No documento que o grupo Kairós-Nós Também Somos Igreja apresentou ao encontro do Movimento Internacional Somos Igreja (IMWAC) em outubro de 2012, se lê como um dos pontos propostos aos participantes:
priorizar nosso olhar analítico (seja em relação à Igreja ou à sociedade) a partir dos excluídos de nossas sociedades (as mulheres, os pobres, os negros, os migrantes, os trabalhadores rurais e urbanos, etc.)
Não entendemos que seja justo nem correto, repetir a exclusão social de vastas camadas de pessoas das sociedades em que vivemos, ao lhes darmos as costas, privilegiando os temas institucionais (da Igreja ou do Estado), ao invés das questões concretas da existência social. Enquanto cidadãos e cidadãs, temos a obrigação de devolver, às pessoas que pagaram as nossas carreiras universitárias, ações e conhecimento que conduzam a uma melhoria das suas condições de vida. Isto, sem uma perspectiva salvacionista, e sim, co-participativa, integrada horizontalmente com outras iniciativas e experiências sociais em marcha nas comunidades de que fazemos parte, e com as quais partilhamos o destino.
Nesse sentido, muitos de nós desenvolvemos atividades nas áreas da educação, educação popular, promoção da saúde mental comunitária, proteção dos direitos humanos, recuperação de pessoas vítimas da violência e da exclusão, entre outras frentes de ação. Entendemos que a vivência do Evangelho nos volta, obrigatoriamente, para uma caminhada junto com as pessoas em sofrimento. Não para salvá-las, mas para nos salvarmos junto com elas. Neste sentido, procuramos desenvolver práticas sociais inclusivas, das quais fazem parte pessoas de diferentes classes sociais, em que há trocas de saberes e competências, numa perspectiva de construção coletiva do conhecimento, e de construção também coletiva de projetos vitais.
Desta maneira, entendemos estar dando um testemunho do seguimento de Jesus, que se aproximava das pessoas em sofrimento, para estimular nelas a confiança e o exercício do próprio poder. Estas práticas sociais integrativas, estão baseadas no conhecimento e na experiência de Paulo Freire e de um dos seus continuadores, Adalberto Barreto. Respectivamente, nos campos da educação, educação popular, e promoção da saúde mental comunitária (Terapia Comunitária Integrativa ). Nas nossas sociedades, a inclusão social é um desafio enorme, uma necessidade premente. E não há tempo a perder. A vida das pessoas é muito preciosa, e a forma como se desenvolve nos nossos países a exploração capitalista, depreda constantemente e sem piedade, vastas camadas sociais.
Quebrar na prática o hiato entre os que pensam e podem e as maiorias que são excluidas da sociedade para serem apenas massa de manobra da exploração capitalista, supõe algo mais do que manobras discursivas. Envolve ações, por minúsculas que possam ser. Nenhum esforço é perdido. Existem movimentos sociais de diversa índole, como o Movimento das Comunidades Populares, que trabalham nas periferias urbanas e rurais, fortalecendo os laços comunitários, prevenindo a drogadição e o alcoolismo, desenvolvendo formas libertadoras de religiosidade.
Esta e tantas outras inciativas, são formas concretas de defesa da população contra a destruição da vida pelo sistema sem alma. Nos jornais que o MCP publica, tem voz os índios, os negros, os camponeses, os excluídos do sistema. Do que se trata, é de ir criando pontes, extinguindo as fronteiras do preconceito e da indiferença.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
