadora foi sobre a visão dos ex-presos políticos na Ilha, e o seu mestrado teve o foco no exílio, cujo tema foi o Partido da Ilha das Flores, um grupo de exilados políticos da Ilha trocado pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.
Ao solicitar esclarecimentos sobre o porquê de o projeto abordar somente o período que vai até 1966, já que existem informações ainda não esclarecidas sobre prisões e torturas comandadas pela Marinha entre 1964 até meados dos anos 70, o Comando da Tropa de Reforço da Marinha da Ilha das Flores respondeu que o projeto está pautado basicamente na imigração. Quanto ao sigilo dos arquivos do CENIMAR, o comando orientou ao Fazendo Media procurar o Ministério da Defesa. Após ligações e e-mails para a assessoria de comunicação social do Ministério, desde o dia 22 de novembro, não obtivemos nenhuma resposta.

Pingback: Tweets that mention :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » Uma outra história sobre a Base de Fuzileiros Navais da Ilha das Flores. -- Topsy.com
O museu poderia fazer um projeto em memória das vítimas do socialismo no mundo, e mostrar ao povo o projeto que esses ‘torturados’ queriam e ainda querem para o Brasil! E ainda sim, completar com a história dos foragidos políticos fugidos do Leste Europeu que encontraram paz e liberdade no Brasil, dentro da Ilha das Flores, por sinal!
Quando comecei a ler a matéria, deu a impressão de que discorreria sobre um museu a céu aberto da Marinha. Mas, felizmente, o autor provavelmente fixou os olhos no céu e por meio dele deu a volta no tempo rumo a um nebuloso passado de torturas que ficaram marcadas na memória como o assassinato em série da democracia, ou melhor, dos que tentaram defendê-la.
Muito se fala em torturas no quartel da PE da rua Barão de Mesquita no Rio de Janeiro,não sei qual o interesse disto tudo ser evidenciado sem muita ou nenhuma prova por pessoas intituladas historiadores (as), digo isso porque servi nesta unidade em 1964/65 e afirmo nunca ter visto ou sabido por outros militares de qualquer tortura ou coisa parecida que la tenha ocorrido, e vejam que o quartel era minúsculo e desta forma qualquer anormalidade seria fácilmente percebida por qualquer militar que la estivesse, muito pelo contrário, vi sim muitos presos politicos inclusive estrangeiros que aqui estavam para implantar o regime comunista que felizmente o exército Brasilero sábiamente soube controlar e cuidar muito bem disso tudo , eram tratados muito bem;por sinal,liam jornais,,revistas, ótima alimentação, banho de sol diariamente boa cama e roupa lavada, tratados muito melhor doque efetivamente mereciam. Aí então foram os militares chamados de DITADORES ao invés de governo militar necessário para salvar a pátria, acho que se fala muita estória, deveriamos sim é agradecer e não pixar quem salvou o Brasil de uma desgraça, que sabe Deus como estaríamos hoje não fosse a interferência chamados ditadore.
Pingback: :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » ”A ditadura não foi uma loucura feita nos quartéis: ela teve respaldo em setores da sociedade civil, empresários. Isso não está muito esclarecido”
hoje tenho 7.5 só tenho boas lembranças dá ilha fddas frores, pois meus tios trabalhavam lá nos anos quarenta. minha
infancia foi ótima lá!!!! eu pescava muitos
camarôes com a mão. meu tio trabalhava
de cozinheiro e morava com a familia lá.
hera maravilhoso!!!! tenho só uma foto, do
meu tio, e eu com sete anos la na ilha. das frores que guárdo com maior carinho.
eu queria muito ter mais fotos antigas de lá. já foi muita sorte ter uma!!! pois nos anos quarenta vocês pode imaginar as dificuldades. mais hoje tenho esperanças de concegui será que não?
meu tio chamava-se, Serafim, minha tia AIDA, MINHAS PRIMAS, LEDA, OUTRA NILDA. SE ALGUEM CONSEGUIR EU AGRADEÇO DE CORAÇÃO AS FOTOS.
DEUS ABENÇOE TODOS QUE VIVERAM
ESTA ÉPOCA.
Estive um período muito curto na Ilha das Flores, eu era militar recém-incorporado no Corpo de Fuzileiros Navais. Não vi ninguém sendo torturado. Havia prisioneiras, nenhuma com aspecto de que havia sido torturada. Mas ví um prisioneiro algemado no pé de um beliche no alojamento dos soldados. Esse presioneiro havia tentado invadir o quartel à noite armado para tentar resgatar presos. Foi capturado. No dia em que o vi, eu estava passando na porta do alojamento onde ele estava preso. Estava deitado e sorridente nos acenou com a mão que estava livre. Ele estava guardado por um sentinela. Também esse prisioneiro não exibia nenhuma marca aparente de maus tratos.
Infelizmento so acusam os militares, mais hoje a tortura e com o povo e ninguém faz nada., Roubo atraz de Roubo..Lula, Dilma são os principais., a quadrilha se reune na Camara Federal e Senado Federal para organizar o roubo.
fui militar na ilha das flores e era enfermeiro remedei muitos presos que eram torturados na casa branca ponta dos oitis, e no primeiro distrito que eram levados de lancha e trazidos todos fragmentados, tinha tortura sim e nunca presenciei porque nao ia la ver , mas fazia curativos nos coitados e muito nem sabiao porque estavam apanhando, em razao desta brutalidade que era obrigado a conviver fiquei doente e ate hoje sofro com isso.
No Rio vão fazer um “shopping” e um museu da polícia no DOPS/RJ e um museu dos imigrantes na Ilha das Flores? O que falta? Fazer um museu do exército no DOI-CODI/RJ? É um desrespeito aos que sofreram nesses locais, em especial aos que foram mortos ou desaparecidos… São santuários onde podemos escutar suas vozes. É uma pena vivermos em um país tão atrasado e autoritário. A TORTURA CONTINUA!