Foto: Bira Soares.
Em homenagem a um dos imortais da literatura brasileira, o Instituto Carioca de Criminologia, junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizou no dia 14 de agosto o evento Centenário da morte de Euclides da Cunha.
Apesar da atualidade de Euclides, o salão nobre da UFRJ não ficou cheio. Nem a mesa, composta pelo reitor anfitrião, Aloísio Teixeira, o escritor Joel Rufino, a socióloga Vera Malaguti e o teatrólogo José Celso, atraíram o público. Na ocasião, não só a pessoa e a obra de Euclides foram analisadas, mas também o contexto sócio-cultural e político do país desde sua trajetória.
Aloísio Teixeira foi encarregado de iniciar o evento, fez um apanhado geral sobre o escritor. Lembrou de uma pesquisa que a revista Veja fez anos atrás, ao selecionar 15 intelectuais de áreas distintas para escolherem as 20 obras mais representativas da literatura brasileira: Os Sertões, a pérola que consagrou Euclides na literatura, foi a única indicada por todos, superando obras de Machado de Assis e Guimarães Rosa. Literatos como Vargas Llosa e Borges, dentre outros junto à vasta referência bibliográfica, beberam nessa fonte para a sua criação; disse o reitor.
Ainda em alusão à guerra de Canudos, reportada em Os Sertões , Aloísio lembrou dos jornais das capitais, monarquistas, que propagaram à época um cenário político enquanto o problema na verdade era social. Segundo José Celso, isso foi transformador no caráter de Euclides que chegou à região ainda contaminado pelos pensamentos da época e se deparou com algo completamente diferente: “o Euclides que vai lá pela sociedade patriarcal vira um poeta”. O capítulo A terra em Os Sertões, por exemplo, Zé Celso o considera “um canto como são os cantos de Homero”.
Joel Rufino iniciou especulando com muito humor, na seguinte pergunta: “se Euclides vivesse hoje, de que partido ele seria?” Um PT desencantado, respondeu, passando talvez por uma militância no PCdoB – já Machado de Assis seria do PSDB, Olavo Bilac do DEM e Coelho Neto PMDB, todos seus contemporâneos. Para ele as interpretações sobre Euclides hoje são outras, pois o escritor é um homem anterior à 1ª Guerra, fundação do partido comunista, tenentismo, semana da arte moderna, rádio, revolução de 30, urbanização e por aí vai, fatos que desencadeiam outra leitura de sua obra.
O ponto fundamental para Rufino é o Brasil dual apresentado por Euclides, “ele colocou o país diante do espelho”: uma nação “dos incluídos e dos excluídos, de um litoral que se desenvolve num padrão capitalista e o interior”. Quando dava aula na década de 60, Joel achava desnecessária a leitura da primeira parte do livro, mas hoje reconhece a poesia que contém: “o encantamento através de palavras, sua alma coletiva, como se o Brasil tivesse escrevendo a si próprio”.
Já a socióloga optou por fazer um parêntese criminológico, Vera Malaguti é especialista nessa área e enveredou pela “questão criminal onde Euclides é uma expressão fundamental”. Também pensando em Canudos, “a chacina que fundou a República”, uma “vitória envergonhada”, ela criticou a influência do positivismo no pensamento brasileiro que até hoje se encontra enraizado em nossa cultura. Uma ideologia surgida com o medo das insurreições populares, foi “uma sofisticação dos sistemas colonizadores”, um discurso técnico que classifica e legitima inimigos dando brecha à justificativa de mortes.
Ao racionalizar programas governamentais, complementado pela naturalização da desigualdade através do darwinismo inserido no campo das ciências humanas, o positivismo promove o controle social no Brasil: ordena os problemas locais e gerais dos pobres. Euclides desenvolveu uma ideologia crítica depois de ver de perto a realidade do sertão baiano, escreveu em artigo, por exemplo, que “a nossa evolução biológica reclama a evolução social”. Para Vera, ele foi um “narrador sincero que encara a história como ela o merece”: aponta, por exemplo, a atuação das forças armadas como “mercenários inconscientes”.
Zé Celso está hoje com uma peça adaptada da obra de Os Sertões. Ele relatou a dificuldade que enfrentou ao levar a peça para Canudos, pois a universidade local alegava que a estética era inadequada e os moradores ficariam chocados: foi preciso apoio de um movimento internacional. Já o prefeito de Quixeramobim, cidade natal de Antonio Conselheiro, líder em Canudos e personagem interpretado por Zé Celso na peça, chamou o projeto para a cidade.
Os Sertões é traduzido em diversos países, principalmente na Alemanha e China, afirma o teatrólogo, que gostaria de vê-lo transcrito entre os árabes. Ele destacou que até hoje Canudos é uma cidade mártir, dominada por uma oligarquia pobre, o próprio povo não despertou para isso. Canudos representa também “o arquétipo de qualquer favela, esse conflito da sociedade patriarcal monoteísta com aquela sociedade sem estereótipos e multicultural”. Mas finalizou com esperança, utilizando também uma citação do presidente do Equador: “a seca na terra vira primavera, a coisa mais bonita do livro, e ela virá”, pois “nós não estamos numa época de mudança, estamos numa mudança de época”.
Euclides da Cunha morreu em 15 de agosto de 1909 ao tentar atirar no amante de sua mulher que, em legítima defesa, o matou. Teve sua formação em escola militar, onde ocorreu o episódio que lhe levou pela primeira vez ao público: protestou num desfile militar em frente ao ministro da justiça, nos períodos de efervescência política com a abolição e o republicanismo. Colabora para um jornal estudantil, depois passa pelo A Província de S. Paulo, até chegar ao O Estado de São Paulo, sendo o repórter consagrado posteriormente com a sua cobertura sobre Canudos – transformada em Os Sertões. Essa obra o imortalizou na Academia Brasileira de Letras e o tornou membro do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. Em seus escritos recorria aos mais diversos campos do conhecimento, foi também engenheiro. Publicou sua conferência sobre Castro Alves e, dentre outras obras, seus escritos sobre a Amazônia foram editados após sua morte com outros ensaios em À margem da história. Suas mensagens estão vivas, a poesia e crítica euclidiana permanecem frente às injustiças em nosso país.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/

Sem Duvidas,Euclides da Cunha se tornou celebre em nossa literatura e agora que completa cem anos de sua morte devemso homenagea-lo de alguma forma,para isso o Colegio Professora Alice do Carmo Oliveira tem honra de coloca-lo como um dos principais temas da semana cultural 2009.