Um olhar do racismo vindo de fora: Alexandra Loras

Foto: Reprodução Internet
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Não sou de assistir o programa do JÔ Soares, por motivos óbvios de horário, mas sempre há oportunidade de revê-lo nas redes sociais. Assim tive a grata surpresa de conhecer a ex consulesa da França em São Paulo, Alexandra Loras. Foi também das pouquíssimas vezes que vi o apresentador Jô Soares ficar calado por bastante tempo, e sem graça diante de uma pergunta a ela sobre as cotas raciais. Foi uma das melhores entrevistas que assisti, veja aqui.
A consulesa está há pouco tempo no país, e logo nos primeiros dias notou que o Brasil é de fato colorido nas ruas e monocromático em espaços de poderes onde a presença negra é “quase” de invisibilidade. A tão badalada “democracia racial”, cantada em versos e prosas pelos nossos formadores de opinião, ficou como canto de sereia que aos poucos foi se desfazendo. Foi uma decepção. Para os negros brasileiros, a democracia racial nunca foi fantasia. Pelo contrário, foi umas das facetas políticas e ideológicas negar sua própria existência.
A consulesa está fazendo o que somente os ativistas da causa negra e outras exceções procuram fazer há anos: denunciar o racismos no Brasil. Prática bem peculiar e desenvolvida pelo país. Não há, por exemplo, o racismo clássico que conhecemos. Há nuances que passam despercebidas para quem não é um bom observador, como o famoso elevador de serviço utilizado nos prédios de classe média alta. E o também clássico resquício da escravidão,o quarto de empregada bem menor que um banheiro. Até pouco tempo, o serviço de empregada doméstica no Brasil não tinha carteira assinada, dando assim brechas para a exploração e abusos morais e sexuais.
Alexandra Loras fará muito bem em levar o tema racial para locais onde ainda persiste a não diversidade racial e também de gênero (mulheres negras). As empresas brasileiras e multinacionais não sabem muito bem este conceito, alegam que não há profissionais negros gabaritados para assumir determinados postos de chefia ou presidência . Mentira.
As políticas de ação afirmativa (cotas) é uns dos exemplos mais nítidos desse avanço ético social. A começar por essas políticas de inclusão racial. Numa entrevista à Revista Raça Brasil (Janeiro de 2009/Edição 127), a jornalista Miriam Leitão foi enfática ao perguntar a uma multinacional a ausência de negros na empresa. O presidente da empresa disse: “Não. Este problema não existe, no Brasil não tem racismo”. A jornalista rebateu dizendo: !Está bem, o Brasil não tem racismo. Agora só falta entender por que toda sua diretoria é toda branca?” Não houve resposta .
O mito da democracia racial é ainda forte na sociedade brasileira, inclusive serve de pretexto para além de negar o racismo também camuflar as mortes de milhares de jovens negros. Os números são semelhantes às guerras civis. Os setores mais conservadores da sociedade negam avidamente a existência da prática.
O mapa da violência não deixa mentir sobre esse dado tão triste, o jornalista Leonardo Queiroz comentou sobre o assunto: “Observo que na década compreendida entre 2002-2012 há uma significativa queda no número de homicídios de jovens brancos, ao passo que aumenta o morticínio de jovens negros. Enquanto em 2002 morriam 10.072 jovens brancos para cada 100 mil habitantes, esse número decai para 6.823 em 2012. Não obstante, o número de homicídios de jovens negros saltou de 17.499 para 23.160 no mesmo período. Houve um decréscimo de 32,3% na morte de jovens brancos ao passo que os jovens negros vitimados aumentaram 32,4%, é dizer que para cada branco morto, morrem 2,7 negros”.
Outro dado a ser observado é que no último ano da série (2012) houve um crescimento de quase 10% nos homicídios de jovens negros. Com atenção especial para Bahia, onde a taxa de jovens negros mortos duplicou, números inadmissíveis em tempos de paz. Leia aqui matéria sobre o assunto.
O Brasil começará a mudar este cenário quando todos nós tomarmos consciência que há um hiato que separa negros e brancos. O país vive uma divisão racial há séculos, e quando a desigualdade racial diminuir ou acabar de vez todos nós ganharemos. Viver numa diversidade faz bem para qualquer sociedade que busca justiça e igualdade para todos.
Para nossa felicidade, a consulesa está preparando um livro com intelectuais e inventores negros de todo o mundo. É motivo de alegria e auto-estiva elevada. Temos motivos de sobra para mostrar a participação negra no campo político social e científico.
Muitos jovens sentirão orgulho ao ler a história de negros protagonistas num mundo tão injusto para determinados grupos de pouca visibilidade.
A ex consulesa Alexandra Loras é bem vinda para contribuir nesta luta contra o racismo. Um olhar de fora é importante para essa luta tão cruel que é o racismo.

Um comentário sobre “Um olhar do racismo vindo de fora: Alexandra Loras”

  1. Muito bom texto. Resumo da atual e triste realidade. Admiro demais o posicionamento da Alexandra e a escolha dela e de seu marido de deixar a vida diplomática. Ela é uma voz importante que confronta a elite.

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