Um só corpo e um espírito

Primeiro que tudo, precisamos fazer um esclarecimento de vocabulário: trata-se da palavra”espírito”. Em português, como em todos os idiomas europeus, a palavra espírito sugere imediatamente o contrário de matéria. O fenômeno vem de longe. As nossas palavras são herdeiras das palavras gregas e latinas e seu significado foi forjado pela mentalidade dos gregos e dos romanos. Desde então as estruturas fundamentais da linguagem européia e, portanto, do pensamento europeu não mudaram.

Espontaneamente, o “espírito” evoca a idéia de não-matéria, imaterial. E bem sabemos que no pensamento moderno somente vale o material: as realidades que se apresentam como imateriais parecem não ter o mesmo valor de realidade. Imaterial sugere algo etéreo, menos real, ou totalmente privado de realidade. Essa estrutura do pensamento moderno desprestigia a palavra “espírito”. Quando se fala em “valores espirituais”, todo o mundo imagina que está falando um burguês numa reunião do Rotary ou do Lions Club, depois de uma abundante ceia com bons vinhos e comidas finas: para o povo em geral, “valores espirituais” equivale a “palavras ocas”. Com efeito, os discursos dos burgueses ou dos políticos são ocos. Pronunciam muitas palavras para dizer nada.

Com certeza, o Espírito Santo sofre um grande desprestígio por causa do seu nome. Infelizmente, não existe outro disponível em nossa linguagem. Este é mais um caso em que aparece claramente que os idiomas europeus, derivados do grego ou do latim, são radicalmente inadequados às realidades cristãs: não têm palavras para exprimir o pensamento de Jesus Cristo. Jesus sempre falou idiomas semíticos: falava aramaico e conhecia a língua hebraica em que estava escrita a Bíblia. Foi um grande problema para os apóstolos a tradução da sua`mensagem para o grego e . depois, para o latim: o mesmo problema que temos com a tradução portuguesa que tem a estrutura do grego e do latim. Temos muitas traduções da Bíblia em português justamente porque nenhuma traduz exatamente o pensamento original e nenhuma o traduzirá no futuro, pelo menos nas línguas européias. Pode ser que ó árabe seja mais adequado porque pertence à mesma família da língua de Jesus.
Tudo isso serve para dizer que o nome não deve enganar quando damos à terceira pessoa da Santíssima Trindade o nome de “Espírito”, queremos dizer exatamente o contrário daquilo que o nome evoca. Conforme as palavras semíticas a nossa palavra “espírito” significa a força de Deus, uma força de tempestade, como a força do vento, a força do temporal, aquela que se manifestou no dia de Pentecostes. Quando a Bíblia diz que o Espírito estava ou desceu na pessoa de Davi, ou de Elias, ou dos profetas, isto significa que a força de Deus estava neles, que havia neles uma força inaudita, uma força nova, que vinha diretamente de Deus, que era a própria força de Deus, a força pela qual Deus tinha feito o mundo.

Ao prometer e anunciar a vinda do Espírito, Jesus abre o caminho para a entrada da força de Deus: o força que criou o mundo e volta a esse mundo para refazê-lo, para completá-lo e levá-lo ao seu destino final. Neste capítulo queremos meditar o fato central, o efeito central da vinda do Espírito: a formação ou a re-formação do povo de Deus. O Espírito faz um povo, aquele povo que fracassou no antigo povo de Israel. Todo o resto da sua atuação no mundo se explica a partir desta finalidade principal.
Na realidade, a missão do Espírito é muito diferente da missão de Jesus no sentido de que esta foi muito limitada no tempo, foi uma missão brevíssima, e a missão do Espírito Santo se estende ao longo da história: o Espírito entrou na história para nunca mais sair dela. Iniciou a história do povo de Deus e nunca mais desistirá de continuá-la.

Em verdade, o povo já existia antes de Jesus e Jesus pertencia a ele: foi criado nos tempos referidos pela Bíblia, e o próprio Antigo Testamento é a história do povo nos séculos que precedem a vinda de Jesus. Quando Jesus veio, viu que o seu povo tinha sido desviado e corrompido profundamente: já não era o povo de Deus que devia ser. Veio dar um impulso definitivo para tirar o seu povo dos limites da raça, da cultura e do território da Palestina, e para fazê-lo alcançar o tamanho do verdadeiro Israel, destinado a envolver todos os povos da terra.
Para que a expressão “povo de Deus” seja bem entendida, precisamos fazer outra advertência. Embora o povo de Deus seja o que s. Paulo chama de “igreja”, isto é “assembléia” no sentido profundo em que ele usa a palavra, não podemos reduzi—lo àquela realidade à qual damos o nome de Igreja na linguagem comum. Pois a linguagem comum usa a palavra igreja para designa o sistema institucional dirigido pelos sacerdotes, pelos bispos e pelo Papa. Esta Igreja tem com toda certeza um papel a cumprir dentro do povo de Deus e está chamada a assumir uma função de mediação a serviço do povo de Deus, mas ela permanece ambígua. Este aparelho institucional da Igreja tem a vocação de servir o povo de Deus, ajudando-o na sua promoção na história, mas por outro lado não deixa de ser traidor a sua vocação, servindo interesses mesquinhos, entre os quais o mais forte é a própria segurança e os meios materiais ou políticos que acha conveniente para garantir essa segurança.

O povo de Deus não é pura metáfora: á um verdadeiro povo. Podemos dizer que é o único verdadeiro povo, embora seja muitas vezes escondido, um povo principiante, um povo de esperança mais do que de presente. Pois os povos atuais das diferentes nações do mundo mal merecem o nome de povo. Pode-se dizer que existe realmente um povo brasileiro ? Povo quer dizer comunidade de seres humanos que tomam consciência de sua unidade com os seguintes sinais : afirmação de si, organização, autonomia na ação, direitos e responsabilidades assumidas por todos os membros. Povo é o contrário de massa. Num povo as elites e a multidão estão articuladas de modo harmonioso para o bem de todos. Em todos esses sentidos pode-se dizer que existe o povo brasileiro ? Existe, sim, uma aspiração em muita gente para ser um dia um povo. Mas esse povo ainda não existe.

Se examinarmos o que há no fundo da aspiração dos brasileiros para serem realmente povo, veremos que não há nada que o separe dos outros povos. Os povos não aspiram a uma existência separada, mas o povo verdadeiro deseja a unidade do mundo inteiro, no respeito mútuo das diferenças que não requerem, de modo algum, separação e, menos ainda, rivalidade. O papel dos Estados seria unir uma porção do povo determinada por uma terra com as outras porções para formar um só povo. Um só povo é a aspiração de Jesus passando por cima de todas as fronteiras. Na prática muitas vezes os Estados fazem o contrário: separam.

Isto quer dizer que, no fundo da aspiração de todos os povos , há uma aspiração para ser o único povo de Deus, um e diverso, reunião de todas as culturas do mundo. Esse povo de Deus, povo real e verdadeiramente humano, é criação do Espírito, obra própria do Espírito enviado por Jesus e também fim da obra de Jesus, já que a sua missão culmina no envio do Espírito. O processo de formação do povo de Deus é o fundo do qual brotam todas as aspirações e os movimentos das multidões humanas atualmente divididas em nações para formar povos no sentido autêntico da palavra porque todos unidos.

Jesus e o povo de Deus

Tudo quanto o Espírito realizará no povo de Deus para desenvolver esse povo estava prefigurado na ação de Jesus. Pois Jesus delineou claramente pelas obras e pelas palavras o que devia ser esse povo, embora não tenha feito nenhum plano abstrato.

As ações e os discursos de Jesus poucas vezes são dirigidos a pessoas particulares. Jesus habitualmente não fala para pessoas isoladas das outras. O que ele falou na intimidade não foi conservado pela tradição porque não tinha importância. Pelo contrário, os evangelistas mostram que Jesus foi uma pessoa pública, que fala em público para o povo. Sua preocupação fundamental não é a salvação de almas isoladas e sim o povo de Deus, o verdadeiro povo de Israel.

Melhor dito : Jesus vê em torno dele massas abandonadas e sabe que elas são chamadas à condição de povo de Deus. A sua intenção é fazer delas o verdadeiro povo de Deus.: “Ao ver a multidão ,ficou profundamente penalizado,porque estava fatigada e estendida por terra como ovelhas que não têm pastor”(Mt 9,36).

Jesus tinha consciência de que era o último na linha dos profetas. A missão dos profetas tinha sido esta: lembrar ao povo de Deus as suas origens, a sua missão e mostrar até que ponto a realidade de Israel estava distante da sua vocação. Ora, Jesus não era um profeta qualquer: não veio somente para denunciar e anunciar, mas para fazer: para promover o advento do povo verdadeiro além dos limites estreitos da terra de Israel e da Lei de Moisés, e para libertá-lo dos obstáculos que as elites de Israel tinham colocado no seu caminho.

Para Jesus, o problema do povo de Deus são as barreiras: sacerdotes, doutores, fariseus, todos levantam barreiras e excluem do povo de Deus multidões de abandonados no mundo inteiro. Cada categoria invoca pretextos: essa massas abandonadas são pecadores, ignorantes, mal educados, miseráveis, rebeldes, pagãos, supersticiosos, não observam os preceitos, não oferecem sacrifícios, não são devotos, etc.

Na mente de Jesus, o verdadeiro problema do povo de Deus não consiste em rejeitar e excluir todos esses excluídos. Muito pelo contrário, o problema consiste em abrir as portas a todos aqueles miseráveis, até muito além das fronteiras do Israel histórico. Abrir as portas e convocar a todos: esta é a missão de Jesus. Exatamente como na parábola (Lc 14,15-24).

Por isso é que Jesus descreveu a sua missão da seguinte maneira: “Não fui enviado senão as ovelhas perdidas da casa de Israel”(Mt 15,24).. Ele próprio mostra aos discípulos uma missão semelhante: “Ide às ovelhas perdidas da casa de Israel”(Mt 10,6). São todas aquelas que os sacerdotes, os doutores, os poderosos eliminaram dol Israel restringido por eles. As primeiras vítimas são todos os outros povos tratados como pecadores, e excluídos.

Os atos de Jesus manifestam a continuidade com esse propósito. Na realidade os seus atos constituem uma inversão completa dos processos estabelecidos em Israel naquele tempo..Para os sacerdotes, o problema é que o povo não comparece como devia no templo, não oferece os sacrifícios devidos. Para os fariseus, o problema é que o povo não observa todos os mandamentos, não pratica as obras de piedade e devoção e não tem conduta moral.. Para os anciãos das grandes famílias, o problema é que o povo perdeu o respeito à autoridade. Para os herodianos, o problema é que o povo não entende as necessidades políticas e se deixa enganar pelas ilusões revolucionárias. E para Jesus, qual é o problema?

O problema é simplesmente que existem sacerdotes, doutores, fariseus, anciãos e outras falsas elites que são falsos pastores que afastam o povo em lugar de reuni-lo, que o deixam com fome em lugar de levá-los para a vida, que excluem em lugar de incluir.. Jesus vem para fazer o contrário dos outros: para desfazer o que fazem os sacerdotes, os doutores e os outros falsos pastores; Jesus vem romper as barreiras, todas essas precauções levantadas por uma falsa prudência humana, e chamar os pecadores, os rejeitados de toda espécie. Vejamos o que dizem os evangelhos. Tudo o que Jesus faz diz respeito a essa luta contra as elites e a essa aproximação das massas abandonadas que esperam que alguém as levante.
Por isso, a atividade de Jesus é uma parábola admirável de toda a história ulterior do povo de Deus.

O povo de Deus vai repetir sem fim os mesmos gestos, as mesmas iniciativas, o mesmo debate entre elites e massas. Sempre a Igreja vai ser movida pelo Espírito para não ceder ao medo e à falsa prudência dos judeus contemporâneos de Jesus. Sempre os verdadeiros discípulos vão procurar imitar a Jesus na sua aproximação de tudo aquilo que está perdido. O trabalho do Espírito se acha prefigurado, e também inaugurado por esse trabalho de Jesus.

Tal continuidade não surpreende já que Jesus e o povo de Deus receberam o mesmo Espírito. O Espírito quis mostrar em Jesus qual era o seu plano, o seu projeto, a sua obra para orientar os séculos seguintes até o fim da história.

Como um profeta, como a pessoa em quem culmina toda a história dos profetas, Jesus recebeu a investidura do Espírito: a força de Deus estava com ele. S.Lucas mostra essa investidura de Jesus pelo Espírito desde a sua conceição (Lc 1,35). O batismo de Jesus foi como uma renovação da investidura profética na iminência do momento em que ele ia começar a sua missão (Lc 3,22). Depois disso “cheio do Espírito santo, voltou Jesus do Jordão e foi enviado pelo Espírito ao deserto (Lc 4,1). Depois das tentações no deserto, “regressou Jesus à Galiléia com o poder do Espírito (Lc 4,15). Entrou na sinagoga de Nazaré e leu o texto famoso de Is 61,1-2) tantas vezes lembrado em nossos dias: “O Espírito d Senhor está sobre mim porque ele me ungiu para levar a boa nova aos pobres, etc.”(Lc, 4,18). Esse texto foi adotado por Jesus como programa: ele se sabia enviado pela força do Espírito e sabia qual era a direção para a qual o Espírito o enviava. Isaias já havia anunciado tudo.
Contudo, Jesus tinha consciência dos limites da sua missão. Sendo homem Jesus era limitado no tempo e no espaço. Era um ser situado. Estava situado n o povo de Israel tão maltratado pelos que deviam ser os seus guias, mas sabia que n o meio do seu Israel, sobretudo nas terras pobres da Galiléia estava presente o resto do verdadeiro Israel e com esse resto ia assumir a promessa feita a Abraão. Ele podia dispor de três anos. Depois dele outros iam continuar a sua missão.

De certo modo ele ainda pertencia ao Antigo Testamento: sua atividade se achava delimitada pelo povo do Antigo Testamento. Ele próprio disse aos discípulos: “convém a vós que eu vá; se não for, não virá a vós o Defensor ( o Espírito); mas se eu for, vo-lo enviarei”(Jô 16,7)
Diante das palavras e dos comportamentos de Jesus, as elites de Israel ficam perplexas e aborrecidas. Também as elites de todos os tempos. Elas procuram exegetas e teólogos que lhes expliquem que não se deve tomar tudo ao pé da letra, que Jesus fala como oriental que sempre exagera na linguagem. Nunca faltaram exegetas e teólogos para restaurar a tranquilidade das elites da sociedade e para explicar que não devem levar a sério o que está escrito nos evangelhos. Pois eles sabem melhor o que Jesus quer mesmo. Na realidade, se se tomam literalmente os comportamentos de Jesus, parece que levam a uma utopia total, uma anarquia total.. Ele perdoa tudo, aceita tudo, abre as portas para todos. Os “prudentes” perguntam-se : “O que é que vai acontecer agora ?” Essas elites podem descansar em paz : porque sempre terão a força suficiente para crucificar todos os que incomodarem. Além disso nunca permitirão que os discípulos de Jesus comecem sequer a repetir o que Jesus disse ou fez.. Uma vez pareceu que haveria uma exceção : foi quando Francisco de Assis e os seus companheiros começaram a imitar a vida de Jesus. Logo os “prudentes” tomaram conta da experiência e os franciscanos deixaram de incomodar. Estudaram a teologia que lhes explicou que Jesus queria dizer o contrário daquilo que os evangelhos contam. Desde então a Igreja institucional conseguiu evitar a repetição de tal excesso.

A ação de Jesus ia muito além de todos os programas de reforma política ou social: as revoluções políticas e sociais são imediatamente limitadas pelo necessário “realismo” dos dirigentes que devem levar em conta as condições reais da humanidade. Jesus lançou um movimento irrealizável em forma de programa: contudo é um movimento que vai fermentar e que ainda não acabou de fermentar e produzir tentativas de encarnar na realidade histórica aquele projeto de povo de Deus.

4 comentários sobre “Um só corpo e um espírito”

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  2. Desculpe. O espirito não pode ser separado da matéria. Ele compõe a matéria: E=mc²
    Quanto a Jesus, perdõe de novo. Sequer existiu – por isso nunca se viu nenhum escrito dele, mas de uns apóstolos, que também não existiram. Meros nicks usados por Santo Agostinho, ao gáudio de Constantino.
    Essa estória, cuja razão se deve a salvar a humanidade do pecado original por ter comido a maçã e assim ser condenada a trabalhar foi e é a principal responsável pela escravatura. Seus difusores ou são muito ingênuos, ou hipócritas. A ambos o silêncio lhes conviria melhor.

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